Discriminação contra os obesos pelo governo de São Paulo

Pedro Ramos de Toledo, professor de História e um dos docentes vetados pelo Departamento de Perícias Médicas por ser obeso, enviou esta carta aberta ao governo de São Paulo propondo importante reflexão que deveria ser obrigação do Estado.

Tomara que esta carta e toda a repercussão negativa dessa recusa preconceituosa a alguns professores que passaram em concurso levem o governo a rever sua prática para o caso, uma vez que é hábito das sucessivas gestões tucanas pouco se importar com as reivindicações do professorado, bem como da população em geral.

Pedro Toledo, via Viomundo (5.fev.2011)

Carta Aberta aos Secretários da Educação e da Gestão Pública do Governo de Estado de São Paulo

Caros Secretários Herman Jacobus Cornelis Voorwald e Julio Semeghini,

Meu nome é Pedro Ramos de Toledo e venho por meio desta missiva externar meu profundo desagrado com a posição do Governo do Estado referente aos professores obesos aprovados em concurso da Rede Estadual de Ensino. Após um ano e meio de processo seletivo, no qual fomos submetidos a duas provas eliminatórias e a um curso de formação com avaliações semanais, vemo-nos surpreendentemente proibidos de exercer a profissão de professor, um sonho para muitos de nós.

Sou obeso e, como muitos outros que sofrem da mesma condição, também fui considerado inapto para exercer o magistério. A pessoa obesa sofre cotidianamente com a discriminação social. Somos considerados feios, preguiçosos e mal-ajambrados. Não raro o obeso é motivo de piadas ao tentar passar por uma catraca ou uma porta giratória, ou mesmo vítima de hostilidade ao ser obrigado a se esgueirar no meio da multidão em estabelecimentos e transportes públicos lotados. Estamos sujeitos a conviver diariamente com troças, forma debochada de desprezo e, diferentemente de outras “minorias”, encontramo-nos em condição especialmente vulnerável, pois não contamos com entidades de defesa de nossos direitos civis ou campanhas de conscientização contra o preconceito.

Se o quadro já é desolador, o Poder Público do Estado de São Paulo, na contramão das políticas inclusivas que alicerçam a luta dos Direitos Civis em nosso país, decide limitar a cidadania de todo um grupo social, tornando-nos, aos olhos do mundo, cidadãos de segunda classe. A exclusão de obesos na avaliação do Departamento de Perícias Médicas é uma afirmação categórica de concordância com todos os estereótipos preconceituosos com os quais os obesos são estigmatizados. Legalizou-se a discriminação.

Caros Secretários, até o momento as desculpas dadas pelo Poder Público são pífias. Afirmar que tais laudos se sustentam exclusivamente em critérios médicos é de uma pobreza intelectual atroz. Foucault já chamou a atenção para o papel disciplinador e coercitivo dos discursos “científicos”, que foram utilizados seguidas vezes, ao longo da História, como “fatos irrefutáveis” para justificar as mais diversas atrocidades. Hoje o “gordo” é a bola da vez. Mas, não faz muito tempo, os mesmos médicos e cientistas diziam – amparados por dezenas de “pesquisas sérias e quadros estatísticos” acima de qualquer suspeita – que os negros, índios e povos mestiços eram geneticamente inferiores aos povos nórdicos. Tal afirmação tornou-se um regime de verdade que sustentou pavorosas políticas de embranquecimento e deu fôlego para doutrinas eugenistas por todo o mundo. Sob a máscara da neutralidade científica, regimes de verdades essencialmente reacionários puderam se infiltrar nos aparatos coercitivos da sociedade e justificar práticas abertamente preconceituosas. O que ocorre agora é exatamente o caso.

Diversos obesos têm relatado situações de constrangimentos e humilhações durante a perícia médica: Uma professora, ao ser avisada que reprovaria no exame, já sob forte tensão, foi obrigada a ouvir um sermão sobre “como ela estava deformando o seu corpo”; outra, após explicar que engordou ao ter dado a luz ao seu primeiro filho, ouviu como resposta que “ela comia como se ainda estivesse grávida”. Eu mesmo fui obrigado a ouvir que “ninguém quer um funcionário balofo como você”. Este é o nível dos profissionais que nos vem julgando. Subterrâneo.

Não faço aqui uma apologia da obesidade, Secretários. Sei dos riscos à saúde que a obesidade traz, bem como do desconforto em que vive o obeso. No entanto, é lamentável que minha capacidade profissional seja sumariamente desqualificada por ser “balofo”. É humilhante ser tratado como um incapaz. É aviltante ser vítima de preconceito. As Secretarias perderam uma excelente oportunidade de começar a mapear, através do Departamento de Perícias Médicas, servidores com problemas de peso para oferecer-lhes oportunidades de tratamento. Ao invés, preferiram cortar fundo com a navalha da exclusão. Esse episódio grotesco mostra como um regime de verdade científico pode agir como ferramenta de opressão e preconceito. Mais um episódio a figurar entre incontáveis medidas que caracterizam a péssima relação entre a atual administração e os profissionais da educação.

Mesmo o discurso que parte do ponto de vista da boa administração é patético. Se é do interesse público vetar pessoas obesas de ingressar no funcionalismo estadual para não assumir riscos de afastamentos e custeio de possíveis futuros tratamentos para os professores admitidos, tal interesse também deveria abarcar fumantes, idosos, pessoas estrábicas, hipertensos, anoréxicos, soropositivos, portadores de necessidades especiais etc. Poderíamos extrapolar e estender tal restrição às mulheres em idade fértil, que estão sujeitas à maternidade e consequente licença. De todo um universo social, composto por pessoas dotadas de histórias e condições diversas, as pessoas obesas foram selecionadas arbitrariamente, sem qualquer lei ou resolução que fundamente juridicamente tal seleção. Novamente, discriminação.

Sou obeso. E sou plenamente capaz de exercer a profissão de professor. Minha formação acadêmica provém de uma das mais conceituadas instituições de Ensino Superior do país e, posso garantir-lhes, é absolutamente sólida. Tenho a dedicação necessária para lecionar, a ponto de superar um concurso público longo e estressante e o fato de a carreira magisterial ser há muito desvalorizada; tenho a vontade necessária, a ponto de abrir mão de um emprego estável cujos rendimentos são maiores do que aquilo que receberei na rede; tenho plena convicção de que a carreira do magistério é a mais nobre de todas as profissões e que não será nos tribunais ou nos salões atapetados dos gabinetes e escritórios, mas nas salas de aula espalhadas pelos rincões deste país, que transformaremos nossa nação na potência tão sonhada pelas gerações que nos antecederam. Não pensem por um único momento que exista qualquer alternativa de desenvolvimento que passe ao largo dos professores. Não há.

Caros Secretários, é um fato que sou obeso. No entanto, antes disso sou um brasileiro que ama sua terra e que quer fazer sua parte. Parem de atrapalhar e se afastem. Gordos ou magros, nós professores temos muito que fazer. Temos um país inteiro para construir.

Grato por sua atenção,

Pedro Ramos de Toledo , 34

Professor de História nomeado para a Rede Pública de Ensino do Estado de São Paulo e Obeso.



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2 comentários
  1. SILVIO PROFIRIO disse:

    Fique perplexo diante dessa reportagem. Primeiramente, pelo fato de perceber como as diferentes formas de preconceito estão disseminadas em nossa sociedade. A propagação é tanta que órgãos governamentais que deveriam atuar no sentido de restringir esse mal que se difunde cada vez mais entre as pessoas, exercem um papel oposto ao que deveriam exercer. Mas, fiquei ainda mais perplexo, ao perceber como a sociedade impõe padrões às pessoas como requisitos de aceitação social e, nesse caso, de aceitação profissional.

  2. SILVIO PROFIRIO disse:

    Obesidade como fator de exclusão: professoras sofrem discriminação em SP.

    Chegamos ao novo milênio e com ele a intensificação das diversas formas de preconceito. Essa problemática não é algo recente. Contudo, tem se intensificado, nos últimos anos, refletindo – se nos mais diversos âmbitos sociais. Esse mal leva as pessoas a julgarem outras, com base em diversos fatores, tais como: sociais, econômicos, linguísticos, etários, opção sexual, cor, aparência física etc.
    O preconceito ocorre de diversas formas. Algumas vezes, discreto, velado e indireto, por meio de eufemismos, comentários, olhares, etc. Mas, na maior parte dos casos, ele é direto e agressivo. De ambas as formas, ele ataca suas vítimas, atingindo a auto – estima de seus alvos e, sobretudo, restringem acessos, privando o cidadão de seus direitos. Este último ilustra um fato que ocorreu recentemente em São Paulo.
    Na noite do domingo, dia 06/02/2011, o fantástico exibiu uma reportagem que veiculava o fato de três professoras terem sido impedidas de assumir um cargo público, pelo fato de serem consideradas obesas. Ambas já exercem a função docente na Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, porém como professoras substitutas (contrato temporário). No último concurso realizado por essa secretaria, elas foram aprovadas nas provas e nas etapas posteriores do processo seletivo. Contudo, na pericia médica, elas foram reprovadas, ainda que não houvesse nenhuma anomalia com os exames médicos solicitados. E, o pior, elas não receberam nenhuma justificativa para essa avaliação negativa.
    Elas foram acompanhadas uma repórter (Renata Ceribelli) até a junta média, a fim de verificar o motivo pelo qual foram consideradas inaptas. Só assim elas conseguiram verificar o motivo de serem consideradas inadequadas ao exercício docente. No formulário de uma das docentes, constava uma anotação do medico com a palavra obesidade. No formulário da outra docente, apesar de o formulário ter sido retirado de suas mãos pelo diretor técnico do órgão, ela conseguiu perceber que constava o número do CID correspondente à obesidade. Diante dessa situação, a reporte questionou o preconceito que elas sofriam. No entanto, recebeu a declaração que elas estavam sendo consideradas como doentes. Isso em decorrência da obesidade.
    Fique perplexo diante dessa reportagem. Primeiramente, pelo fato de perceber como as diferentes formas de preconceito estão disseminadas em nossa sociedade. A propagação é tanta que órgãos governamentais que deveriam atuar no sentido de restringir esse mal que se difunde cada vez mais entre as pessoas, exercem um papel oposto ao que deveriam exercer. Mas, fiquei ainda mais perplexo, ao perceber como a sociedade impõe padrões às pessoas como requisitos de aceitação social e, nesse caso, de aceitação profissional.

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