Agitação no Egito: o realinhamento dos EUA

Por Samir Amim* via Passa Palavra (15.fev.2011)

Depois de terem sustentado Mubarak, os Estados Unidos podem agora voltar-se para o tradicional e influente movimento político Irmandade Muçulmana, visto como “moderado”

Este artigo foi escrito e publicado antes da demissão de Hosni Mubarak e da passagem do poder para as forças armadas, mas nem por isso ele está ultrapassado. Muito pelo contrário. Samir Amin chama a atenção para o papel que a Irmandade Muçulmana pode desempenhar no estabelecimento de um tipo de democracia que não ponha em causa os interesses capitalistas dominantes. Passa Palavra

O Egito é uma pedra fundamental no plano dos EUA de controle do planeta. Washington não tolerará qualquer tentativa do Egito de sair de sua submissão total, também exigido por Israel para prosseguir sua colonização do que resta da Palestina. Esse é o objetivo exclusivo de Washington em sua “participação” na organização de uma “transição suave”. Nesse sentido os EUA podem considerar que Hosni Mubarak deve renunciar. O recém nomeado vice-presidente, Omar Soliman, chefe da espionagem do Exército, ficaria no cargo. O Exército tomou cuidado para não se associar com a repressão, protegendo sua imagem.

Mohamed El Baradei vem a propósito. Ele ainda é mais conhecido no exterior do que no Egito, mas pode corrigir isso rapidamente. É um “liberal”, não tendo nenhuma idéia de gestão da economia que não a atual, e não consegue entender que isso é precisamente a origem da ruína social. É um democrata no sentido de querer “eleições verdadeiras” e o respeito à lei (suspender prisões e a tortura), nada mais.

Não é impossível que ele seja um sócio no processo de transição. No entanto, o Exército e os serviços secretos do país não vão abandonar a sua posição dominante no comando da sociedade. El Baradei aceitará isso?

Em caso de “êxito” e de “eleições”, a Irmandade Muçulmana se tornará a maior força parlamentar. Os EUA vêem isso com bons olhos e têm classificado a Irmandade Muçulmana como “moderada”, isto é, dócil e de acordo com a submissão à estratégia dos EUA, deixando Israel livre para continuar sua ocupação da Palestina. A Irmandade também é totalmente a favor do sistema de “mercado” existente, que é completamente dependente externamente. São de fato, também, os sócios da classe dominante “compradora” [1]. Tomaram posição contra as greves operárias e as lutas dos camponeses para manterem a propriedade de suas terras.

O plano dos EUA para o Egito é muito semelhante ao modelo paquistanês, uma combinação de “islamismo político” e espionagem militar. A Irmandade Muçulmana poderia compensar seu alinhamento a essa política não precisando ser “moderada” no seu comportamento com os cristãos coptas [2]. Tal sistema pode receber certificado de “democracia”?

A agitação é da juventude urbana, particularmente dos portadores de diplomas sem emprego, apoiada por segmentos das classes médias instruídas e democratas. O novo regime talvez possa fazer algumas concessões – aumentar o recrutamento no aparelho do Estado, por exemplo – mas dificilmente mais.

Claro que as coisas podem mudar se o movimento dos trabalhadores urbanos e rurais avançar. Mas isso não parece estar na ordem do dia. Decerto, enquanto o sistema econômico for administrado em conformidade com as regras do “jogo da globalização”, nenhum dos problemas que resultaram no movimento de protesto pode ser realmente resolvido.

Notas

[*] Samir Amin, pensador egípcio, é diretor do Fórum do Terceiro Mundo e presidente do Fórum Mundial por Alternativas.

[1] Termo proveniente de burguesia compradora, expressão difundida, a partir do termo cunhado por Mao Tsetung, para designar os setores capitalistas internos associados economicamente ao imperialismo, por oposição a setores nacionalistas das classes dominantes. [Nota do Passa Palavra]

[2] Os coptas formam a igreja cristã nacional do Egito. Copta em árabe significa exatamente egípcio. Trata-se de uma igreja oriental das mais antigas do mundo, e formam a maior comunidade cristã no Oriente Médio. Tem, no entanto, no Egito um status inferior aos muçulmanos. [Wikipedia]

Publicado em inglês em http://pambazuka.org/en/category/features/70615
Tradução: Passa Palavra

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