Volta às aulas: alunos fogem da periferia em busca de sossego

A matéria do iG que segue acena para o que dissemos neste blog sobre a educação paulista nos últimos dezesseis anos, ou seja, que ela aprofunda a diferença entre escolas estaduais tidas com boas e as avaliadas como ruins. Segundo a matéria, estudantes que residem na periferia deslocam-se de seus bairros para escolas em regiões centrais, preterindo as que ficam próximas de suas casas, pelo simples fato de que as primeiras são sempre melhores. Isso é reflexo de um projeto educacional absolutamente excludente e catastrófico, que ao invés de diminuir a desigualdade, consegue ampliá-la no interior dos próprios serviços prestados pelo Estado de São Paulo.

Volta às aulas: alunos fogem da periferia em busca de sossego

Escola em área central de São Paulo recebe estudantes de pelo menos cinco bairros afastados. “Perto de casa é ruim”, diz aluna

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo (10.fev.2011)

Ainda estava escuro quando os alunos começaram a chegar para o primeiro dia de aula na escola estadual Anhanguera, na Lapa, bairro central da zona oeste de São Paulo. Como vieram de Pirituba, Jaraguá, Morro Doce, Santa Mônica e Anhanguera, calcularam mal o tempo até o local. Cada um destes bairros tem pelo menos um escola pública de ensino médio, mas os estudantes – e os pais – preferem o deslocamento a estudar nas opções próximas.

“Perto de casa é muito ruim”, diz Thais Lima Gomes, de 17 anos, moradora do Morro Doce. Ela conta que não se considera ótima aluna, nem gosta de estudar, só quer “algo para fazer” e traquilidade. “Nas escolas de lá, acontecem muitos problemas”, resume.

Ruan Soares Galhardo, de 16 anos, até freqüentou uma escola estadual de Pirituba, mas desistiu no meio do ano. “Eu comecei a trabalhar e ia para escola só para perder tempo, assistir briga, nunca ter aula, desisti”, lembra.

Ruan se matriculou na Anhanguera por sugestão do amigo Mike Willian, com quem havia estudado junto durante o ensino fundamental. “Não é que aqui seja uma maravilha: no ano passado a gente ficou sem aula de Física, a professora tirou licença maternidade e só apareceu no final do ano, para dizer que todo mundo ia ficar com média 6, mas alguns professores são bons e, quem quer, fica longe de encrenca”, comentou.

Os colegas Leonardo de Azevedo e Anderson Peixoto, ambos de 14 anos, vieram do Jaraguá e conheceram a escola nesta quinta. “Melhor do que lá tenho certeza que vai ser, a gente tem conhecidos que frequentas e sabe que é difícil ter aula, nem aluno nem professor levam a sério”, diz Peixoto.

Já Bianca Martins de Souza, de 14 anos, que morava em Sorocaba, no interior, e se mudou para Anhanguera, teve a escola selecionada pela mãe. “Ela não gostou da que era perto e como minha prima estudava aqui, achou melhor”, conta.

Vizinha que não a conhecia, Luana Letícia, de 17 anos, afirma que a mãe de Bianca acertou. “É ruim morar longe da escola, mas a gente precisa ir atrás de algo bom”, afirma, matando a saudade das amigas que não viu durante as férias devido à distância.

Estilo padrão: fone de ouvido
Enquanto esperavam a abertura dos portões, a maioria dos alunos ouvia música. Mike e Ruan, de Pirituba, dividiam o fone de ouvido e escutavam a banda de metal pesado Dimmu Borgir. A dois metros,  Bianca, que veio de Sorocaba, escutava a cantora Manu Gavaz. Afastada, Kelly Luany Moreira, de 16 anos, acompanhava uma animada versão feita por Glee de Total Eclipse of My Heart.

Outro estreiante na escola, Erickson Ferreira da Silva, de 15 anos, que vem do bairro Santa Mônica, ouvia sozinho controverso sambista Belo. “Isso ajuda a gente a ficar tranquilo, cada um no seu estilo”, diz.

Redes públicas voltaram esta semana

Além da rede estadual paulista, as férias acabaram nesta quinta no Distrito Federal. Durante os primeiros dias desta semana, voltaram às aulas a rede municipal de São Paulo, o Rio de Janeiro, Paraná, Espírito Santo, Bahia e Santa Catarina. Os sistemas particulares voltaram no início do mês.

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2 comentários
  1. O EDUCADOR É O ARQUITETO DE UMA SOCIEDADE JUSTA.

    A educação é fator que determina o sucesso e a ascenção de um páis.
    Todo mundo sabe disso.
    A educaçao é tudo.
    Em São Paulo a cidade mais importante do país não dá importância para a educaçao.
    Aluno bonzinho, e criança que não seja irriquieta, que não deem trabalho, que entrem na sala de aUla apenas para absorver os conhecimentos que os professores vão despejar em cima deles, não existe.
    Criança e adolescente brigam, ficam de mal e de bem com a mesma facilidade.Dão trabalho, exigem atençao e sobretudo respeito e bons exemplos. Tudo que não existe na escola pública de São Paulo
    Na mão de educadores com verba suficiente para uma escola de primeiro mundo, teríamos um Brasil varonil, e bem resolvido, um país merecedor de ocupar lugar de país bem desenvolvido.Invertemos a ordem, passamos a dar a prioridade para o professor, eleito pela imprensa como o abnegado, o herói que é refém de alunos bandidos, perigosos e agressivos.
    O educador, esquecido e foi se tornando a minoria na escola. A banda podre dos maus professores, se tornou a dona da situação.
    A imprensa demonizou o aluno de escola pública de um jeito que ele passou a ser considerado o problema da escola pública.
    Da mesma maneira que um educador forma cidadão de bem e é o arquiteto de uma sociedade justa, o mau professor é o virus que devassa e aniquila a esperança de pais e alunos.
    Como não existe um número suficiente de alunos bonzinhos, santinhos que não contestam nada e não reclamam e não dão trabalho, passaram a ofender a familia e responsabiliza-la pelo fracasso da escola.
    Em 2005, São Paulo fechou 300 escolas. Agora não temos nenhuma escola, nenhuma mesmo, que não tenha turno ou salas fechadas. Pela resposta que recebemos da COGESP, vão continuar fechando por falta de demanda.
    Como assim ???
    Continuamos com a mesma populaçao. A escola encolhe por falta de demanda ?
    No final do 2009 foi feito oficialmente pela Secretaria Estadual de Educação, uma cartilha autorizando a escola a expulsar, transferir compulsóriamente aluno para a delegacia de policia.
    Foi um tiro no futuro.
    Um tiro no futuro e no progresso do Brasil que está se mostrando uma pátria nada gentil para seus filhos. Na desordem generalizada da escola pública.

  2. Jacki disse:

    Tambem concordo todas as escolas tem a capacidade de serem muito melhores que as outras

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