Pequeno relato sobre o concurso para professores de SP

Por Diego Navarro – Em defesa da educação

Na última semana a denúncia feita por professoras que, sob alegação de obesidade, foram impedidas  de assumir aulas na rede estadual de São Paulo (leia mais aqui) ganhou notoriedade em diversos veículos da mídia.

No entanto, o que boa parte da imprensa insiste em esconder, é que tal caso não aconteceu de maneira isolada, sendo apenas um fio numa colcha de retalhos tecida de abusos, improbidades e desordens por parte do governo paulista durante o último concurso público para admissão de profissionais da categoria docente. Neste texto iremos retomar algumas linhas gerais desta história.

Em 21.fev.2010 foi divulgado no Diário Oficial a abertura de concurso público para provimento de 10.083 cargos de professores de Educação Básica II (PEB II), a ser realizado pela Fundação Carlos Chagas.

Em primeiro lugar há de se atentar para dois fatores: a) o corpo de professores do Estado de São Paulo é o maior da América Latina e um dos maiores do mundo, sendo que hoje chega a quase 250.000 professores. Desses, estima-se que mais de cem mil não sejam concursados, ou seja, abrigam vagas precárias sem muitos dos direitos provenientes da carreira de um servidor público (como a estabilidade). Assim sendo, tal concurso nem de longe poderia dar conta de suprir a enorme demanda de vagas das escolas públicas, e; b) o concurso surgiu, surpreendentemente, no ano em que o então governador de São Paulo, José Serra, lançou sua candidatura a presidência da república.

No entanto, nenhum dos fatores acima pode ser caracterizado como novo, afinal, já se tornou prática corrente nessa pauliceia desvairada a manutenção de cargos de professores precários bem como o súbito surgimento de concursos públicos em anos eleitorais. O que surpreendeu a todos os educadores que almejavam prestar tal concurso foram as inovações implementadas pela secretaria de educação paulista, até então chefiada por Paulo Renato, ex-ministro da Educação de FHC.

Pela primeira vez o concurso foi estruturado em três fases, sendo elas: a) prova objetiva e de caráter eliminatório e classificatório; b) avaliação de títulos de caráter classificatório e; c) curso específico de formação seguido de prova de aptidão de caráter eliminatório.

Foi o item “c” que trouxe as novidades. Valendo-se da afirmação que os professores contratados chegavam mal preparados na sala de aula, o governo do Estado preparou um curso que teria como objetivo apresentar aos futuros professores a realidade da sala de aula e o currículo do estado.

Além disso, em diversos momentos do curso foi enunciada a vontade do Estado de “uniformizar” o que deveria ser ensinado nas escolas, afirmação essa que vai na contra mão de todas as reflexões, seja no campo crítico seja em documentos oficiais, que afirmam a busca por um currículo plural, capaz de abrigar as diferenças existentes na sociedade.

O curso foi organizado em 16 módulos semanais a serem ministrados a distância e com três encontros presenciais. Um curso ministrado à distância para preparar professores presenciais! Não poderia acabar bem.

Durante os quatro meses fazendo esse curso de formação, os candidatos receberam, por quatro meses, uma bolsa de R$1.383,11 mensais.

O curso

O tão alardeado curso de formação se mostrou completamente ineficaz e para provar isso não é preciso uma reflexão muito grande. Afinal, se a justificativa era de que os professores não têm na universidade um contato com a realidade educacional paulista, e nem com o currículo por ela definido, como acreditar quem em quatro meses o governo de São Paulo poderia suprir essa falta de formação?

Cada módulo contava com a leitura obrigatória de cerca de 30 páginas digitais que faziam um resumo de assuntos essenciais para cada carreira. Após a leitura, esperava-se que o aluno respondesse duas questões dissertativas (que eram lidas e avaliadas por um tutor) e dez objetivas corrigidas automaticamente pelo sistema, sendo validada quando o aluno acertasse tudo, porém, a resposta estava dada logo que a devolutiva vinha perguntando se gostaria de fazer novamente. Ou seja, todo o processo de ensino aprendizagem requerido em qualquer relação educacional fora concentrado em grandes resumos que pretendiam dar conta de temas de enorme amplitude.

Para piorar a situação, os encontros presenciais sequer eram realizados com os tutores digitais. Tais encontros eram promovidos pelas regionais de ensino e ministrados por coordenadores e supervisores de ensino que sequer tinham contato com o conteúdo do curso digital e, cuja função, era passar vídeos enviados pela secretária de Educação. Sim, o encontro presencial era na verdade para se assistir a vídeos, ou seja, eram também virtuais.

E, se a parte pedagógica foi um horror, a prática também deixou seus traumas. As bolsas de estudo atrasaram todos o meses, fazendo dos bolsistas (muitos dos quais compraram equipamentos de informática à prestação para poder acompanhar o curso)  reféns da burocracia estatal.

A Prova

A prova final que tinha como objetivo averiguar se os professores haviam ou não aprendido com o curso de formação, funcionou de forma a coroar a antipedagogia educacional, ou a pedagogia autoritária tucana.

As questões foram simplesmente esdrúxulas, nada avaliavam e na maioria das vezes beiravam o óbvio. O baixo nível da prova deixou a maioria dos candidatos presentes revoltado com tamanho descaso por parte dos responsáveis pela elaboração do concurso. A grita dos professores não era à toa, porque que havia questões tão infames como, por exemplo, perguntar quantos pontos vale uma cesta comum, fora do garrafão,  no basquetebol (isso na prova específica de educação física), cuja resposta era escolhida numa questão de múltipla escolha.

Vale dizer que os candidatos a professores pediram à Fundação Carlos Chagas cópias digitais da prova, no entanto, alegando questões de direitos autorais, eles se recusaram a entregar o material.

E depois…

Após passarem por esse pobre e desrespeitoso processo seletivo, os professores ainda tiveram que se deparar com um processo de admissão, surpreendentemente, ainda pior. Começando pela perícia médica, os candidatos tiveram que providenciar, através de custeio próprio, exames de hemograma completo, VHS, glicemia de jejum, PSA prostático – para homens acima de 40 anos de idade, TGOTGP- Gama GT, ureia e creatinina, ácido úrico, urina tipo I e urucultura, ECG (eletrocardiograma) com laudo, Raio X de tórax, com Laudo, Colposcopia e colpocitologia oncótica (mulheres acima de 25 anos ou com vida sexual ativa), Laudo Mamografia e Ultrasonografia de mama, se necessário  ̶  mulheres a partir de 40 anos  ̶ , exame de laringoscopia indireta ou vídeo laringoscopia com foto e audiometria vocal e tonal. Para ser ter uma noção do absurdo e do abuso, uma candidata que tenha custeado todos os exames gastou no  mínimo R$ 2.500,00.

A extensa lista possui vários pedidos descabidos, e que poderiam inclusive acarretar em condenação na justiça caso algum candidato barrado resolvesse entrar com uma ação. Por exemplo, os exames de laringoscopia e audiometria servem para detectar algum problema no sistema fonológico do candidato. Sabe-se que doenças nessa área são comuns em professores, que têm a voz como instrumento de trabalho. Ou seja, um professor “precário” que já trabalha há certo tempo na rede e desenvolveu uma doença por causa do trabalho poderia acabar barrado no concurso.

Pitada de crueldade: o governador em exercício, Alberto Goldman, após ouvir severas críticas sobre o processo de admissão, prometeu que os candidatos seriam, pelo menos, reembolsado pelos exames, no entanto apenas aqueles aprovados no concurso. Ou seja, um professor que passou no concurso, mas descobriu ter câncer na garganta, além de não poder assumir seu cargo, ainda teria que arcar com as expensas do exame.

Para piorar, como dissemos no inicio desse texto, alguns candidatos foram barrados sob a absurda alegação de obesidade, e não só isso, alguns outros foram retidos porque tem hipertensão, nenhuma dessas causas são medicamente relevantes para impedir um professor de ministrar sua aula.

Coroando o choque de “jestão” (by Paulo Henrique Amorim) do PSDB paulista, os professores que passaram por todas as etapas ficaram até o final de janeiro sem saber ao certo quando poderiam assumir o cargo e entrar em sala de aula devido a uma série e imbróglios entre Apeoesp e SEE (Secretária da Educação), além da constante mudança de regras para o processo de atribuição de aulas, aliás, mudar as regras no meio do jogo é um clássico na educação paulista há 16 anos.

Um Estado que cobra de seus cidadãos uma cega aceitação de conteúdos de ensino e uma “perfeição” genética, não é novidade na história das civilizações. Porém, fica a pergunta, se é realmente o tipo de sociedade que queremos para nós, ainda mais quando os responsáveis por formar crianças e jovens são tratados com desprezo.

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1 comentário
  1. Luciana Coluci disse:

    Perfeito sua descrição!Foi realmente isso que aconteceu!

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