Reitoria da USP: estratégia de atemorização

"Prédio alugado na Av. Corifeu de Azevedo Marques, 1973, cuja área é bastante exígua para comportar a CCS, a Seção de Registro de Diplomas e seu arquivo, além da Edusp e seu estoque"

por Em Defesa da Educação (14.fev.2011)

As mudanças recentemente anunciadas de órgãos da USP que ora funcionam no Edifício da Antiga Reitoria para prédios alugados fora da Cidade Universitária são apenas o mais novo capítulo da novela iniciada ainda em novembro de 2009, logo após a escolha de João Grandino Rodas como reitor da Universidade de São Paulo.

A se julgar pelo histórico desde então, marcado por falta de planejamento, idas e vindas, compromissos assumidos e não cumpridos e inúmeras alterações de planos, o que agora se anuncia pode não passar de mais um susto – ou será que agora é para valer? Impossível saber, já que a incerteza parece fazer parte da estratégia de atemorização de funcionários e mesmo de dirigentes que, sem saber como agir e o que esperar, relutam em se posicionar.

No início, a retomada do Edifício da Antiga Reitoria era “simbólica”, um “caminho de volta para se re-estabelecer os valores da Universidade”. Seria feita aos poucos, alguns andares por vez, conforme os órgãos ali localizados fossem se instalando, de forma mais adequada, em outros locais. A primeira área requisitada foi parte da que era ocupada pela Editora da USP no sexto andar: apenas o gabinete e mais quatro salas. O plano do reitor, à época, era se instalar imediatamente ali: ele sequer pisaria no gabinete do outro lado da praça. Feita uma breve reforma, escolhidos os móveis, ao gosto do novo ocupante, o espaço estava pronto. Mas não fora bem calculado: era insuficiente, e a mudança não ocorreu. Mais algumas salas do sexto andar foram solicitadas, outras reformas foram feitas, inclusive em cima da que acabara de terminar, e mais uma vez o reitor não apareceu. Na verdade, ele precisava do sexto andar inteiro…

A solução encontrada foi então desalojar o Coral USP e os demais ocupantes do quarto andar. Totalmente reformado, este pavimento passou a abrigar a Edusp, que ali ficaria por dois anos, até que se construísse a sede própria para a Editora da Universidade. O sexto andar, depois de mais uma reforma, finalmente receberia o reitor.

Com a expectativa, as especulações foram aumentando, alimentadas pela falta de comunicados e explicações oficiais: melhor não se comprometer, pois os planos podem sempre mudar. O Sibi (Sistema Integrado de Bibliotecas USP)vai para o prédio do HSBC. O Jornal da USP, para algumas salas na Av. Paulista. O IEA (Instituto de Estudos Avançados), para a Reitoria. A Edusp, para o Ceuma. Algum azarado irá para o Centro Empresarial, no Morumbi. Ou não será nada disso? De acordo com o Sindicato, todos iriam para o antigo Detran.

 

Prédio da Antiga Reitoria

Hoje, passados mais seis meses desde a liberação do sexto andar, ainda não se tem notícias de o reitor estar despachando por ali. E agora todos do Edifício estão sendo despejados às pressas, para locais completamente inadequados. Para justificar a guinada nos planos, o discurso também mudou. O simbolismo ficou para trás e agora o reitor tenta legitimar o despejo geral afirmando que a reforma é urgente porque o prédio estaria em condições de “cortiço”.

Se há setores da universidade funcionando em condições inadequadas, é louvável que se queira dar a eles espaços melhores. Os problemas existem, e precisam ser resolvidos, mas as soluções, para serem efetivas, têm de ser pensadas e muito bem planejadas. E planejamento se faz discutindo ou ao menos consultando os envolvidos, o que em nenhum momento ocorreu. Por que, por exemplo, não construir primeiro os prédios necessários e depois, feito isso, reformar os atuais para outros usos?

O aluguel de prédios fora da Cidade Universitária dificilmente se justifica, uma vez que espaço ali não falta. E, ainda que a medida fosse indispensável, antes de poder ser assim considerada uma série de fatores e possibilidades deveriam ser ponderados. Mas, quais estudos foram feitos? Os impactos financeiros da medida foram devidamente calculados? Qual será o gasto total da universidade não apenas com o aluguel do prédio em si, mas com tudo o mais que será necessário? Quanto tempo de trabalho será desperdiçado em mais uma mudança? Quanto esforço dos funcionários será desviado das atividades-fim de seus órgãos para suprir necessidades desencadeadas pela mudança?

Para o prédio alugado na Avenida Corifeu de Azevedo Marques, n. 1973, cuja área é bastante exígua para comportar a CCS, a Seção de Registro de Diplomas e seu arquivo, além da Edusp e seu estoque, será impossível levar todos os equipamentos, móveis e arquivos usados cotidianamente. O trabalho fatalmente sofrerá, tanto em termos qualitativos como quantitativos. Esses detalhes, no entanto, aparentemente passam ao largo das preocupações da administração da Universidade.

O fato é que ou o reitor desconhece as atividades-fim desses órgãos ou simplesmente não tem a menor consideração por elas. Só assim pode cogitar mandar os funcionários da Coordenadoria de Comunicação Social para um prédio onde não há telefone, nem rede, nem internet. De livros ele já deu indícios de que não gosta mesmo, e talvez até por isso esteja transferindo o depósito da Edusp, que há anos já sofre com condições precárias, para um subsolo que alagou durante as chuvas de janeiro.

O mesmo reitor que defende a mudança dizendo que a Antiga Reitoria está em condições de cortiço não hesita em abarrotar funcionários e estagiários em um prédio sem quaisquer adaptações para tal fim. A total desconsideração pelo conforto deles é grave, mas o que esperar de um reitor que não se interessa por saber se os objetivos e funções dos órgãos deslocados poderão continuar sendo cumpridos?

A falta de coerência que se observa é um sintoma do problema maior que enfrentamos na Universidade. Uma administração sem projeto e sem uma visão clara do que a USP realmente necessita distrai-se com questões menores, incapaz de pensar em ações que efetivamente a conduziriam à tão propalada “excelência”. Ou será que o reitor não tem coisas mais importantes a se preocupar do que a mobília de seu gabinete? Passar horas escolhendo pessoalmente cortinas muito possivelmente não é a atividade mais premente de uma magnífica tarde (isso, infelizmente, não é piada).

No rastro de uma administração volátil e caprichosa, o que fica para a universidade é o desperdício de dinheiro público, esforços e horas de trabalho jogados no lixo e um crescente mal-estar entre todos aqueles que aos poucos vão percebendo o que se passa.

 

 

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9 comentários
  1. John disse:

    Esse reitor é um maluco. Ele está gastando uma fortuna com essas mudanças caprichosas e está ferrando com a vida e a paciência de todo mundo. Em qualquer democracia esse maluco seria deposto e processado por improbibade administrativa. Pena que a USP é uma monarquia.

  2. Juliana Teixeira disse:

    O reitor faz o que quer e ninguém coloca um freio. Onde está o CO? Vendido! Isso mesmo, vendido! A atual e ultrapassada estrutura de poder permite que a reitoria controle as instâncias decisórias, sem necessidade de dialogar com a maioria da Universidade. Então, enquanto isso não mudar, enquanto ficaram chateados só no momento em que é prejudicado e tem que mudar de prédio, a USP vai continuar sendo mandada pelos grupos que a controlam faz mais de 20 anos.
    Juliana

  3. Pedro Páramo disse:

    É isso aí!
    Ponderado e instrutivo, o texto nos faz antever um futuro bastante dracônico e autoritário para a Universidade.
    Sinal dos tempos…

  4. Silvia disse:

    Indecifrável
    Rodas chamou toda a CCS para um café da manhã no dia 10 de fevereiro, e a idéia era explicar as mudanças no departamento, de prédio, etc. A surpresa foi a pior possível: o Ilmo. reitor saiu de fina, sem nem dar bom dia, que dirá explicações! Alguém pode explicar o que se passa na mente de tal pessoa? Indignados e cabisbaixos, moral abaixo de zero. Foi assim que retornamos ao trabalho…

  5. Bruno disse:

    O Rodas é o Mubarak da USP, na outra ponta o que nos falta é falta a coragem dos jovens egípcios, já que os uspianos estão precocemente fossilizados como os seus metres, estes mais preocupados com o gatilho ou se for mais novo com uma verba aqui e outra ali de alguma fundação, da capes.
    Resumindo, o Mubarak Rodas vai despejar quem quiser, quando quiser e porque quiser, vão espernear, gritar… mas não vai sair disso. É triste.
    Bruno

  6. Jaqueline Lemos De Oliveira disse:

    Realmente a situação é critica e nada vai acontecer para que se mude, pois os próprios funcionários “marionetes” não se unem para lutar contra essa ditadura. Todos reclamam e odeiam a ideia de sair de dentro do campus mas nada fazem por medo (covardia) de perder seus empregos.
    Digo mais eu mesma posso ser uma azarada quem vai para o Centro Empresarial, pois os boatos são que nós (CODAGE) quem serão os próximos despejados, mas claro sem notificação a não ser um dia antes.
    A política fala mais alto e isso é um absurdo, pois a USP deveria ser imparcial quanto aos jogos politicos , mas infelizmente não é o que ocorre……

  7. Beto disse:

    É sempre bom lembrar quem colocou esse reitor no poder a despeito da “votação” em outro candidato. Segundo pesquisas, a maior parte da USP votou no Serra na última eleição, inclusive funcionários que agora foram demitidos pelo reizinho Rodas. Só estão colhendo o que plantaram. Quando menos esperararem, a USP vai pro fundo do poço, mas aí será tarde.

  8. Bruno disse:

    Muito bem lembrado, Beto.
    Talvez a USP tenha o reitor que mereça. Casei de ouvir “rodas é o meu reitor e nada me faltará”, e por gente de todo tipo. O histórico do Rodas era péssimo, além da mediocridade, tinha um ativo de autoritarismo, só podia dar no se vê agora.
    Bruno.

  9. anolipi disse:

    O fato é que acho que esse é mais uma armação petista. Posto que, enquanto USP patina, púbblica petista nada para valer. E Hadad não criou o novo enem por acaso, mas a máximo intenção de levar os bons alunos de SP para fazer curso superior em outros estados e melhorar esses.
    ====

    07.01.2011 13:00

    : :Prêmio João Maria de Lima Paes vai para aluna da UFPA

    http://www.portal.ufpa.br/imprensa/noticia.php?cod=4374

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