Paulo Arantes: “Nós estamos afundando não é pela repressão, nós estamos afundando internamente…”

Abaixo, transcrevemos a breve fala do professor Paulo Eduardo Arantes, em 30 de novembro do ano passado, quando foi realizado na Universidade de São Paulo ato contra a criminalização da política na USP, que além de protestar contra o crescente clima de perseguição e repressão, prestava solidariedade aos estudantes e funcionários sindicados ou processados pela reitoria dessa universidade. O professor Arantes destacou principalmente o estado de derrisão que grassa na categoria dos professores, que, segundo ele, seria um dos fatores responsáveis pela implosão da universidade.

 

“Eu gostaria de fazer uma breve evocação e depois um breve comentário.

A evocação já foi feita pelo professor João Adolfo Hansen, que é a seguinte: na Ocupação da Reitoria de 2007 foi constituída uma comissão negociadora, que negociou com a reitora os termos da desocupação da reitoria, e uma das cláusulas é a de que não haveria nenhuma retaliação ou punição por motivos políticos. Os eventuais danos patrimoniais seriam objeto de uma investigação a parte, documentada, segundo os trâmites legais cabíveis. Isso foi totalmente ignorado. Um dos negociadores dessa cláusula, eu gostaria de evocar. Foi o professor István Jancsó, que faleceu recentemente, e que não pode ser esquecido, não apenas por esse episódio. O professor István Jancsó começou aqui na História. Grande e iminente historiador, especialista na história colonial brasileira, sobretudo nas grandes rebeliões baianas da época da independência, um estudioso da história do Brasil, é um exemplo de muitas coisas, não só do que é o ato docente, do que significa ser professor, mas ele é um exemplo de algo que nós estamos descuidando nesse momento.

Foram convidados vários professores [faz alusão ao ato e a baixa presença de professores], eu sei disso. Estou beirando os 70. Nós somos uma espécie de vitrine [faz referência aos integrantes da mesa], nós somos a cereja do bolo para estancar um pouco a sangria.

Mas é preciso aprofundar isso, este momento é um ato de solidariedade aos estudantes que estão sendo perseguidos, por inépcia jurídica inclusive, e aos funcionários. Mas é importante lembrar que a universidade também é composta de professores, e nós precisamos multiplicar os Istváns da vida. Se não fosse o István… o István  chegou a dar plantão, chegou a dormir na universidade. E ele tinha uma saúde frágil, por várias razões, inclusive porque havia sido torturado pela ditadura, ele é um veterano de 1964. De modo que essa memória que está encarnada pelos professores, não pode ser desativada.

Não quero fazer nenhuma alusão macabra, mas olhando para os meus colegas [dirigindo-se aos professores presentes à mesa], nós vamos morrer daqui a pouco e é necessário… e são sempre os mesmos, e cada vez que encontro os mesmos, alguns já estão grisalhos, outros nem estão mais aqui. De modo que é necessário providenciar uma mudança de quadros, e isso só é possível se nós tivermos uma estratégia de convencimento dos professores, inclusive lembrar a sua própria memória institucional, que estava presente no István Jancsó desde o inicio. E o István morreu há poucos meses. Fora uma ou outra homenagem pontual e escondida, sua morte passou em brancas nuvens. Porque essas coisas acontecem, como o falecimento [do István], e passam em brancas nuvens… essas pequenas barbaridades que nós estamos testemunhando agora podem se avolumar na mais completa indiferença e impunidade, porque os colegas dele, assim como foram indiferentes à passagem dele pela Universidade de São Paulo, são indiferentes ou pouco estão ligando ao que reitor atual está fazendo… uma truculência  a mais… estão todos anestesiados.

Era isso que eu queria dizer. É apenas um recado. Lembrem-se de personagens desse porte.

Nós estamos afundando não é pela repressão, nós estamos afundando internamente, é uma implosão, e essa implosão começou há uns 20 e poucos anos atrás pelo corpo docente, depois chegou aos estudantes e funcionários.”

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