Resumo da ópera (ou do Minc): transformar a cultura em mercadoria

A Folha de São Paulo dedicou algumas matérias sobre política cultural, tendo em vista as mudanças propostas pela Ministra Ana de Hollanda. E pelo caminho que Hollanda vem acenando o caderno escolhido pelo jornal às reportagens foi o mais apropriado: Mercado. Pois bem, reproduzimos as matérias, sendo que a mais reveladora de todas é a entrevista de Ana Hollanda. De toda forma, pegando tudo e resumindo a coisa, temos como saldo o seguinte: Chega enfim ao Brasil o modelo de gestão da cultura que já existe no Primeiro Mundo, que foi inspirada na filosofia MIT, cuja linha central estimula altos investimentos, colocando moda, arquitetura, design, software (e não software livre!) e mercado editorial no centro da política cultural, tendo como postulado o combate à “dependência” do estado. Em todos os artigos não há um elogio, avaliação, sequer menção a nada do que foi feito nos últimos 8 anos. Se um desavisado os lê tem a impressão de que a última coisa que aconteceu nesses anos foi a Lei Rouanet. A atual gestão do Minc, com o apoio da indústria cultural e a sempre zelosa ajuda da mídia, parece querer aprofundar a transformação da cultura em mercadoria, dificultando, dessa forma, cada vez mais o acesso coletivo a bens culturais e informação. Nada mais arrepiante!

Abaixo, seguem as reportagens:

“Leis de incentivo criam dependência”

Para a ministra Ana de Hollanda, tratar a cultura como indústria vai permitir emancipar o mundo da criação. Titular da Cultura afirma que economia criativa pode preparar ambiente para que produção seja difundida

DE SÃO PAULO

Para a ministra Ana de Hollanda, tratar a cultura como indústria vai permitir emancipar o mundo da criação e livrá-lo dos “vícios” das leis de incentivo. Leia trechos de entrevista da ministra da Cultura concedida à Folha.

Folha – Por que criar uma Secretaria da Economia Criativa?
Ana de Hollanda
Essa é uma demanda do século 21. As áreas de design, arquitetura e moda representam a maior parcela da cadeia produtiva da indústria criativa e a Cultura não encampava como um assunto seu. A moda está presente em outros ministérios, mas estava fora da Cultura. E moda é cultura, é criação. Aplicada na indústria. Como o design. Estamos revendo a forma de tratar a criação artística e cultural. Existiam ações, iniciativas isoladas.

Falta uma política mais consistente…

As pessoas vivem muito de eventos, de produzir eventos pela Lei Rouanet. A lei foi criando certos vícios. Não só no mundo artístico mas também no das empresas. Temos de pensar uma política mais organizada, sistemática, para que a cadeia produtiva possa trabalhar do começo ao fim, da criação até a distribuição e a venda.

A lei fez mal para a cultura?

A lei tem suas virtudes e é boa para eventos especiais. Mas um trabalho permanente ela não permite. Os artistas vivem de elaborar “n” projetos para ver em qual edital emplacar. Uma exposição que vai durar um mês e o artista fica três em pré-produção, depois em pós-produção, fazendo aquilo render o máximo. Isso não é profissão. A economia criativa pode preparar o ambiente para que isso flua, para que a produção seja difundida.

Como a secretaria trabalhará?

Precisamos profissionalizar o mundo da criação, que é muito informal. Do artesão ao escritor, músico, ator e artista plástico, as pessoas vivem na dependência de agentes intermediários e não se profissionalizam. Vamos trabalhar com outros ministérios: Desenvolvimento, Trabalho, Justiça.

A sra. diria que a Lei Rouanet é como o Bolsa Família, e a economia criativa, uma porta de saída?

Acho radical a comparação. Há eventos grandes para os quais a lei é fundamental. Mas temos de trabalhar nesse sentido. Não será a curto prazo, mas temos de buscar caminhos para emancipar o mundo da criação.

Vai ter orçamento no ministério para apoiar também a moda, o design, o software?
Essas áreas já são mais sustentáveis, mais estruturadas. Não existe disputa de verba, vamos atrair muito mais recursos.

 

“Cultura quer foco em economia criativa”

Inspirado em Barcelona e no Reino Unido, ministério estuda gerar núcleos criativos em áreas urbanas degradadas. Arquitetura, música, cinema e design vivem boom global e geram, no país, R$ 380 bi; desafio é profissionalizar

MARIANA BARBOSA

DE SÃO PAULO

A terceira maior indústria do mundo, atrás de petróleo e de armamentos, tem como principal insumo a criatividade.

Da moda ao design, passando por cinema e literatura e incluindo a produção de software, a chamada indústria criativa movimenta mais de R$ 380 bilhões no Brasil, segundo estimativa da Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro).

O setor ganha neste ano maior relevância institucional, com a criação, no Ministério da Cultura, da Secretaria da Economia Criativa. O conceito vem dos anos 90: indústrias criativas são aquelas com potencial de geração de riqueza e emprego por meio da utilização de propriedade intelectual.
Do conceito surgiram experiências de cidades ou núcleos criativos, como forma de transformação de áreas degradadas e de desenvolvimento sustentável. Caso de Glasgow, que uniu todas as disciplinas em uma só escola no meio de uma área degradada e violenta. Por meio do envolvimento dos alunos -designers, estilistas e artistas- com a comunidade, a área foi recuperada.

A criação de núcleos e redes de cidades criativas é uma das prioridades da nova pasta, revelou à Folha a secretária de Economia Criativa, Cláudia Leitão. Ela diz que quer se aproximar do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), órgão do próprio Ministério da Cultura, para estimular a geração de núcleos criativos.

“Temos que promover uma ocupação de prédios históricos que seja inclusiva e que gere riqueza”, diz Leitão, ex-secretária de Cultura do Ceará e professora da Universidade Federal do Ceará.

“Temos muito o que aprender com as experiências de fora, da Austrália, de Barcelona.”

CONTRAEXEMPLO
Já o exemplo do que não fazer vem de Salvador. “A reforma do Pelourinho tinha enganos graves. Foi feita a partir de uma visão do turismo, de exclusão. Temos de incluir a população local.”

Outro exemplo de patrimônio com potencial de se transformar em cidade criativa é o centro de São Luís.

“O Maranhão precisa tornar a diversidade um ativo para a sua economia. Precisa ir muito além do título de Patrimônio da Humanidade.”

Interessada no tema desde o início dos anos 2000, Leitão foi para Brisbane, na Austrália, estudar com os grandes pensadores da área.

“Esse é um conceito novo, que precisa ser compreendido pela sociedade”, diz Leitão. “Você tem ainda uma visão negativa, que nasce com a Escola de Frankfurt, com uma visão apocalíptica da indústria cultural.”

Segundo ela, o Brasil precisa empreender mais na área e exportar a diversidade cultural, do mamulengo ao software e à arquitetura.

“A criatividade é um insumo que não acaba e a economia criativa pode ser uma grande estratégia de desenvolvimento com distribuição de renda.”

ATRASO
O tema chega ao Brasil com atraso de 17 anos. Em 1994, a Austrália foi o primeiro país a apontar a necessidade de desenhar políticas públicas para estimular a economia movida a cultura e criatividade.

Mas o termo indústria criativa só ganhou visibilidade internacional em 1997, quando o governo britânico do trabalhista Tony Blair criou a Força-Tarefa das Indústrias Criativas.

“O QUE É ECONOMIA CRIATIVA”

DEFINIÇÃO
A indústria criativa tem como principal insumo a criatividade

SETORES
Arquitetura, moda, design, software, mercado editorial, televisão, filme e vídeo, artes visuais, música, publicidade, expressões culturais e artes cênicas

MOVIMENTAÇÃO
Incluindo atividades relacionadas e de apoio, movimenta R$ 381,3 bi no Brasil (16,4% do PIB) e gera 7,6 mi de empregos formais

EMPREGOS DIRETOS

O núcleo da indústria emprega 638 mil trabalhadores e movimenta 2,6% do PIB

“ANÁLISE”

Economia criativa deve ser vista como política de desenvolvimento

ADRIANA DIAS

ESPECIAL PARA A FOLHA

Há dez anos venho trabalhando incansavelmente no desafio de mostrar aos grupos educacionais de peso e tradição deste país que economia criativa é algo sério.

Em 1861, a educação superior era baseada no modelo clássico de universidade, em que se aprendiam latim, grego e um pouco de ciência. A ideia revolucionária de Wil- liam Barton Rogers, fundador do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), foi pensar que ciência e artes práticas, como a engenharia, deviam dialogar e tinham muito a dizer uma à outra.
Resultando na filosofia do MIT: “Mens et manus” -em latim, “mente e mãos”.

Ou seja, teoria e prática, juntas.

Precisamos transformar a geração que está por vir em empreendedores criativos e capazes de atuar em diversas indústrias. Para isso, é preciso minimizar barreiras entre a educação e o mercado, entre a teoria e a prática.
Sim, será preciso agregar o apoio de entidades públicas e privadas, mas todos só têm a ganhar com isso: parcerias com as indústrias poderão trazer dinheiro para escolas e universidades que, em contrapartida, deverão alimentar o mercado com profissionais mais capacitados.

O MIT está aí para lembrar que nada disso é novo. É possível ver a ciência, a tecnologia e a engenharia por prismas mais criativos. Só a educação pode incutir responsabilidade e ética em um povo.

Nosso desafio é bem maior do que o de defender ou descrever o que é economia criativa. Precisamos estar atentos e preparados para usufruir nos próximos anos da atenção que está voltada ao Brasil e ser capazes de fazer negócios com o mercado internacional, seja recebendo-os aqui, seja indo até eles. Nada contra adjetivos e frases de efeito, mas ser criativo hoje é ser substantivo. É nesse contexto que o Brasil tem a chance de ensinar ao mundo, não o contrário.

Nós, brasileiros, somos competentes em lidar com incertezas e temos combinação maravilhosa de emoção e paixão com trabalho duro, disciplinado e racional. Economia criativa não deve ser entendida como política cultural, mas de desenvolvimento. Qual o sonho brasileiro? Vamos descobrir juntos. A validação do governo ao tema é apenas o começo.

 


ADRIANA DIAS é coordenadora dos cursos de gestão do entretenimento da FGV-RJ.

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