A pornografia da guerra quer voltar à Líbia

Pepe EscobarAsia Times Online

War porn is back in Libya (Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu)

Esqueçam de “democracia”. A Líbia, diferente do Egito e da Tunísia, é potência do petróleo. Inúmeros escritórios estofados das elites dos EUA e Europa estão babando ante a perspectiva de tirar vantagens de uma pequena janela de oportunidades aberta pela revolução anti-Muammar Gaddafi, para estabelecer – ou expandir – uma cabeça de praia. Claro, há todo aquele petróleo. Há também a isca, ali perto, do gasoduto trans-sahariano, de Nigéria à Argélia, US$10 bilhões e 4.128 quilômetros, que se espera que comece a operar em 2015.

E assim o mundo, mais uma vez, tem encontro marcado com a pornografia da guerra, a história como farsa, versão piorada de “choque e horror”. Todos – a ONU, os EUA, a OTAN – armam-se para fechar o espaço aéreo da Líbia [orig. a no-fly zone]. Forças especiais estão a caminho. E os navios de guerra dos EUA.

Sem fôlego, senadores dos EUA comparam Líbia e Iugoslávia. Tony “A Volta do Morto Vivo” Blair está de volta, ele e seu zelo missionário, o personagem representado agora pelo primeiro-ministro britânico David Cameron, do qual, competentemente, o filho de Gaddafi, o “modernizador” Saif al-Islam, já riu. Há medo de “armas químicas”. Bem-vindo, de volta à cena, o imperialismo humanitário – que fumou crack.

E como personagem diretamente saído de “Noite do Terror”, até o arquiteto da guerra do Iraque Paul Wolfowitz quer a tal no-fly zone implantada pela OTAN, como a Foreign Policy Initiative – filha do Project for the New American Century – publica em carta aberta [1] para o presidente Barack Obama, exigindo que os coturnos militares convertam a Líbia em protetorado governado pela OTAN em nome da “comunidade internacional”.

A simples evidência de que esse pessoal esteja apoiando os manifestantes líbios já faz feder a coisa toda, fedor – além do arco-íris – que clama aos céus. Muito mais confiável seria mandar Sua Espantidade Charlie Sheen para degolar Gaddafi[2].

Coube ao ministro das relações exteriores da Rússia Sergei Lavrov introduzir um grão de sanidade na discussão, ao classificar como “supérfluo” o fechamento do espaço aéreo líbio. Na prática, é um veto russo ao Conselho de Segurança da ONU. Antes, a China já mudara de assunto.

No mesmo estilo Sheen-histérico – com a secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton oferecendo, desesperada, “qualquer tipo de ajuda” – políticos ocidentais nem se dão o trabalho de consultar as pessoas que arriscam a vida para derrubar Gaddafi.

Numa conferência de imprensa em Benghazi, o porta-voz de um novíssimo, recém-criado Conselho Nacional Líbio de Transição [orig. Lybian National Transitional Council], o advogado e militante de direitos humanos Abdel-Hafidh falou claro: “Somos contra qualquer intervenção estrangeira, militar ou outra, em assuntos internos da Líbia. Essa revolução será levada adiante por quem a iniciou: o povo líbio”.

O povo supracitado, aliás, está protegendo a indústria do petróleo líbia e continua carregando os superpetroleiros destinados à Europa e à China. O mesmo supracitado povo nada tem a ver com oportunistas como Mustafa Abdel-Jalil, Ministro da Justiça de Gaddafi, que quer um governo provisório para organizar eleições que aconteceriam dentro de três meses. O mesmo povo, além do mais, como al-Jazeera noticiou, já disse que não quer intervenção estrangeira dentro de uma semana.

O conselho de Benghazi prefere apresentar-se como “uma cara política para a revolução”, organizando os assuntos civis, sem se estabelecer como governo provisório. Simultaneamente, um comitê de militares que desertaram do exército de Gaddafi, tenta construir um esqueleto de exército, a ser mandado para Trípoli. Usando os recursos dos contatos tribais, parece que já conseguiram infiltrar pequenos grupos de combatentes nos bairros à volta de Trípoli.

Se essa liderança revolucionária autodesignada – membros dissidentes da velha elite, as tribos e o exército – será a nova face do regime, ou se serão superados por ativistas mais jovens, mais radicais, ainda não se sabe.

 

Um tsunami de hipocrisia

Mas nada disso acalmou a narrativa histérica ocidental, segundo a qual só há duas vias para a Líbia: ou vira estado falido, ou vira próximo paraíso seguro para a al-Qaeda. Que ironia! Em 2008, Washington descartou a Líbia, acusada de ser “estado bandido” e “eixo do mal”, o mesmo eixo que, na versão original, incluía o Iraque, o Irã e a Coreia do Norte.

Como Wesley Clark, ex-líder supremo da OTAN, confirmou há anos, a Líbia estava na lista oficial dos neoconservadores/Pentágono, para ser invadida depois do Iraque, ao lado de Somália, Sudão, Líbano, Síria e o Irã, o santo graal. Mas, depois que Gaddafi tornou-se parceiro oficial da “guerra ao terror”, a Líbia imediatamente recebeu, do governo George W Bush, o selo de garantia de civilização.

Agora que o Conselho de Segurança da ONU decidiu por unanimidade denunciar o governo Gaddafi à Corte Internacional Criminal [orig. International Criminal Court (ICC)], é bom lembrar que a ICC foi criada em meados de 1998 por 148 países que se reuniram em Roma. A votação final foi 120 a sete. Os sete que votaram contra a criação da Corte Internacional Criminal foram China, Iraque, Israel, Qatar e Iêmen, além de Líbia e… EUA.

A lembrar, ainda, que Israel matou mais civis palestinos nas duas semanas da passagem de ano 2008-2009, do que Gaddafi nessas últimas duas semanas.

Esse tsunami de hipocrisia levanta inevitavelmente uma questão: o que, de fato, o ocidente sabe sobre o mundo árabe? Recentemente, o comitê executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) elogiou determinado país africano por sua “ambiciosa agenda de reformas” e seu “forte desempenho macroeconômico e o progresso na promoção do papel do setor privado”. Que país? A Líbia. O Fundo Monetário Internacional só esqueceu de conversar com os principais atores: o povo da Líbia.

E o que fazer de Anthony Giddens – guru por trás da “Terceira Via” de Blair –, que, em março de 2007, assinou artigo no The Guardian, em que se lia que “a Líbia não é especialmente repressiva” e “Gaddafi parece genuinamente popular”? Giddens apostou que a Líbia “em duas ou três décadas, será uma Noruega do norte da África: próspero, igualitário e progressista”. É possível que Trípoli esteja a caminho de virar Oslo – mas sem o clã Gaddafi.

Os EUA, a Grã-Bretanha e a França, estão tão descaradamente manobrando para obter os melhores lugares para o período pós-Gaddafi, que é quase cômico assistir. Pequim, mesmo contra a vontade, espera a prorrogação para condenar Gaddafi na ONU, mas já esclareceu que segue a liderança de países africanos e asiáticos (movimento esperto, do tipo “ouvimos as vozes do sul”). Pequim está extremamente preocupada com o risco de que se deteriorem suas complexas relações econômicas com a Líbia que lhe fornece petróleo (em plena agitação sobre expatriados, a China evacuou silenciosamente nada menos que 30 mil cidadãos chineses que trabalhavam na indústria civil e da construção).

Mais uma vez, é o petróleo, estúpido. Fator estratégico crucial para Washington é que a Líbia pós-Gaddafi pode vir a representar a bonança para as Grandes do Petróleo dos EUA – as quais, até agora, têm-se mantido afastadas da Líbia. Dessa perspectiva, a Líbia pode ser considerada mais um campo de batalha entre os EUA e a China. Mas enquanto a China quer energia e trocas comerciais na África, os EUA apostam no avanço de suas forças do AFRICOM e da OTAN, para ampliar a “cooperação militar” com a União Africana.

O movimento anti-Gaddafi deve manter-se em estado de alerta máximo. Parece justo dizer que a absoluta maioria dos líbios estão usando todos seus recursos, toda a invenção, a criatividade, dispostos a qualquer sacrifício para construir um país unido, democrático e transparente. E que farão o que querem fazer, eles mesmos, por seus meios. Talvez aceitem ajuda realmente humanitária. Quanto à pornografia da guerra, joguem na lata do lixo da história.


Notas de tradução

[1] Em Foreign Policy Experts Urge President to Take Action to Halt Violence in Libya (em inglês).

[2] Para entender essa referência, ver “Charlie Sheen mostra tatuagem inspirada em Apocalypse Now”, em e, também, com o mesmo ator, mais uma notícia, classificada em “Diversão”, no portal Terra, de hoje, em Charlie Sheen chama empresário de judeu porco e estúpido. Charlie Sheen é ator do seriado cômico-pirado “Two and a half men”, exibido no Brasil, com sucesso, pela televisão paga.

 

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