Você disse “educação”?

Segue abaixo artigo publicado pelo professor Vladimir Safatle na Folha de São Paulo de hoje (25/10), onde recomenda a leitura deste Manifesto e fala sobre a situação da educação no país.

Você disse “educação”?

Por Vladimir Safatle*

JÁ HÁ ALGUM tempo, nas campanhas eleitorais brasileiras, candidatos a qualquer cargo majoritário afirmam ter sempre a mesma prioridade: educação. Talvez sejamos o país onde mais se fala em educação e onde, salvo raras exceções, os resultados são os mais desalentadores.

Tal situação tem várias razões, mas a principal delas é: quando discutimos educação, fazemos de tudo para não ouvir aqueles que mais teriam a dizer sobre o assunto, a saber, os próprios professores.

Se ouvíssemos os professores, descobriríamos que um dos maiores problemas de nosso sistema de ensino é o profundo desinteresse que o magistério desperta em nossos melhores alunos, isso principalmente nas carreiras de ensino fundamental e médio. Não é difícil descobrir a razão: os salários são patéticos e as condições de trabalho péssimas.

A situação do Estado de São Paulo é exemplar, nesse sentido. O Estado mais rico da Federação tem salários inferiores àqueles oferecidos no Acre, no Tocantins, em Rondônia, no Rio de Janeiro, em Mato Grosso, no Espírito Santo, entre outros.

Mesmo em suas universidades, os salários são menores que aqueles oferecidos nas federais. É difícil encontrar uma justificativa para tanto.

Se ouvíssemos os professores, saberíamos também que boa parte das inovações no ensino, como o sistema de progressão continuada, a ausência de um currículo mínimo obrigatório e as ditas experiências “interdisciplinares”, simplesmente não funcionaram.
A razão é simples: são experiências feitas com pouca discussão com aqueles que devem implementá-las.

Tudo se passa como se a experiência prática do corpo docente fosse um mero entrave para a mudança e a inovação, como se o saber prático dos professores fosse apenas um foco de resistência à grande revolução educacional que gênios de gabinete e consultores pagos a preço de ouro nos prometem.

Isso quando reticências de docentes não são sumamente desqualificadas por eles pretensamente serem mera massa de manobra sindical.

Assim, se há pessoas que gostariam de direcionar seu voto realmente colocando a educação como prioridade, deveriam fazer algumas perguntas: qual candidato ao menos falou palavras como: “valorização dos professores” e “fortalecimento da universidade pública”?

Como os professores avaliam as práticas dos dois candidatos ? Pois, mais do que propostas, há práticas distintas em jogo. Todos os dois têm oito anos de políticas educacionais para colocar na balança.

Por exemplo, um deles teve, como seu secretário em São Paulo, alguém que, quando ministro da Educação, iniciou o processo de expansão universitária através da proliferação viral de instituições privadas de qualidade duvidosa.

Lembraria que, em sua época, houve um processo de sucateamento que levou algumas universidades federais, como a UFRJ, a não ter dinheiro nem sequer para pagar conta de luz. Essas são questões que merecem estar na pauta do debate.

Cinco mil professores universitários procuraram deixar claro este ponto em um “Manifesto em defesa da educação pública” que circula nas universidades e internet (www.emdefesadaeducacao.wordpress.com). Quem realmente se preocupa com educação, deve começar por lê-lo.


*VLADIMIR SAFATLE é professor do departamento de filosofia da USP.

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6 comentários
  1. Pedro Castro disse:

    Retrocesso neoliberal nunca mais!!!

  2. Eduardo Humeres disse:

    Deve se publicar como era a situação das universidades federais durante o ministério de Pablo Renato. Instituições sem financiamento, 7000 vagas sem preencher, salários congelados, carência de bolsas.
    Não da para comparar com a situação atual.

  3. Carlos Oda disse:

    É só observarmos a situação da escola pública no estado de São Paulo. São 16 anos de governo tucano. Tempo mais que suficiente prá mudar uma geração. DEZESSEIS ANOS e o Sr. Serra ainda quer falar de educação nos debates e no seu programa político.Serra = Educação Zero.

  4. Melk disse:

    Xeque-Mate

    Dilma precisa no debate da Rede Globo dar um xeque-mate. Após uma campanha movida a obscurantismos, dar uma alegria para seus correligionários. Mostrar que somente a luz que faz Nosferatu desaparecer. Dar ao povo a esperança que merece.
    Dirigentes e marqueteiros, atenção que o momento final é de síntese. Mostrar que se encontrou um foco. Algo capaz, de uma vez só, derrubar todo o império das sombras.
    Dilma não precisa de bala prata. Possui duas cartas. Quando combinadas, são grandiosas para iluminar o Brasil. Contudo, não são cartas que vieram ao acaso. Existe predestinação: uma vem da História, outra de nossa riqueza natural. Combinadas fazem canastra.
    Passemos as cartas a Dilma:
    1. História: três ondas de luz têm construído a história recente do país. A primeira nos anos 80 foi a democracia, a segunda no governo Lula a inserção de 50% da população na classe média e a terceira está a porvir que será a entrada do país na Era do Conhecimento.
    A luta pela democracia nos anos 60 e 80 construiu o desejo da cidadania. Trouxe o direito da pessoa se expressar. Decidir o poder. A partir de então, a sociedade partiu para a sua segunda etapa, que foi a da ação distributiva. Dos alicerces democráticos, o país criou sua classe média sem necessitar nenhuma revolução sangrenta. Enquanto o exemplo clássico de Cuba promoveu apenas 11 milhões de pessoas, o Brasil de Lula, sem nenhum paredão, colocou 36 milhões de pessoas na classe media e retirou 28 milhões da miséria.
    A questão agora é: como conceber a terceira etapa? A época pós-Lula necessitará de um argumento novo. Algo que vá além do direito de votar e consumir. Esse argumento é o do conhecimento. Nele está a nova visão de Mundo.
    A primeira carta à Dilma é para colocar o Brasil na Era do Conhecimento.
    2. Pré-Sal: a História foi generosa com o país. No momento em que o país define a sua segunda onda de luz, ela lhe entrega um bilhete premiado. A segunda carta de Dilma é a do dinheiro do pré-sal. Precisamos utilizar o recurso do pré-sal para construir um modelo novo. Ir além do marxismo, do neoliberalismo e consolidar no Brasil uma sociedade do conhecimento. O de colocar o Brasileirinho no direito de participar do desconhecido.
    Caberá a Dilma colocar essa segunda carta na mesa. Não existe sonho mais sonhado do que de receber um bilhete premiado para colocar o país na Era do Conhecimento.
    3. Canastra: ajustar as cartas na mesa
    O povo merece essa canastra. Contra o ódio a lucidez, contra a escuridão a luz. O Bras¬il precisa de uma proposta de futuro. Bonito por Natureza, será lindo pela plástica do conhecimento

  5. Até que enfim alguém neste país disse a expressão mágica: “Se ouvíssemos os professores…”.
    Sim, porque todo mundo dá palpite na educação mas ninguém ousa nos dar voz… Por que será? Talvez por medo de ouvir a verdade dos fatos…!

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