“A Universidade não é caso de polícia”

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Dando sequência à proposta de publicarmos textos que tratam da Educação de alguma forma, segue artigo de Vladimir Safatle, professor de Filosofia da USP, que também fala sobre a invasão da USP pela Polícia Militar, quando Serra ainda era governador e, portanto, responsável direto pela PM. O artigo saiu na Folha de São Paulo, em junho do ano passado.

A Universidade não é caso de polícia

Por Vladimir Safatle*

As cenas de batalha campal que vimos nesta semana na Universidade de São Paulo ficarão na memória daqueles que dedicam sua vida a essa instituição. Vários professores, como eu, que nunca participaram de movimento sindical, que sequer foram alguma vez a uma assembleia, veem com estarrecimento a disseminação da crença de que conflitos trabalhistas devam ser resolvidos apelando sistematicamente à polícia.

Diz-se que a polícia era necessária para evitar piquetes e degradações. No entanto, tudo o que ela conseguiu foi acirrar os ânimos e aumentar exponencialmente os dois. Vale a pena lembrar que, por mais que piquetes sejam práticas problemáticas e que precisam certamente ser revistas, elas estão longe de se configurarem em ações criminosas. A história das sociedades democráticas demonstra como eles foram, em muitos casos, peças necessárias de um processo de ampliação de direitos. Cabe a nós provar que este tempo passou e que, devido à capacidade de diálogo, tais práticas não teriam mais lugar.

No entanto, quando se tenta reduzir manifestantes que procuram melhorias em suas condições de trabalho a tresloucados patológicos que nada têm a dizer, que não têm racionalidade alguma em suas demandas, dificilmente alguma forma de diálogo conseguirá se impor. Melhor seria começar explicando qual racionalidade justifica que a universidade mais importante do país, responsável por parte significativa da pesquisa nacional, tenha hoje salários menores do que os de uma universidade federal em qualquer estado brasileiro.

Por outro lado, há algo incompreensível na crença de que a polícia possa ser chamada para mediar conflitos com alunos e funcionários públicos. Muitos acreditam que  ligarão para o 190 e receberão uma espécie de “polícia inglesa” capaz de agir de maneira minimamente adequada diante de cidadãos que se manifestam. No entanto, o que vimos até agora foi uma polícia que entrou pela primeira vez no campus armada com metralhadoras, isto enquanto a ação padrão deveria ser, nestas situações, agir desarmada. Quem tem uma metralhadora nas mãos imagina que porventura poderá usá-la. Mas contra quem? Contra nossos alunos? E quem decidirá o momento de usá-la?

Como se isto não bastasse, uma polícia bem preparada não responde a provocações de gritos e latas com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha usadas na frente de da Escola de Aplicação e de uma Faculdade onde, normalmente, há crianças e adolescentes. O que aconteceria se uma bala de borracha atingisse uma criança, ampliando um pouco mais o enorme contingente de balas perdidas disparadas pela polícia? Antes de ligar para a Polícia Militar, valeria a pena levar em conta seu despreparo manifesto em intervenções em conflitos sociais, histórico catastrófico mundialmente criticado por órgãos internacionais. Nenhum leitor terá dificuldade em lembrar de situações de conflito social nas quais policiais que se sentiram acuados reagiram de maneira descontrolada provocando tragédias.

Por fim, contrariamente a certa ideia que um anti-intelectualismo militante gosta de veicular nestes momentos, vários alunos alvos de balas de borracha são extremamente dedicados em seus cursos, participam sistematicamente de colóquios e programas de pesquisa, apresentam papers em congressos e podem ser constantemente encontrados em nossas bibliotecas. Vindos de todas as faculdades de nossa universidade (e não apenas da área de humanas, como alguns querem fazer acreditar), é inaceitável tratá-los como delinquentes potenciais. Dentre os dois mil estudantes que se manifestaram nesta semana, estão alguns de nossos melhores alunos. Ao invés de estigmatizá-los talvez seja o caso de se perguntar contra o que eles se manifestam, já que, é sempre bom lembrar, antes da entrada da polícia, nem professores nem alunos estavam em greve. A greve restringia-se a funcionários.

Há um mês, em uma pequena cidade francesa, a polícia recebeu um chamado de possível furto. Em uma atuação “exemplar”, ela estava em alguns minutos no local do crime. No entanto, o local era uma escola, o objeto furtado uma bicicleta e o possível ladrão uma criança de dez anos. Sem pestanejar, a polícia retirou a criança da escola na frente de seus colegas, levou-a à delegacia, colheu seu depoimento e a fichou. Possivelmente, foi contra este modelo social baseado na incapacidade de resolver conflitos sem apelar a mais crassa brutalidade securitária que hoje nossos alunos se manifestam. Cabe a nós mostrarmos a eles que a história da Universidade de São Paulo é outra.

*Vladimir Safatle, 36, é professor do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo.

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8 comentários
  1. Vera Coutinho disse:

    Relendo o artigo de Safatle…
    Incrível como já tínhamos aí uma amostra (passo a passo) de como Serra conduziria sua campanha à presidência, o que pensa, como trata quem pensa diferente dele e que métodos utilizaria.
    Abs. Vera Coutinho.

  2. André Tamatis disse:

    Uma amostra evidente.
    O interessante desse artigo do professor da USP é que dá a justa medida de como eles (tucanos) veem questões sociais: como um caso de polícia. É impressionante que um partido que se propôs social democrata transformou-se num partido de direita, com fortes traços fascitas.

  3. Luis Antonio Cardoso disse:

    Embora o Vladimir não trate do Serra especificamente, o ação da PM foi perpetrada com a anuência direta do ex-governador de São Paulo. Uma violência contra a Universidade, que como centro de produção do conhecimento, não poderia ter nenhum tipo de cerceamento, e deveria, como bem lembra Safatle, primar pelo diálogo. Se a tresloucada da Suely pemitiu metralhadoras e cassetetes dentro da USP, só o fez com autorização de Serra. Aliás, vendo esta eleição, para mim é cada vez mais claro que esse sujeito tem traços inequivocos de perversão. Sei que o professor Vladimir conhece bem psicanálise. Ele bem que poderia escrever um artigo falando da perversão serrista, afinal ele é um indivíduo que quer exercitar o seu prazer a todo custo.
    Parabéns pelo blog.
    Luis Antonio.

  4. Carlinhos disse:

    Aí diz que esse Vladimir é filósofo.
    Quer dizer então que os caras podem barbarizar a usp, quebrar até a última carteira e a polícia não pode fazer nada?
    Filosófo de meia pataca. Pago com dinheito público para pensar essas coisas! Devia ir trabalhar.

  5. Rogério disse:

    É lendo comentários como do Carlinhos que vejo a importância da educação. Só mesmo uma pessoa que vive na ignorâcia para dizer algo semelhante sobre a atividade de um filósofo.

    • Carlos disse:

      É a partir de depoimentos como o do Carlinhos que percebemos que, mesmo após 40 anos de AI5, estamos sempre a um passo de uma nova ditadura. Outro ponto é como os novos reacionários são muito ignorantes. É de dar medo…

  6. Cassia disse:

    O PROFESSOR , RELATA EPISÓDIO ACONTECIDO EM SÃO PAULO, SOB ADMINISTRAÇÃO TUCANA, E ISSO SERVE DE REFÊRENCIA PARA NOS MOSTRAR O QUE TEREMOS EM NOSSO PAÍS SE ESTE CANDIDATO TUCANO FOR ELEITO. RETROCESSO AOS TEMPOS DE DITADURA, ONDE QUALQUER ESTUDANTE OU CIDADÃO QUE MOSTRASSE OPNIÃO DIVERGENTE, ERA LEVADO AOS PORÕES DA DITADURA MILITAR, TORTURADO E CALADOS A PODER DE “METRALHADORAS”, TORTURAS E MUITOS PAGANDO COM A VIDA A BUSCA POR UM PAÍS MAS DIGNO E DEMOCRÁTICO. ESTE ERA O DIALOGO DA DITADURA, COM OS ESTUDANTES DA ÉPOCA. O EPISÓDIO NA USP, NOS REMETE A TEMPOS QUE NÃO PODEMOS SOB IPOTESE NENHUMA PERMITIR QUE SE REPITA.
    ESTAMOS VENDO QUE VEICULOS DE COMUNICAÇÃO QUE TEM SE DECLARADO ABERTAMENTE FAVORÁVEL A CANDIDATURA TUCANA, JÁ VEM EXERCENDO O PODER SOB PESSOAS QUE DIVERGEM DE SUAS OPNIÕES.A EXEMPLO DA PSICANALISTA MARIA RITA KEHL
    QUE APÓS PUBLICAR MAGNIFICO ARTIGO SOBRE A “DESQUALIFICAÇÃO” DO VOTO DOS POBRES, FOI DEMITIDA DO JORNAL SERRISTAS. IMAGINEM O QUE VAI ACONTECER QUANDO TIVERMOS NO PODE O MANIPULADOR DE OPNIÃO ALIADO AO CARRASCO DOS ESTUDANTES E EDUCADORES DA USP.
    O QUE ME PARECE LÓGICO É SEGUIR EM FRENTE A NOSSA BUSCA POR JUSTIÇA E IGUALDADE SOCIAL, DEMOCRACIA NO SEU PLENO SIGNIFICADO, CONSIDERANDO TODAS AS CONQUISTAS JÁ ALCANÇADO NESTA BUSCA INCESSANTE,E NÃO RETROCEDERMOS DEIXANDO PERDER-SE TODO O SACRIFICIO FEITO PELOS QUE MORRERAM E FORAM TORTURADOS E PERSEGUIDOS PELA DITADURA MILITAR.

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