“Mas há primaveras”

[Para acessar o Manifesto, ou assiná-lo, ou ver quem já subscreu: ir à coluna lateral deste blog]

Seguimos na busca de mais adesões ao Manifesto, como mencionamos, propusemos uma meta de pelo menos 5.000 assinaturas. Certamente até sexta-feira teremos ultrapassado esse número. Também na sexta-feira passaremos a divulgar oficialmente esse documento, encaminhando-o aos meios de comunicação, juntamente com uma campanha intensa de divulgação pela Internet. No mesmo dia estará disponibilizado aqui um arquivo com cartaz do Manifesto, para impressão.

Assim, a partir de hoje, no sentido de otimizar este espaço, que tão generosamente tem sido visitado por vocês (o blog foi criado na sexta-feira passada e já conta com 40.000 acessos), e contribuir com o debate acerca da educação, passaremos a publicar artigos pertinentes à ela. Pedimos contribuições de textos para publicarmos. Quem puder fazê-lo, envie para o e-mail do blog (emdefesadaeducacaopublica@gmail.com).

Uma vez que falamos do jeito Serra de governar, e tendo em conta que recordar é viver,  começaremos com três textos que tratam de momentos vergonhosos ocorridos em São Paulo, quando uma das principais universidades públicas do país, USP, foi agredida em sua integridade e autonomia. Falamos, primeiro, dos famigerados Decretos de 2007, baixados por Serra como seu primeiro ato em relação às Universidades públicas de São Paulo, revogando a relativa autonomia da USP, ato que redundou na Ocupação da Reitoria da Universidade de São Paulo, quando esta ficou sob ameaça de invasão policial por 51 dias (tempo que durou a Ocupação). Nesse período, a quase totalidade das Públicas paulistas paralisaram suas atividades em defesa da autonomia universitária . Por fim, nos remetemos a momento mais recente, 2009, ocasião em que a USP foi invadida pela Polícia Militar, sob as ordens do então governador José Serra, culminando em cenas de violência contra estudantes, funcionários e professores – nos quatro anos de Serra no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São Paulo, USP, Unesp, Unicamp, PUC e Fundação Santo André foram invadidas pela PM paulista.

Assim, começamos pelo evento mais recente publicando a seguir um artigo escrito pela professora Adma Muhana, em junho de 2009,  onde trata especificamente da invasão. Embora não fale diretamente em Serra, é certo que a PM não teria agido sem autorização do governador do Estado, ao qual se submetem [ou ‘têm se submetido’] os reitores das Universidades paulistas.

Mas há primaveras

Por Adma Muhana*

A comunidade universitária e a opinião pública têm procurado, atônitas, acompanhar os acontecimentos recentes na Universidade de São Paulo. Como acreditar que professores, alunos e funcionários da USP, em especial da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, sejam criminosos cujos atos merecem ser severamente reprimidos com bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e gás pimenta? Como acreditar que querem destruir seu patrimônio, agir com violência e causar danos aos demais? quem acredita nisso? por quê?

Se se compararem as informações e declarações dos últimos dias, será possível repor a situação. Em plena negociação salarial, em 25 de maio, a Reitoria fechou as portas do prédio e não deixou parte da comissão de negociação entrar. Ao agir assim e quebrar a regra da cultura democrática instituída, não era improvável que soubesse da reação dos estudantes que, impedidos de entrar, poderiam forçar a porta e fazer uma “invasão” relâmpago. Mas, depois dos acontecimentos de 2007, havia uma resolução do Conselho Universitário autorizando a Reitoria a chamar a polícia quando julgasse necessário, a qual foi aplicada.

Docentes e estudantes sabem ensinar e estudar, principalmente. Talvez até, de um modo um tanto canhestro e desafinado, também saibam protestar. Alguns estudantes gritam e chegam a tirar cadeiras e pô-las diante das salas de aula, impedindo a entrada nelas – sinais de sua impotência, de sua insegurança e da desinformação acerca de outros canais de manifestação mais legítimos e eficazes, de que os professores (ainda) dispõem. Mas essa alegada “violência” estudantil não tem parâmetro com as armas usadas pela PM, treinadas para eliminar malfeitores, e descontentes… Inacreditavelmente, a atual reitora da Universidade de São Paulo pensa que sim!

Isto é ofender a USP e todos os seus membros. Pretextando grupelhos, radicais e sabe-se lá mais o quê, a Reitoria entregou a direção da universidade a um comandante policial. Ao ser alertada por um docente de que a presença da polícia no campus poderia causar graves danos físicos e morais a membros da comunidade, e de que as armas utilizadas pelas tropas contemplavam escopetas e metralhadoras, a reitora limitou-se a dizer que a escolha das armas adequadas à ação policial não era da sua alçada. A reitora transferiu sua responsabilidade pela vida dos estudantes, professores e funcionários, das crianças e adolescentes que estudam na Escola de Aplicação, e de todos aqueles que livremente transitam pelo campus Butantã da USP, a um coronel da PM.

Os professores da USP não estavam em greve. A campanha salarial e a carreira docente importam aos professores porque sabemos o efeito nefasto que salários aviltados causam ao ensino, como temos visto na precarização do ensino secundário. Os mais velhos se lembram de como o ensino médio público era padrão de qualidade para a escola privada, o que hoje nos parece um sonho desaparecido. A recuperação salarial nos importa para que a Universidade pública não passe a ter salários tão baixos que os melhores profissionais prefiram se afastar dela e servir apenas à iniciativa privada, com seu principal interesse no lucro, e levando ao desaparecimento das investigações independentes que interessam ao coletivo. Lutar por salários, todos sabem, é lutar por deixar uma universidade com melhor qualidade e para que a USP tenha o que comemorar daqui a 25 anos.

Os estudantes da USP não estavam em greve. O temor relativo à Univesp, ou Universidade Virtual do Estado de São Paulo, provém da convicção de que a expansão virtual da Universidade se fará à custa da qualidade do ensino e em detrimento das políticas de permanência estudantil por que vêm lutando, da construção de salas de aula presenciais, bibliotecas, laboratórios, moradias e restaurantes universitários, temor compartilhado por alguns professores que relataram desconfianças na implantação do Programa.

Todos estes são assuntos importantes para homens e mulheres que, trabalhando dentro da Universidade, abdicaram de ser meros consumidores e reprodutores de um saber para, com diversas dificuldades, se tornarem sujeitos de conhecimento, de ação e de transformação da sociedade. Requeriam, pois, que decisões dessa monta fossem tomadas com o conhecimento da ampla maioria da comunidade acadêmica, e não por decretos e resoluções. Todavia, recusando-se a negociar, a esclarecer, a Reitoria da USP teve como única resposta para a dificuldade do momento inventar uma ocupação para chamar a polícia. No dia 9 de junho os professores em assembléia, pensando em conjunto como retomar as negociações, ouviram tiros e gritos que dificilmente esqueceremos. Do prédio da Reitoria, de uma de suas janelas, umas dez cabeças assistiam ao lúgubre espetáculo de alunos e professores fugindo das bombas e sendo acuados no prédio da História. Apesar disso, e embora vários colegas tenham tentado contatos com a reitora, a fim de evitar um desfecho de proporções inimagináveis, ninguém, em momento algum, atendeu aos chamados dos docentes. Contatado, finalmente, o governador se calou: as armas já tinham falado por ele. Passado o furacão, reitoria e aliados vêm a público se manifestar e justificar atos injustificáveis.

O tecido universitário está desfeito. Todos os que defendem uma universidade pública, com direito a discussões, propostas, ações solidárias e coletivas, deixamos de reconhecer a reitora como interlocutora de nossa prática acadêmica. É verdade que, dentro e fora da Universidade, há os que aprovam a ação da polícia, alegando destruição do patrimônio público; desqualificam a decisão das assembléias em favor da greve, apelando para o direito dos que querem aula, embora não compareçam a elas; contestam os piquetes de funcionários e alunos, argumentando serem contra uma “violência generalizada”. Essas mesmas vozes recorrem a proposições vagas e metafísicas, que, descoladas de seu contexto político, ridicularizam o direito “à diferença”, “à opinião” etc.; mas se calam diante de questões materiais decisivas para a Universidade estadual, como a destruição do patrimônio público perpetrada, esta sim, pela polícia e por fundações privadas instaladas no interior da USP. Negando o direito à greve e a piquetes, propõem em seu lugar que cada um faça o que bem entender, desde que confortavelmente instalados em seus gabinetes particulares, ao abrigo do espaço coletivo e presencial de discussão. Parecem supor que a condenação das assembléias de professores e estudantes é feita ainda em favor do direito do aluno, como pagador de impostos, de ter sua mercadoria-aula. Ao sobreporem a figura do consumidor à do cidadão, transferem a cultura da universidade privada para dentro da Universidade pública, transformando os grevistas em anti-cidadãos-vendedores que não cumprem sua parte no troca-troca do mercado – como se estes não pagassem também seus impostos e não tivessem direito a forma alguma de dissidência. Certamente que, assim, esse discurso cala-se diante da destruição da Universidade pública levada a cabo por governos neoliberais e encobre sua adesão à mesma ordem de coisas, sob a capa de uma pretensa motivação pacifista.

Neste sentido, a Universidade deve se envergonhar de que uma parte do seu corpo docente e discente não condene a ação policial contra atos de caráter político: pois isso significa que essa parte não se importa com o coletivo e com o tipo de conhecimento e ética que estão sendo transmitidos nessa Universidade. A sociedade deve saber disso e querer que, na Universidade de São Paulo, os professores, os médicos, os arquitetos, os atores, os engenheiros, os biólogos, os psicólogos e todos os que aí se formam, com a contribuição de todos nós, visem mais ao bem coletivo que ao seu único e próprio lucro. E fazer parte da coletividade implica ter de olhar para além do seu escritório particular, do seu consultório e da sua sala de aula.

Agora a Universidade de São Paulo está em greve, exigindo a retirada imediata e definitiva da polícia no campus, para que retornem as condições de diálogo entre todos os envolvidos. Mas desde que a Universidade foi violentada com a permissão, ou pior, a mando de seus dirigentes, os professores requerem que a atual reitora se afaste do cargo e torne a ser algo de que possa se orgulhar: professora. Oxalá, assim, o próximo reitor compreenda que uma universidade não se faz virtualmente, nem com tropas militares, mas com docentes, estudantes e funcionários preocupados com o ensino e com a pesquisa, e sobretudo, com fazer parte de uma menos triste humanidade.

 

*Adma Fadul Muhana, professora de Literatura Portuguesa da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da USP.

[Este artigo foi escrito e publicado em junho de 2009, logo após a invasão da Universidade de São Paulo pela Polícia paulista]

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9 comentários
  1. Renato disse:

    Estou preparando uma lista com todos os email de prof da USP, para a qual será encaminhado o manifeo

  2. Caros colegas

    Antes de mais nada, pode ser que tudo que eu vá dizer já tenha sido resolvido da forma que eu proponho, assim, se for esse o caso, peço, desde já, desculpas, pois estou afastada da USP há algum tempo e, por isso, não estou informada de todos os procedimentos seguidos após a invasão da Reitoria pelos alunos.

    Concordo que a autonomia da USP deva ser restabelecida, mas… não concordo que uma ocupação deva ser sinônimo de depredação!!!

    E o que eu vi, naquela invasão da Reitoria pelos estudantes, foi sim um grande descaso ao patrimônio público!

    Liberdade só pode ser um direito se acompanhada de responsabilidade.

    Concordo que os estudantes possam até não saber como agir, que lhes falte experiência, mas… depredação é depredação!!!

    E não foi só isso: vimos, claramente, o uso abusivo de bebidas alcoólicas durante a referida invasão!

    Também já fui estudante. Também já participei de manifestos dessa natureza. Também já participei de invasões. Mas NUNCA participei ou concordei com algazarras num espaço público!!!

    Ou seja: permitir que QUALQUER cidadão destrua QUALQUER patrimônio público, ainda mais num espaço que, pra mim, sempre foi um exemplo, em termos de ensino, é, a meu ver, algo inadmissível.

    Não penso que a intervenção da polícia tenha sido a mais adequada, mas as cenas que vieram a público, de alunos (alunos mesmo???) bêbados, rindo em demasia, mostrando descaso à sujeira e a tudo que estava quebrado ao seu redor… bom, provocou, no mínimo, em quem estava de fora da situação, uma reação de receio pela vida daqueles jovens, pois aquelas cenas lembravam mais um ato de vandalismo do que uma manifestação por uma causa justa, digna.

    Como ver dignidade em manifestantes bêbados?

    Como ver justiça, coerência e responsabilidade em jovens bêbados, mostrando, claramente, um descontrole emocional?

    Até eu, que não tenho filhos, temi pelo que poderia acontecer àqueles jovens que, pelo menos pelas imagens que foram veiculadas, mostravam, total irresponsabilidade e desrespeito pelo espaço ocupado, além de demonstrarem total descontrole sobre si mesmos!

    Se não houvesse uma ação rígida naquele momento, o que sobraria da Reitoria?

    E pior: o que aconteceria com aqueles jovens, que, diga-se de passagem, não demonstravam apenas um estado de embriaguez, tamanho descontrole emocional que transpareciam?

    Quem seria acusado, caso algum desses jovens sofresse abuso sexual, por exemplo, apenas por não ter noção de que isso estava acontecendo, em função de uma embriaguez ou o que seja que lhes tirassem o discernimento? E mais, com tudo isso ocorrendo dentro de uma instituição de ensino superior pública!

    NÃO!!! Atitudes dessa natureza não podem acontecer de forma alguma!!!

    Como disse, NÃO CONCORDO COM A INTERVENÇÃO DA POLÍCIA, pois também defendo a autonomia da USP, mas também não concordo com o que eu vi…

    O caso, então, é como evitar que os jovens se manifestem assim, com tanto desrespeito.

    Ou, antes, é encontrar meios de impedir que os jovens percam tanto o controle.

    Uma coisa é não saber como agir. Outra, BEM diferente, é agir de modo irresponsável.

    O curioso é que, numa instituição de ensino superior, do porte da USP, não tenha aparecido NINGUÉM capaz de dar um basta na manifestação desses jovens ou de, pelo menos, deixar BEM claro que eles seriam responsabilizados por cada patrimônio depredado, cabendo, a eles, a OBRIGAÇÃO de repor TUDO o que fosse destruído!

    Não me parece que, numa instituição de ensino, do porte e com o histórico da USP, esse papel deva caber à polícia, MAS… como não houve NINGUÉM por lá que resolvesse essa questão… bom, esperar para ver o que sobrava intacto parece-me tão irresponsável quanto aproveitar uma invasão para beber, divertir-se, quebrar o que não lhe pertence e coisas do tipo…

    Assim, se a instituição quer ter de volta a sua autonomia, deve, a meu ver, antes de qualquer manifesto, assumir que houve exageros desnecessários naquela invasão, estimulando que os envolvidos se responsabilizem por TUDO que fizeram dentro do prédio da Reitoria, repondo o que foi depredado na forma de trabalhos dirigidos à comunidade local, seja com pesquisas que auxiliem a comunidade, seja com trabalhos que possam ser, legalmente, exercido por estudantes.

    TUDO, excepcionalmente, sem remuneração, mas, também, TUDO registrado como atividades vinculadas ao meio acadêmico, cabendo, inclusive, o direito a uma declaração por cada tarefa cumprida, declaração esta que o aluno poderia incluir no seu currículo de um modo perfeitamente legal, como ocorre com a Bolsa Trabalho (não sei se ainda tem esse nome), que oferece vagas para estudantes trabalharem na instituição e que tem o mesmo valor de um estágio remunerado.

    Aí sim, a meu ver, a instituição mostraria ser, de fato, uma universidade autônoma, pois isso mostraria, CLARAMENTE, que essa mesma instituição sabe gerir a si mesma APENAS cumprindo o seu papel, que é, a meu ver, o de ensinar respeito, de inspirar a noção de responsabilidade, de ser justa, sem, com isso, precisar ser cruel…

    Cordialmente,
    Silvia Vitória de Oliveira.

    • O artigo da professora Adma trata da à invasão da USP, em 2009, pela Polícia. Nessa ocasião não houve ocupação da reitoria; a Ocupação se deu em 2007.

      • Silvia disse:

        Grata pelo esclarecimento!

    • José Carlos Andrade disse:

      Cara profa. Silvia

      A situação nestas ocasiões é de um conflito político com a administração da universidade. Os estudantes que se manifestam o tornam público, caso contrário, não estaríamos debatendo e nem a universidade precisaria se explicar, apenas aplicaria um processo administrativo. Segundo esta versão, estaríamos falando de uma festa que invadiria sedes administrativas da universidade, tiraria seus funcionários e faria orgias regada a bebida de marcas vagabundas. Não é o caso, e não tem lógica, considerando que os estudantes possuem outros lugares para estas atividades sociais, mesmo que muitas vezes, até mesmo estas sejam proibidas.

      Trata-se, num caso e de outro de uma manifestação que tenta, frente a momentos de enrolação, até que prefere-se, muitas vezes não dar explicação nenhuma. Não poderia recompor aqui tudo o que foi a ocupação da reitoria, mas diga-se que ela tratou de evitar que o dinheiro que financia a Universidade, todo ele, ficasse retido na mão do governador do Estado que é o atual candidato a presidente, para que todos os gastos tivesses sua aprovação item a item, inviabilizando a aquisição de materiais, pagamento de salários, realização de contratações de funcionários, professores, pesquisadores, etc etc e aumentando toda a burocracia deste processo. Além disso, manteria apesar do alardemaneto da transparência, todo o aferimento do gasto público numa conta só acessável por juízes e parlamentares, ao contrário da prestação de contas que ocorre hoje e ainda por cima, depois de reter o dinheiro da universidade um tempo, obrigando, de modo nada sutil a realizar cortes inesperados e contenções inúteis num lugar que possui laboratórios e estrutura mantida constantemete.

      Frente a isto, ela é composta por uma infinidade de pessoas, manter um controle estrito num local onde ocorrem furtos constantemente em período normal é impossível, imagine se os estudantes por si conseguiriam, ainda mais se encontravam policiais infiltrados, quiçá os outros interesses que poderiam querer se imiscuir ali em gente que passasse pela segurança não profissional que organizaram. Mas há, além disso um detalhe. No dia seguinte a desocupação, um item negociado não foi cumprido e isto é crucial, o que podemos tomar como certa desforra da reitoria.
      Soube que, após combinado que uma comissão verificaria com a reitoria o local, para garantir que nada teria sido deslocado ou mudado e para contabilizar os prejuízos de fato, que simplesmente, a reitoria liberou a polícia e, na sequência, a imprensa, louca que estava para arranjar confusão, como a própria VEJA havia prometido e pedido a repressão no número em que dizia que estavam brincando com o fogo ao desafiar a imprensa.

      A comissão foi proibida de entrar no local e conferir como os estudantes haviam deixado, pois haviam limpado e deixado os itens em locais que não mais constavam no relto da imprensa. Detalhes impossíveis foram relatados, como, por exemplo, uma máquina de fotocópia no teto. Como isso é possível ? A troco de quê ? Eis a questão, não saberia dizer o que é de fato prejuízo ou exagero da parte da reitoria interessada em prejudicar os manifestantes que entendem como desafiadores, mas, em todo caso a forma como procedeu dá muito a duvidar.

      No caso da ocupação recente, há vários detalhes. Se há uma coisa tão indecente como essa ocupação, explique-se, como então ela ocorreu, pq e onde ? Morei no CRUSP certo tempo e devo observar que, em primeiro lugar, pq a parte administrativa ocupava espaço da moradia, sendo que poderia ser feita em qq outro lugar da USP ainda mais no contexto onde vários estudantes largam a universidade por não ter onde ficar ? Ora, foi isso que acabou, imagino, resultando nesse processo de tensão com a administração do COSEAS.

      Em segundo lugar, se é tão errado, devemos notar que os estudantes que estão morando naquelas vagas abertas e que tem esta demanda óbvia de fato por moradia e não participaram do processo de ocupação, mas estão lá, necessitam de fato da vaga e estão estudando e morando lá de fato. Não ocorre lá uma vaga ociosa ou um local vago que se tornou espaço de festa. Há um espaço que era utilizado para processos administrativos, do lado de outro espaço da administração desta mesma entidade, que, simplesmente ocupava locais de um prédio de moradia (provavelmente algo provisório que se eternizou) obstruindo que novos estudantes tivessem acesso a moradia. Isto, é fato, não é prioridade da universidade, muitos serão contra a forma de ação, mas muito mais gente precisa destas vagas e alunos que não são militantes, não estavam atuando politicamente que precisaram destas vagas, pela necessidade teve de ir para lá e está lá e espero que não percam estas vagas.

      E como que é o processo desta tão terrível manifestação e quem são os acusados, ora, simplesmente um dia, a USP, antes de chamar um processo administrativo chamou a polícia, então, com havia acabado o movimento e o espaço se tornou apenas moradia, o processo não “andou”, então a USP, sem qualquer dado a apresentar, pois não há dano, resolveu que ia levar um processo de repressão, então, passaram um dia na frente e pegaram todos os curiosos que estavam do lado de fora e os fotografou e, mentindo-se de ser outra coisa, só não lembro se jornalista, utilizaram esta peça para criminalizar estas pessoas. Ora, se não havia um terrível patrimônio destruído (que não se apresenta) e um terrível movimento criminoso apontado (idem, pois a questão é circunstancial após não resolverem a questão dos estudantes que são proibidos de serem hóspedes e que não se apresenta solução para os que são obrigados a desistir do curso pois não tem vagas), então porquê pegar os primeiros curiosos da frente pra jogar a culpa neles esperando que eles apontem alguém como culpado do processo e, deste modo, transformando este testemunho para se livrar numa acusação incriminatória, pq é isto o que está ocorrendo. Um amigo meu é um destes curiosos pegos de gaiato ali na frente.

      Há um processo de centralização do controle e de criminalização de qualquer um que se mova no sentido de uma contestação, com recentemente um número da revista da USP foi instrumentalizada num pseudo-editorial, apenas para afirmar contra a semana dos movimentos sociais realizada pelo DCE que, sim, irá criminalizar os movimentos sociais mesmo. Pois é assim o patrimônio vem antes das pessoas que perdem seus direitos e, quando não há dano ao patrimônio, como neste último caso, pega-se o primeiro gaito forja-se algo contra, ameaça-se o sujeito, para que ele acuse alguém e utiliza-se sua fala para criminalizar.

      Com isso, interessada em colocar uma versão própria sobre os fatos no interesse de que as pessoas não se manifestem, isto acaba por ganhar repercussão e disputar negativamente a opinião pública ter veículos de divulgação em massa que não permitem réplica e que, além disso, não estão interessadas em que as pessoas lutem por direitos, mas que se reduzam direitos, e para que se reduzam direitos, isto não danifica patrimônio. O interessante é que mesmo as pessoas que se identificam com a defesa dos objetos públicos, como uma porta ou um computador, pouco se importa com milhões retidos num golpe branco escondidos em séries de decretos, pouco se importa com milhões cortados em aumento de salários e com os que todos os anos são obrigados a retornar a suas casas porquê não tem vagas, não importando se são de direita, de esquerda ou o que for.

      Enquanto isto, mesmo com o patrimônio físico preservado, as pessoas tem seus direitos retirados e ninguém fica sabendo, pois as portas estão fechadas. Ou melhor, saber ele sabe, mas outros precisam saber e, por isto estas manifestações como atos acontecem, pois infelizmente, falta a boa vontade em fazer o que antes pareceria óbvio, mas que cada vez mais ficam fechadas.

      João Carlos Andrade

      • Silvia disse:

        Caro Prof. João Carlos

        Obrigada pelas informações, mas, como pode ver, eu confundi as datas, considerando que o texto da Profa Adma se referia à invasão da Reitoria, de 2007.

        Quanto a relação patrimônio X manifestação, não considero, de forma alguma, que o patrimônio esteja acima dos interesses dos alunos, funcionários e docentes, por isso, entendo perfeitamente seu ponto de vista.

        Tudo que eu disse, porém, foi apenas em função das imagens que foram mostradas pelas emissoras de TV à época da referida invasão.

        Naquele momento, não se destacou a falta de vagas na moradia estudantil, e sim essa questão da autonomia da universidade, a que você se referiu no início.

        Eu também fui moradora do CRUSP e, na minha época, os estudantes que ocupavam as vagas tinham autonomia para hospedar os calouros que ainda não tinham a sua vaga regularizada.

        Sei que isso foi mudando depois, mas nem pensei em tocar nesse assunto quando escrevi, pois, como disse, estou distante e, além disso, não sabia que esse assunto também era pauta daquela invasão.

        De qualquer forma, só em saber que eu confundi as datas, já considero que a minha resposta foi inadequada, embora ainda considere que a questão da responsabilidade não deva nunca ser posta de lado.

        Cordialmente,
        Silvia Vitória.

  3. Silvia disse:

    O comentário que enviei anteriormente, refere-se, APENAS, ao texto “Mas há primaveras”, pois sou totalmente a favor do Manifesto!

    Grata pela atenção.
    Silvia.

  4. Pedro Castro disse:

    Retrocesso neoliberal nunca mais!!!

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