E Cuba?

Por Vladimir Safatle*Folha de São Paulo (8.fev.2011)

Há uma compulsão de repetição no debate político brasileiro. Todas as vezes em que se levantam questões sobre o apoio do Ocidente a ditaduras, sobre o bloqueio do dever de memória no Brasil, o desrespeito aos direitos humanos nos EUA e na Europa, sempre se ouve a pergunta: “E Cuba?”

Um pouco como se tal pergunta parodiasse o dito de Max Horkheimer: “Quem não está disposto a criticar o capitalismo deve se calar sobre a União Soviética”, fornecendo a versão “quem não está disposto a criticar Cuba deve se calar sobre o resto do mundo”.

Mas é interessante perceber como os amigos de Cuba não procuram, assim, ampliar o espectro do debate sobre democracia e direitos humanos. Na verdade, querem neutralizá-lo com o raciocínio: “Pare de falar sobre o que não gosto de ouvir, senão te lembrarei aquilo que quer esquecer”.
Contra essa lógica da neutralização, só há uma saída: falar aquilo que, no fundo, eles não querem falar, ou seja, ampliar o debate também para Cuba, sem fechá-lo para outros casos.

De fato, há certos setores minoritários da esquerda nacional que procuram justificar o injustificável. Cuba é, no máximo, uma revolução popular que há muito entrou em estado de degenerescência. Hoje, não passa de uma ditadura que só serve para nos lembrar que mesmo revoluções verdadeiras podem terminar mal.

Há dois artifícios retóricos usados para relativizar o fato: creditar o fechamento do regime ao embargo norte-americano e minorá-lo dizendo que, ao menos, o governo cubano cuidou dos indicadores sociais de saúde e educação. Os dois artifícios são desonestos.

O primeiro consiste em dizer que problemas estratégicos (a luta contra o embargo) submetem princípios norteadores da luta política (o aprofundamento da liberdade). O segundo parece o argumento dos apoiadores de Pinochet : impomos uma ditadura, mas aumentamos a riqueza (no caso cubano, sem grandes desigualdades). Mas riqueza social sem democracia real continua sendo miséria política.

Nesse sentido, Cuba nos mostra que um acontecimento verdadeiro não garante a sequência de suas consequências. Mais do que um projeto claro, as revoluções são o ato violento de abertura de novas sequências. Um ato que mobiliza expectativas contraditórias, que coloca em circulação valores cuja determinação de sua significação será objeto de embates também violentos.

Por isso, uma revolução é uma causa a partir da qual não é possível derivar, com segurança, qual série de consequências virá. Quando as consequências são ruins, a crítica deve ser radical. Por sinal, os melhores setores da esquerda sempre fizeram isso. Eles nos lembram que o verdadeiro compromisso é com uma democracia de forte participação popular e poder instituinte soberano, não com ditaduras.

 

* Vladimir Safatle é professor de Filosofia da Universidade de São Paulo

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