Pesquisadores da USP dizem que quem tem diploma de mestrado, doutorado ou de especialização sofre mais discriminação no trabalho

do R7 via Portal Universitário (10.fev.2011)

Preconceito e humilhação no ambiente de trabalho são problemas que costumeiramente atingem quem tem mais anos de estudo ou formação maior do que os chefes e os colegas, segundo uma pesquisa apresentada na Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo).

A discriminação com quem tem diploma de mestrado, doutorado ou de especialização acontece em três momentos: na hora de contratar, no decorrer do trabalho e na hora da demissão.

A pesquisa aponta que, na contratação, muitas vezes a sobrequalificação (nome dado ao efeito de ter mais qualidades do que o emprego exige) é vista como fator negativo pelos empregadores, porque pode levar a questionamentos sobre o salário e a função. Em entrevista à Agência USP de Notícias, o pesquisador Jorge Boucinhas Filho, responsável pelo estudo, apontou alguns casos.

Em um deles, a contratação de um professor de história, com mestrado em ciências sociais, foi dispensada por escolas de ensino médio porque seu currículo era superior ao necessário e suas explicações de nível complicado poderiam confundir os alunos, de acordo com Boucinhas.

– Uma das características mais perversas da discriminação por sobrequalificação é que ela não é baseada em estereótipos, mas gerada por questões financeiroas ou pelo medo que o chefe tem de ser substituído pelo empregado.

Esconder as qualidades

Boucinhas relata outro caso em que um economista de Natal (capital do Rio Grande do Norte) teve que mentir e dizer que não era formado em economia para conseguir um emprego, como corretor de imóveis. A dissertação de mestrado apresentada pelo pesquisador aponta que as pessoas não sabem reagir a esse tipo de preconceito.

– A reação da maior parte das pessoas que fica sabendo de casos similares, ou que sofrem na pele a mesma situação, consideram a atitude do empregador como imoral e nunca como ilegal. Afinal, é o empregador quem manda e desmanda em sua empresa.

Trata-se, de um erro, na opinião do pesquisador. É possível entrar na Justiça quando ocorre discriminação, que pode se traduzir inclusive em práticas mais complexas de rebaixar o salário de quem tem mais prepraração, como no caso de universidades privadas.

Um fato comum em universidades particulares é a forma de conter gastos com o corpo de professores. Como a redução de salários é proibida pela Constituição, a instituição promove o esvaziamento dos cargos de alto nível de especialização e não contrata mais professores para aquela determinada faixa salarial. Depois, é criado um novo cargo para contratar professores menos especializados e com salários mais baixos.

Soluções

Quando o profissional é discriminado no recrutamento, ele pode mover uma ação judicial por perdas e danos e pedir uma indenização, afirma o pesquisador.

– Se, no entanto, a discriminação acontecer durante o contrato de trabalho, além da indenização, [a pessoa] pode pedir, por exemplo, que seja reenquadrada em um cargo condizente com a sua formação, caso a empresa possua um plano de cargos e carreiras.

Boucinhas aconselha aos trabalhadores que fiquem atentos, porque entrar com um processo na Justiça pode ser uma faca de dois gumes.

– Infelizmente, não há como garantir que o trabalhador que mova uma ação por discriminação ou outras questões trabalhistas não possa ser alvo de uma lista negra, prática nefasta ainda utilizada em alguns setores da economia, que traz a relação dos nomes de pessoas que moveram processos na Justiça e, por isso, saem prejudicadas na hora de serem chamadas para uma entrevista de emprego.

Fonte: R7

Anúncios
3 comentários
  1. ELIANE JACQUELINE MATTALIA disse:

    Doutora em Letras pela USP, durante anos trabalhei sem que meu título fosse incorporado, em minha evolução funcional. Quando me tornei professor nível 6, sofri outra discriminação. Fui demitida pela instituição de ensino superior da rede particular, no dia seguinte àquele em que anunciei que seria novamente mãe por adoção (demitida no dia seguinte ao do nascimento de meu segundo filho).
    Em minha modesta opinião, tais ‘ditas’ universidades, particulares, precisariam melhor supervisionadas, pois nem sempre há compromisso com a qualidade de ensino e de pesquisa. Há sempre aqueles abutres da educação que se aproveitam de brechas na fiscalização e da relativa escassez intelectual para exercer suas altas performances.
    Leciono atualmente na rede pública, como professor de Ensino Fund II e Médio.

  2. Graças a Deus as instituições em que eu trabalho são muito sérias e comprometidas. Ao contrário do que está acontecendo com essas que a reportagem denuncia, as faculdades em que eu leciono chegam a colocar a mão no fogo por seus professores. Eles são muito convictos de que seus profissionais precisam se especializar mais ainda e estimulam todos a fazerem pós-graduações. Mas é fato que existem incontáveis casos por aí de empresas em situação caótica sobre esse aspecto. Grande abraço a todos, @marcpbb

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: