Copos de cólera: paranoia, bom humor e alegorias no Cairo em chamas


De passagem pelo Cairo, onde participaria do salão egípcio do livro, o tradutor brasileiro do “Livro das Mil e Uma Noites” (Globo) foi surpreendido pela eclosão da revolta popular contra o ditador Hosni Mubarak, no poder desde 1981. Neste depoimento, ele narra o clima na cidade e comenta aspectos culturais do levante.

MAMEDE MUSTAFA JAROUCHEFolha de São Paulo (6.fev.2011)

CHEGUEI AO CAIRO num dia e no outro começaram as manifestações que culminaram no 25 de janeiro. Mudei-me para o meu prédio num dia e no outro o elevador quebrou. Um livro que organizei para a Editorial Al-Jamal, de Beirute e Bagdá, ia ser lançado na Feira do Livro do Cairo, realizada anualmente entre a segunda quinzena de janeiro e a segunda de fevereiro, e que acabou sendo cancelada até segunda ordem.

“Vou-me embora, estou dando azar ou vivendo alguma espécie de inferno zodiacal”, digo a um amigo, o jornalista jordaniano Riyad Abou-Awwad, da France Presse, que responde: “Se quiser viver um momento histórico de verdade, fundamental para a história do mundo árabe e da região, fique e registre em português. Caso contrário, fuja feito um covarde, pois ainda é tempo”. “Ok, mas tenho medo de morrer”, protesto.

“E o que significa a porcaria da tua vida comparada a uma revolução?”, completa ele. O argumento me convence e fico, quase não sentindo que a “porcaria da minha vida” estivesse em risco. Pelo menos até ontem, quando fui interpelado, pouco depois do toque de recolher, por membros do comitê popular de defesa de quarteirões. A condição de brasileiro e o nome árabe me salvaram de uma paulada. Como me disse ao telefone o historiador Joaci Furtado, “é um privilégio ver a história em movimento”. Desde, claro, que ninguém tente matá-lo.

PARANOIA

Existe uma paranoia no ar, teorias conspiratórias sobem e descem as avenidas da cidade. Os americanos, os israelenses, os sauditas -para cada teoria existe uma explicação, muitas vezes engenhosa. Na quinta, ouvi a mais divertida: “Acabaram de prender quatro libaneses com documentos egípcios falsos e panfletos incitando a juventude contra o governo”, me diz o dono de uma LAN house, sabedor de minha condição de descendente de libaneses. “Onde?”, pergunto. “Logo ali, perto do tanque do exército.” Vou até lá, circulo por todo o local, pergunto aos passantes, a pessoas nos grupos concentrados pela região que discutem com vigor.

Ninguém sabe nada a respeito dos tais libaneses presos “logo ali”. Enquanto volto à LAN house, pergunto sobre os quatro misteriosos libaneses a um careca que caminha perto de mim. Agora fiquei obcecado.

Ele diz que não sabe de nada, mas que é bem possível, pois “esse pessoal do Hizbollah, junto com os iranianos, é capaz de tudo. Deus nos livre”. Só então compreendo: trata-se de uma conspiração não exatamente de libaneses, mas de xiitas. Já na LAN house, para que não reste a menor dúvida, ponho-me a elogiar o sunismo, Deus me livre de suspeitas.

HUMOR

A crise não elimina o bom humor das pessoas. Ligo para um amigo palestino, jornalista da rádio Montecarlo: “Nabil, sabe aquele restaurante que eu gostava? Virou um lixão”. “Parabéns, meu amigo, pois aquilo sempre foi um lixão. O seu gosto é que está se sofisticando.”

Conto ao poeta e editor iraquiano Kháled Al-Maaly que, após uma procura inútil, ganhei um pão de um popular na rua. Ele não hesita em responder: “Ele só está te cevando. Quando faltar comida, nós, estrangeiros, é que vamos virar refeição”.

Um slogan dos manifestantes, caprichosamente rimado: “Ben Ali está te chamando, o hotel de Jedda está te esperando”. [Jedda é o hotel onde o ditador tunisiano Ben Ali se refugiou, na Arábia Saudita.] “Tudo o que esperávamos ouvir de Mubarak era que entendeu o nosso recado”, diz com sorriso maroto a militante on-line Isrá Abdulfattah. “Entendi o seu recado” foram as últimas palavras de Ben Ali a seu povo antes de ser derrubado. Involutariamente, essa fala repetiu a de De Gaulle aos argelinos durante a revolução, em 1958.

Abdurrahman El Sharqawi, colega da Universidade do Cairo, aponta a placa no prédio do Partido do Amanhã: “Sede temporária”. Parece a piada pronta do José Simão. Em tempo: o Partido do Amanhã não tomou posição.

PAI

Na TV do governo, com o esgotamento dos argumentos em favor do ditador, o locutor lasca: “Ele é como se fosse nosso pai. Expulsá-lo agora seria como jogar o nosso pai na rua porque está velho”.

O famoso ator Ádil Imam, acusado à boca pequena de ser contra os protestos por receber dinheiro e benefícios do governo, resolve declarar em todos os canais internacionais o seu apoio à causa dos “nossos jovens”.

Comentário do analista político Azmi Bichara: “É um excelente sinal para a revolução que os ratos fujam do navio”. O presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, numa oferta preventiva: “Não só não me recandidatarei como não pretendo eleger meu filho no meu lugar”.

No mesmo dia 1º/2, na sede do Partido Tajammu’, socialista, montaram uma pequena clínica com remédios e médicos se revezando no plantão para atender pessoas agredidas etc. Entra um sujeito ofegante, com algum problema debaixo do olho. Chego perto dele: “Te acertaram no olho?”. “Não”, é a resposta irritada. “Essa marca é de nascença. Só estou cansado.”

GERAÇÕES

A diferença nas culturas está no modo como veem e lidam com os mesmos fatos. O dono do apartamento que aluguei me diz: “Um homem tem algo mais caro que o seu filho? Não! É por isso que Mubarak quer eleger o filho em seu lugar, e vai lutar até o último minuto”. Parece uma explicação razoável, mas Lula, FHC e tantos outros certamente amavam os seus filhos, sem que isso os fizesse planejar colocá-los em seu lugar. O uso desses argumentos, contudo, demonstra a sua força -para as gerações mais velhas.

Não à toa, se trata de uma revolução de jovens, que já não acreditam mais nessa conversa. Como observou com lucidez o velho jornalista Muhamad Hassaneyn Heykal, “o alvorecer, o amanhecer e o entardecer têm seus donos, e já não é a nossa geração”. É o que senti no meio dos manifestantes jovens: uma grande sensação de deslocamento, não por minha condição de estrangeiro, mas por meu tempo, e foi o que vi entre os mais velhos que os apoiam.

Embora se saiba que é impossível acompanhar revoluções com neutralidade, tampouco a identificação absoluta é possível quando a pertinência ao lugar está prejudicada. Exigir democracia, eleições livres, dignidade, um parlamento eleito com liberdade, parece-me apenas a superfície de algo que se move nas profundezas desses meninos, é o desejo de sacudir todo o atraso, toda a miséria que infelicita os árabes, o coração de todos os árabes, com as limitações e “repúblicas hereditárias” que os reduzem à condição de “fábula do lar, riso da praça”, como diria Gregório de Mattos.

Talvez alguns se lembrem da releitura que o escritor Raduan Nassar, no romance “Lavoura Arcaica” (1976), faz de uma fábula árabe a respeito da paciência. Nessa antiga fábula, incluída no “Livro das Mil e Uma Noites”, um velho faz para um jovem um discurso didático sobre as virtudes da paciência e da moderação, e este se convence e o acata. Na releitura de Raduan, o rapaz, após ouvir a fala do velho, espanca-o até a morte. Os manifestantes revolucionários egípcios são esse jovem, e Mubarak e seus asseclas, voluntários e involuntários, são o velho.

“O povo quer derrubar o regime”, começaram dizendo, e Mubarak dissolveu o ministério e nomeou outro. “O povo quer derrubar o presidente”, corrigiram eles, e Mubarak anunciou que em setembro deixaria de “servir ao povo egípcio”. “Ele que se vá, porque nós não iremos”, emendaram.

RADICALISMO

Não se trata apenas do desejo de expulsar um ditador, mas a face por assim dizer palatável e genérica, para setores da classe média ocidental, de um radicalismo saudável e furiosamente belo em sua pureza e quase espontaneidade: com o ditador, queremos expulsar um tempo e um modo de pensar. É a sua mensagem. Eles já não têm moderação e muito menos paciência.

Nesse jogo de alegorias, Mubarak é o pretexto, uma das manifestações da infinita tristeza deste tempo árabe, e botar abaixo a sua miséria é a missão a que se propuseram. É a expectativa dessas conquistas que ganhou boa parte da população.

Quanto a nós, absolutamente outros, o melhor, com todo o respeito ao poeta, é que voltemos todos para casa, as mãos pensas, avaliando em silêncio o que perdemos.

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1 comentário
  1. C disse:

    Muito bom ! Resumo bem humorado dos sentimentos/pensamentos de alguém ‘longe e muito perto’ do Oriente Médio.

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