Indignidades

Que Universidade é essa “Que não se importa se a gente morre diante dos olhos, por doença do coração ou por tiro, mas se escandaliza quando vê um vidro quebrado?”

Na Praça do Relógio solar morreu um estudante.
Seu tempo acabou. Seu tempo de vida. Sua vida parou.
Era um estudante qualquer.
Talvez nem fosse bom estudante. Tinha já 42 anos e ainda fazia filosofia.
E não era bem apessoado.
Tinha cara de quem nasceu em Juazeiro do Norte.
E morava no Crusp, como era evidente até nas roupas.
Era um gasto estudante das Humanas.
Um aluno. Uma pessoa.
Quando ele passou mal na Praça do Relógio,
a Guarda Universitária não o levou para o Hospital.
Por quê?
Julgava estar seguro na Cidade Universitária.
Com tantos guardas, com tantos carros de segurança,
nunca imaginaria que se alguém aí passasse mal,
ninguém socorreria. O Hospital Universitário está ali.
Por quê Samuel de Souza não foi socorrido?
Ele poderia ter sido salvo se alguém o levasse ao Hospital?
Por quê não o levaram para o Hospital?
Que ordens a Guarda tem, que não tem o dever de socorrer um aluno que passa mal?
Que ordens a Guarda tem? Por que patrimônio a Guarda zela,
que não zela pela vida de alunos, de funcionários e de professores do campus?
Que Segurança é esta que não procura segurar a vida de um estudante que morre na Praça do Relógio,
bem ao lado da Reitoria da Universidade de São Paulo?
Que não se importa se a gente morre diante dos olhos, por doença do coração ou por tiro,
mas se escandaliza quando vê um vidro quebrado?
Que força de ocupação é esta que não se manifesta quando alguém,
cuja única bandidagem é estudar filosofia,
apodrece indecente ao sol e à chuva da Praça do Relógio da Universidade de São Paulo?

Nota do Em Defesa da Educação: Esse texto nos foi enviado por colega que pede para não ser identificado; pedido bastante razoável face ao ambiente de perseguição política instaurado na USP.

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8 comentários
  1. Nahema N. Falleiros (mestre em sociologia FFLCH) disse:

    Não tenho palavras diante da morte. Mas tenho algo a dizer sobre a indiferença da reitoria diante deste lamentável acontecimento: a Universidade de São Paulo vive tempos sombrios, já não é mais possível preservar se quer suas “ruínas”. É preciso sim, organizar um movimento civil que busque democratizar sua “estrutura de poder”. Sim, a recepção e acolhimento de seus alunos pobres deve ser repensada e encarada com seriedade jamais vista até hoje (o COSEAS precisa passar por auditoria). Uma pessoa morreu porque a guarda municipal deve cumprir ordens?! A USP não é uma jaula de ouro. Negar socorro é crime!

    • Maria Salete Magnoni ( Dra. em Lit. Brasileira pela FFLCH/USP) disse:

      Nahema,

      Ótimo comentário, e sabe o que me deixa mais chocada? A indiferença da grande maioria dos alunos, um colega morre sem socorro dentro do campus e as aulas e a vida seguem como se nada tivesse acontecido. Onde estão a generosidade e a solidariedade da juventude? Elas acabaram? Ou será que o modelo de universidade no qual a USP se transformou está mesmo conseguindo destruir esses valores e sentimentos tão humanos?
      Abs.

  2. Thamires Regina (graduanda em História - IFCH- Unicamp) disse:

    A indiferença é generalizada. Na Unicamp houve um estupro e mais duas tentativas de estupro dentro do Campus. A Unicamp alega que a saída que leva a universidade ao bairro universitário (onde aconteceream esses “pequenos acidentes”) não é responsabilidade deles e que não podem fazer nada a respeito. Enquanto isso insistem em publicar proibições à festas no Campus e colocar meia dúzia de viaturas cheias para qualquer ato estudantil. O Campus vazio durante a noite pela falta de festas está perigoso e assustador, mas as festas são imorais e incomodam o sono da vizinhança burguêsa. É muita patifaria por todos os lados.

  3. Ricardo Koba disse:

    Com o Goldemberg começou a separação efetiva do convívio entre as diferentes categorias, começando pelo Clube dos Professores e dos Funcionários, ou seja, professores passaram a ter espaço próprio, tanto quanto estudantes e funcionários, assim cada vez menos existem áreas de sociabilidade em comum. Talvez por isso, e também por isso, muitos de nós não saibamos na prática como a guarda universitária é despreparada ou como é preparada penas para zelar pelo patrimônio e servir de polícia política. A maioria de nós estudantes sabemos da forma raivosa como ela age no trato conosco, é provável que nas raras vezes que se deparam com professores tenham outra atitude. Isso me lembra quando fui abordado com outros dois amigos pela polícia. Deram sinal para que parássemos o carro, em seguida valeram-se daquela truculência policial, quando deram-se conta que dois dos passageiros
    eram advogados, sendo um deles promotor de justiça, foi um tal de desculpa para cá, doutor para lá. Enfim, a nossa guarda universitária não é diferente.
    O caso do Samuel é bastante revelador de que eles não está aí para nos proteger e, apesar da função o exigir, sequer estão treinados para prestar primeiros socorros (caso estejam, a situação é ainda mais grave). Não acredito que esse descalabro seja falha da reitoria, mas é simplesmente a guarda que ela quer, assim como a classe média babaca deseja a polícia violenta que anda pelas ruas cuidando da “segurança”.
    Lamentavelmente esse caso pode acabar nas paredes brancas do esquecimento, pior, talvez até culpem o rapaz por ter 42 anos, estudar filosofia, morar no Crusp e ter passado pela psiquiatria. Porém, esse episódio não pode passar em branco, porque se não fizermos nada diante dessa atrocidade, sabe-se lá o que virá depois. É aquela história do sujeito que leva um cutucão e não diz nada, por não ter reagido, com o passar do tempo outros virão, até que começarão a esbofeteá-lo no rosto por conta de haver ficado omisso quando a agressão era menor.
    Não sei o que fazer em relação ao caso, mas certamente sugestões idiotas que me contaram não irão resolver, como rezar uma missa no local onde morreu o rapaz. Talvez devêssemos ir até a reitoria e só sair de lá quando o reitor nos recebesse dando explicações e dizendo o que vai fazer. Salvo engano, foi isso que fizeram diversos professores numa ocasião por conta de questões salariais: apresentaram a identidade funcional, entraram na reitoria e disseram que só sairiam dali quando o reitor os recebesse, ele assim o fez.
    Na verdade, devíamos todos invadir àquela usina de maldades.
    Ricardo Koba

    • Liv´s disse:

      As universidades públicas, infelizmente, ao invés de analisarem criticamente a completa anomia instalada na vida contemporânea, assimilaram-na! Tristes tempos estes!

  4. tenho plena convicção de que tudo isso que se diz com pesar não passa de retórica passadista de pessoas que nunca sentiram o gosto ácido da fome repentina dos excluidos sociais e pelo contrário tem receio não só da sombra da morte mas da sombra paterna que paira sobre suas cabeças como o espectro do proletariado na europa do seculo dezenove,portanto se indignem com os remanescentes da famigerada operação bandeirante alimentados pela lepra maçonica que dinamizam os rotarys clubs de nosso tolerante país e depois falem com sinceridade de justiça social e não de seus débeis sintomas…

  5. ou as pessoas ainda são suficientemente jovens para continuarem a se esconderem atrás de confissões e mentiras sobre doces madrigais…

  6. e gostaria de lembrar a todos que existe ainda um grande mérito quando se é capturado vivo e se é exposto a incomoda luz do sol e se extenua as asas debatendo-se continuamente a gaiola de ouro no intuito de corroer as barras de metal com a suavidade das penas e procurem ter muitas palavras diante da morte,sugiro até discursos para começarmos a refletir sobre a fragilidade de nossas prosaicas vidas burguesas!!!

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