Declaração de voto de Alfredo Bosi

No dia 25 deste mês houve um ato na USP em defesa da candidatura Dilma. Embora não seja o centro deste blog defender diretamenta uma candidatura, mas sim apontar o que é a outra, decidimos publicar a declaração de voto dada pelo professor Alfredo Bosi, feita por e na ocasião do ato, tendo em vista  sua contundência e lucidez e pelo que ela lança de luz sobre o que representa todo o espectro serrista.

Declaração de voto de Alfredo Bosi

Colegas, Alunos, Amigos, Companheiros de opção política,

Sinto-me muito honrado em participar desta manifestação em prol da candidatura de Dilma Rousseff à Presidência da República. Minha intervenção não se fará em nome de uma militância partidária particular , mas em nome de causas públicas suprapartidárias que seguramente todos os presentes partilham, causas públicas nacionais e internacionais que estão animando esta campanha eleitoral.

Convém lembrar, em tempos de desmemoria, que estas causas vêm de longe e felizmente nunca arrefeceram em nossa consciência de cidadãos. Vêm do extraordinário mutirão progressista que foi a luta pelas reformas de base, no começo
dos anos 60, projeto coletivo sufocado pelo golpe de 64. Vêm da resistência à opressão e à repressão dos anos de chumbo, resistência à qual a hoje candidata Dilma ofereceu o idealismo temerário de seus anos juvenis, pagando por isso duas vezes o seu preço. Duas vezes, pagou: na primeira vez os seus cobradores foram esbirros da ditadura militar, a segunda agora, são os marqueteiros venais (com perdão do pleonasmo) e a imprensa marrom, a soldo das forças mais reacionárias deste país, que querem punir, de novo, aqueles que ousaram dizer não à tirania. Estranhos paladinos da democracia!

Esta causa democrática é fundamental, mas não é a única. A campanha em prol de Dilma está penetrada de um sentido social forte e dinâmico. Ela encarna uma tendência distributivista e popular que começou a ganhar consistência visível nos últimos anos do governo Lula. Emprego maciço e entrada maciça para a classe média são resultados de um programa bem sucedido de inclusão econômica e social. Taxas promissoras de diminuição da mortalidade infantil, de redução do desemprego e de aumento da escolaridade básica elevaram o nosso Índice de Desenvolvimento Humano para um patamar próximo da média das nações desenvolvidas. O famigerado e eterno “atraso estrutural” e a batidíssiima tecla da divisão das nações em centrais e periféricas começam a exigir um sério trabalho de revisão conceitual. E mais ainda, aquela deprimente teoria do “país dependente associado”, fruto de uma sociologia demissionária, está sendo desmentida por uma política internacional de paz, aberta, lúcida e independente, que é um maiores méritos deste governo e continuará sendo um dos pontos de honra do governo de Dilma, se…. (Já ia me escapado um “se Deus Quiser”, quando me dei conta dessa indignidade que a direita está cometendo ao abusar das crenças religiosas do nosso povo, convertendo-as em moeda de troca eleitoral, o que é uma tática ignóbil para quem respeita o sentimento do sagrado além de envolver um desprezo das práticas republicanas, que devem manter-se leigas e eqüidistantes das profissões de fé. Algum ouvinte preocupado com distinções nominais poderá argüir-me de inexato, e dirá: Mas o que está sendo chamado de direita não é direita,é apenas o puro Centrão Liberal. Respondo a este incauto analista: o liberal mantém-se no centro apenas enquanto não se sente em risco de perder posições ou não obtê-las; mas, chegando a hora do confronto, desliza para posições reacionárias. Desliza, disse eu? O verbo é muito diplomático. O certo será dizer que ele derrapa para a direita. Mas, pensando bem, derrapa ainda é ameno. O liberal precipita-se estrepitosamente/ pelos abismos da reação. É o que está acontecendo a olhos vistos nesta campanha eleitoral. )

Por isso, entendo este ato público como um não! ao retrocesso. Não! a uma política econômica toda centrada no capital, ciosa exclusivamente do equilíbrio monetário, mas negligente quando não avarenta em face dos terríveis desequilíbrios econômicos e regionais que infelicitavam o povo brasileiro nos anos 90 e que foram sendo lenta, parcialmente, mas honestamente encarados neste último decênio. Estamos apenas no começo do caminho, que é cheio de pedras, buracos e armadilhas. Alguns dentre nós não renunciamos a entrever no horizonte a imagem indelével de uma revolução, e talvez tenha sido este o sentido de nosso voto no primeiro turno. Na conjuntura atual, porém, que é a de um jogo de forças inovadoras versus mais um surto de modernização conservadora, escolhemos a consolidação de um projeto aberto que abrace desenvolvimento e respeito ao trabalho e à natureza. E aspiramos principalmente ao mais difícil de todos os alvos: a diminuição da iniqüidade que significa a distribuição de renda no Brasil.

Este ato público, promovido por estudantes de uma Universidade pública, exprime confiança e esperança, sem que estes sentimentos altamente positivos nos isentem de continuar lutando para que o processo iniciado nos últimos anos se aprofunde em uma linha democrática e verdadeiramente solidária. O nosso voto não é cego: é crítico,e por isso mesmo, é firme e é responsável.

Alfredo Bosi

São Paulo, 25/10/2010

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2 comentários
  1. Eduardo Humeres disse:

    Que bom ler algo tão lúcido e limpo com o qual me identifico plenamente. Esperamos que no Domingo o Brasil limpo decida continuar neste caminho de esperanza.

  2. ana lucia vilela disse:

    Obrigada, Alfredo Bosi, pela lucidez.
    enho certeza que o povo não se deixará enganar pelo engodo serrista que, diante dos avanços sociais significativos, derrapa para a direita mais conservadora. A TFP e UDN parecem estar de volta e isso é realmente assustador.
    Dia 31 é Dilma 13, por Brasil eguir mudando!!!

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