Carta Capital: Feliz Oriente Novo

Com duas ditaduras a menos, o mundo árabe começa a mudar de feição. Até que ponto?

Por Antonio Luiz M. C. Costa – da revista Carta Capital (edição 634)

Com Hosni Mubarak, o Egito tinha uma ditadura de fato sob as aparências de um Estado de Direito, com presidente eleito (em eleições fraudadas), Parlamento (monopolizado pelo governista Partido Nacional Democrático) e Constituição (ditada por Anuar Saddat e Mubarak). Agora, tem uma democracia em gestação sob as aparências de uma ditadura militar que, pressionada pelo povo nas ruas, expulsou o presidente, dissolveu o Parlamento e suspendeu a Constituição. Ou seria essa uma descrição excessivamente otimista dos fatos?

As primeiras fissuras já apareceram no movimento. É muito mais fácil unir movimentos políticos e sociais em torno de um “não” ao status quo do que em torno do “sim” a qualquer projeto alternativo. O enfrentamento entre as forças que concorrem por dar um sentido ao “não” costuma ser mais longo e amargo do que a inicial, e está apenas começando.

 

Por que a luta da Praça Tahrir foi vitoriosa quando as da Praça Tiananmen (Pequim, 1989) e da Praça Enghelab (Teerã, 2009) deram em nada? Segundo o sociólogo Michael Schwarcz, porque conseguiu de fato parar o Egito. Travou de imediato o turismo, vital para o país, e espalhou-se para todas a principais cidades, onde instituições públicas, a começar pela polícia, foram sitiadas, queimadas ou ocupadas. Nos últimos dias do regime, trabalhadores das indústrias e serviços – inclusive o vital Canal de Suez – também começaram a parar, o que parece ter sido o golpe de misericórdia no velho ditador.

Ao que tudo indica, foi do setor civil do regime – forças policiais, filiados do PND e, principalmente, banqueiros e empresários nas boas graças de Mubarak – que partiu a resistência mais desesperada à revolução. O inesperado e inútil “digo ao povo que fico” da noite da quinta-feira 10, quando já dera a entender à Casa Branca, aos militares e ao partido do governo que renunciaria, parece ser resultado dos esperneios do filho mais novo, Gamal.

Desde 2000, Gamal era o herdeiro e principal conselheiro do pai, além de representar o setor mais agressivo, globalizado e financeirizado do empresariado egípcio. Banqueiro de investimentos, que trabalhou no Bank of America e criou um fundo de investimentos em Londres, escolheu entre seus protegidos o ministério que administrava o país deste 2004, a começar pelo primeiro-ministro Ahmed Nazif, cuja política neoliberal foi responsável por grande parte da deterioração da imagem do regime nesses anos. Tanto que Hosni, ao ver as manifestações explodirem, o trocou, tarde demais, por um “gabinete da guerra” liderado pelo marechal do ar Ahmed Shafik.

 

Gamal e seu círculo, incluindo o magnata do aço e líder do PND Ahmed Ezz, tinham muito a perder com o fim do regime. Mas, para a grande maioria dos empresários menos comprometidos, continuar o impasse seria desastroso e um massacre, mais ainda. Mesmo que o Exército quisesse jogar fora o seu prestígio, serio o fim do turismo e de muitas outras atividades, por muito tempo.

Logo após o pronunciamento de Mubarak na tevê, o comandante das Forças Armadas, marechal Mohamed Hussein Tantawi – que, segundo mensagens vazadas pelo WikiLeadks, desaprovava as reforma neoliberais –, conversou com ele por duas ou três horas e o forçou a ceder. No fim da tarde do dia seguinte, o vice Omar Suleiman leu na têve a nota na qual Mubarak renunciava e entregava o poder ao comando  militar liderado por Tantawi. O único papel de Suleiman foi o de menino de recados, apesar de a revista Veja ter informado, erradamente, que os militares o tinham posto na Presidência – e escrito que “a liberdade do Egito agora depende de um campeão da violência”, após descrever admirativamente como ele comandou a tortura de supostos terroristas e matou um deles com as próprias mãos.

Ao deixá-lo de lado, os militares mostraram mais bom senso que a Veja – pôr o torturador-em-chefe na Presidência seria acirrar a fúria das massas –, mas isso não significa necessariamente adesão sincera à democracia. No domingo, terminado o carnaval da vitória (o fim de semana no Egito, com em muitos países muçulmanos é sexta e sábado), a primeira providência foi despejar os últimos manifestantes que insistiam em ocupar a Praça Tahrir até todas as suas exigências serem satisfeitas, inclusive o fim do estado de emergência, a libertação dos presos políticos, um cronograma eleitoral e a demissão do governo Shafik. Talvez mais importante, proibiram greves e manifestações sindicais, sem serem , até agora, atendidos. Além de reivindicações políticas, os sindicatos querem um salário mínimo de 1.200 libras (205 dólares).

 

A “Coalizão 25 de Janeiro”, formada por jovens que lideraram as primeiras manifestações, protestou em nota publicada nos jornais, mas a Fraternidade Muçulmana e os principais partidos da oposição laica fizeram silêncio. Wael Ghonim, executivo da Google e garoto-propaganda da revolução ligado a Mohamed El-Baradei, manteve o apoio aos militares. Tratam de fazer o papel de parceiros confiáveis na transição, do ponto de vista da junta militar, do empresariado e, em boa medida, do Ocidente.

Até certo ponto. El Baradei, líder da Frente Nacional da Mudança ou Kefaya (“Basta!”), disse que Tel-Aviv “fez um tratado com Muburak, não com o povo egípcio”. Ayman Nour, líder do partido liberal centrista El-Ghad (“Amanhã”), integrante da frente, prometeu rever o tratado de paz com Israel ao ser tornar o primeiro candidato explícito à Presidência. O partido Tagammu ou Nacional-Progressista (socialista e tido como o maior da oposição laica) é crítico das relações com Washigton e Tel-Aviv e as reservas da Fraternidade Muçulmana às relações com o Estado judeu são bem conhecidas.

Os militares mostram respeito, talvez preferência, pelos islamitas. Ao assumirem o poder, deixaram o presidente da Suprema Corte, Farouk Sultan, na chefia interina (e nominal) do Estado, conforme propôs a Fraternidade, em vez do presidente do Parlamento, Fathi Sorour (sucessor constitucional, mas demasiado comprometido com o PND e Mubarak), ou de El-Baradei, o interino preferido da oposição laica.

A junta também nomeou oito juristas para redigirem uma reforma constitucional, a ser apresentada em dez dias e aprovada em referendo em dois meses, para ditar as regras da eleição a ser celebrada em seis meses. E o chefe da comissão, Tareq el-Bishri, é um islamita moderado, assessor do movimento Kefaya, mas bem visto pela Fraternidade. Há um juiz copta, Maher Youssef, e os outros cinco são juízes e professores sem filiação política conhecida. O próprio cronograma acelerado favorece grupos enraizados em relação a El-Baradei, que viveu as últimas décadas na Europa.

A Fraternidade não pretende lançar um candidato próprio à Presidência ou espera controlar a maioria do Parlamento, mas seu apoio a um líder laico pode ser decisivo. Sua força vem de redes de assistência social, da difusão por países muçulmanos, da presença de militantes leigos em várias camadas sociais e do papel de referência para os destituídos por décadas nas quais não existiu oposição parlamentar laica. É possível um governo islâmico moderado vigiado por militares, a exemplo da Turquia.

Uma guerra é improvável, mas o esfriamento das relações com Israel é quase certo. Na impossibilidade de dar resposta rápida aos problemas mais concretos do povo revoltado – pobreza, desemprego, salários baixos, alta dos preços dos alimentos –, qualquer governo se sentirá tentado a compensar isso com satisfações simbólicas, tais como uma política externa que ao menos pareça mais independente, altiva e solidária para com o mundo árabe.

 

O único líder civil a prometer manter os laços com Israel é Amr Moussa, que foi chanceler de Mubarak nos anos 90 e dês 2001 representante do Egito e secretário-geral da Liga Árabe, cargo que deve deixar nos próximos dias. Mesmo ele contrariou Tel-Aviv, pressionando na ONU pelo fim do bloqueio a Gaza e visitando a faixa controlada pelo Hamas, mas é o mais próximo de um “candidato da continuidade” com chaces e foi apontado pelo jornalista Seymour Hersh como o “plano B” dos EUA. Terá chances em uma eleição livre, na qual suas ligações com o antigo regime serão abertamente debatidas?

Moussa também disse que os demais governos árabes nada têm a temer da revolução egípcia, mas essa promessa é vazia. A queda de Mubarak encorajou a oposição a outros regimes autoritários na região.

Em 12 de janeiro, 3 mil argelinos saíram às ruas e 30 mil policiais foram mobilizados para contê-lo, enquanto o governo prometia suspender a lei de emergência e tomar outras medidas de abertura. Mesmo assim, manifestações maiores continuaram a ser convocadas para 19 de fevereiro.

Nos dia seguintes, viram-se milhares continuarem a enfrentar a polícia na capital e em várias cidades do Iêmen, em um movimento de crescimento mais lento que o do Egito, mas muito firme. Idem na Jordânia, onde a substituição do gabinete interino, enquanto migrantes na miséria aproveitam a brecha na ordem para chegar à Itália em pequenas embarcações. No Iraque, onde milhares saíram às ruas de Kut e no Curdistão e houve cinco mortos. Na Líbia, centenas fizeram protestos contra Muammar Kaddafi em Bengazi e Al-Bayda, onde a repressão fez mais 14 mortos. No Sudão, mulheres saíram às ruas pedindo a libertação de filhos e maridos presos.

A Autoridade Palestina pôs as barbas de molho: dissolveu o ministério, destituiu o negociador Saeb Erakat (desmoralizado pelo vazamento das concessões a Israel pela Al-Jazira) e prometeu eleições até setembro – de legitimidade problemática, uma vez que o Hamas, que controla Gaza, se recusa a participar. Até Israel reverteu medidas de austeridade, portando-se mais como país árabe do que como europeu.

 

No Irã, o governo festejou a queda de Mubarak – que coincidiu em 11 de fevereiro com o 32º aniversário da revolução de Khomeini – e a considerou uma vitória, mas na segunda 14, alguns milhares de militantes da oposição saíram às ruas igualando a revolução egípcia aos protestos oposicionistas iniciados em 2009, enfrentando uma repressão que deixou dois mortos. Nesse caso, as manifestações ainda não parecem ameaçar seriamente o regime, que ainda mostra capacidade de mobilização social.

Não houve nada digno de nota na Arábia Saudita, apesar da preocupação do Ocidente e do próprio rei Abdullah, que para manter Mubarak chegou a oferecer ao Egito substituir a ajuda de 1,5 bilhão de dólares anuais que Obama ameaçou suspender se os militares não o fizessem ceder. Na Síria, apesar da torcida ocidental em sentido oposto, também não se vê maior mobilização. No Marrocos, as manifestações restringiram-se à internet.

Proporcionalmente impressionante é, porém, o movimento no Bahrein. A morte de dois dos primeiros manifestantes mobilizou dezenas de milhares a ocupar a praça principal da capital em um país com área e população comparáveis às da ilha de São Luís, mas de importância estratégica, visto ser a principal base naval dos EUA no Golfo Pérsico e importante centro financeiro. As forças de repressão atacaram brutalmente os manifestantes na madrugada, deixando seis mortos e centenas de feridos. Os protestos partem dos xiitas, marginalizados desde o século XVIII, apesar de somarem 70% da população, e sua vitória traria provavelmente o fim da monarquia sunita e um governo mais simpático ao Irã.

 

É cedo para avaliar o alcance dessas revoluções, mas é certo que a vontade dos povos da região não mais poderá ser de todo ignorada e submetida a líderes autoritários. Uma nova ordem vai ser articular na região, com consequencias para todo o mundo.

Pode-se esperar o crescimento da influência de Ancara  e Teerã (ao menos enquanto a teocracia não for abalada) e um maior isolamento de Israel. Sem o respaldo do Egito e com instabilidade em vários países árabes, dificilmente haverá clima para um ataque ao Irã que, para testar sua nova liberdade de movimentos, enviou navios de sua Marinha ao Mar Vermelho e à Síria, No Mediterrâneo, esperando passar por Suez.

A médio prazo, o pan-arabismo sonhado por Nasser pode ressuscitar mais sólido e eficaz, criando associações fundadas em instituições democráticas e não no carisma de líderes passageiros. No plano militar, a região tende a se afastar da órbita da Otan – à qual são formalmente coordenados, atualmente, Egito, Jordânia, Argélia, Tunísia, Marrocos e Mauritânia, além de Israel -, e no econômico, da tutela do FMI, Banco Mundial, EUA e União Europeia, talvez seguindo modelos comparáveis aos da esquerda sul-americana (provavelmente com maior influência religiosa). O mundo árabe será mais um bloco relativamente autônomo em um mundo cada vez mais multilateral.

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