“O fortalecimento da universidade pública”

Dando sequência à publicação de artigos que tratem da educação, segue mais um texto do professor Vladimir Safatle, que foi publicado originalmente na Folha de São Paulo, pouco antes do início das eleições.

O fortalecimento da universidade pública

Por Vladimir Safatle*

Nestes últimos anos, um dos fenômenos mais dignos de nota foi o fortalecimento da universidade pública graças a um importante ciclo de expansão e interiorização do sistema federal. Tal fenômeno merece estar presente na pauta do debate eleitoral que se inicia.

Em 2002, as universidades públicas federais encontravam-se em situação terminal. O déficit de professores necessários para simplesmente conservar o sistema tal como era nos anos noventa chegava a sete mil. Talvez alguns se lembrem do caso de universidades que precisaram limitar sua atividade noturna por não ter dinheiro para pagar conta de luz.

No lugar das universidades públicas, vimos uma política que incentivava a proliferação de universidades privadas, em larga medida, dissociadas do tripé pesquisa/docência/extensão e cuja qualidade, até hoje, não passou o estágio do duvidoso. É bem provável que esta experiência tenha mostrado que o sistema privado sai-se muito bem quando é questão de criar centros direcionados à formação para o mercado (como escolas de administração de empresas, publicidade, comunicação, economia, entre outros). Mas, excetuando as universidades confessionais, os resultados são ruins quando se trata de implementar sistemas universitários complexos capazes de atrair profissionais dispostos a desenvolver habilidades de professor, pesquisador e divulgador de conhecimento.

Alguns criticam o processo recente de ampliação e fortalecimento da universidade pública afirmando que se tratam de universidades caras e de baixa capacidade de absorção das exigências de empregabilidade. No entanto, o sistema universitário público brasileiro é, em larga medida, adequado para os desafios do nosso futuro. Ele garante autonomia de pesquisa ao corpo docente, flexibilidade relativa de escolha de disciplinas para alunos (o que permite particularização da formação), além de abertura para a constituição de estruturas interdisciplinares. Não precisamos discutir o modelo universitário público, mas aprofundá-lo, permitindo que ele democratize seus modos de gestão, de decisão e que enfim desenvolva todas suas potencialidades e pluralidades.

Por exemplo, vez por outra, aparece alguém afirmando que seria melhor às universidades públicas terem ligação mais profunda com o mercado, um pouco como certas universidades norte-americanas, cuja boa parte de suas linhas de financiamento depende da capacidade em captar recursos da iniciativa privada. No entanto, seria interessante perguntar a estas pessoas quem então pagará pesquisas que visam mostrar a ineficácia de tratamentos do sofrimento psíquico baseados na medicalização. Certamente, não a indústria farmacêutica. E quem pagará as pesquisas que mostram a participação do empresariado nacional na Operação Bandeirantes e no financiamento do aparato repressivo da ditadura militar? Certamente, não o empresariado nacional. E quem pagará as pesquisas que visam expor os resultados catastróficos da liberação das ações do sistema financeiro em relação à tutela do Estado? Certamente, não os bancos. Estes são apenas alguns exemplos de limitação do espectro de reflexão da universidade caso um novo modelo se imponha e caso relações de parceria entre mercado e universidade se transformem em confissões de dependência.

*Vladimir Safatle é professor de Filosofia da USP

Anúncios
1 comentário
  1. Melk disse:

    Três Caminhos de Luz

    A sociedade brasileira está diante de uma nova luta. A sua luta não é mais pela direta , pela constituinte, pela revogação dos atos autoritários. Foram-se os tempos da diretas-já. A democracia foi assimilada pela sociedade brasileira.
    A democracia fez com que a repressão fosse substituída pelo diálogo. Assim, entramos numa segunda onda de luz: sem revoluções sangrentas, apenas com o diálogo, o governo Lula conseguiu incluir 50% da população brasileira na classe média.
    A sociedade brasileira ultrapassou a miséria. O Brasil é um país com mercado interno. O Brasil não é mais aquele eterno país do futuro. As conquistas da democracia e de mercado interno conduzem as suas duas primeiras ondas de luz. O país venceu, se iluminou. Mas, existe uma terceira onda. O novo desafio brasileiro é o de participar da Era do Conhecimento.
    Resta aos políticos saírem do obscurantismo reinante e mostrarem argumentos vindos do andar superior da política. Em vez de escuridão mostrar a luz da História. Três luzes ascenderam a História recente do Brasil: democracia, classe média, conhecimento. A terceira onda, agora, será a no próximo governo inserir essa nova classe média no conhecimento.
    O momento dos candidatos é o de trazer um elemento de futuro. Os eleitores querem ouvir algo mais. Ver uma direção. Lula deixa à Dilma a missão dessa terceira onda de luz. A de acender um conhecimento para todos. A de fazer com que o país atinja sua autonomia cientifica e tecnológica. Uma luta diversa a da democracia e a da classe média. Um desafio.
    Dilma tem de ir para o andar de cima das discussões. Associar seu projeto de nação com a terminologia Caminho de Luz. Compreender que a sociedade brasileira vem galgando por três caminhos de luz: democracia, classe média, e agora, o próximo desafio de seu governo é o do conhecimento. A terceira onda de luz é a de levar o Brasil a Era do Conhecimento.
    A História chega a Era do Conhecimento, momento em que a civilização se move através de suas conquistas cientifico – tecnológicas, mas o discurso político brasileiro ainda é de varejo. Propõe temas como alimentação, saúde, habitação, transporte etc como valores absolutos. Não, são relativos: depende do fator capital e do fator conhecimento. Quanto ao primeiro vivemos num mundo capitalista. A facilidade com que os bancos fazem riqueza mostra a sua validade. Quanto a causalidade do segundo fator na construção da riqueza ainda é um assunto novo.
    O momento político é o de ressaltar o fundamentalismo do conhecimento. Chegado é o momento de Dilma se declarar em termos do caminho do conhecimento. Apresentar a sua proposta de causa do conhecimento. O seu discurso pode ser feito em termos dos avanços da ciência e tecnologia no Brasil, das escolas técnicas, do Prouni, do PNBL etc. Sair do obscurantismo e do varejo e se colocar diante da História.

    FIAT LUX, DILMA!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: