Escândalo de cola eletrônica estremece grandes universidades no Japão

Martin FacklerNew York Times (Traduzido e publicado originalmente em português no UOL)

Primeiro, as mensagens postadas num site popular pareceram inofensivas na semana passada: um usuário solicitava ajuda para responder a uma série de questões difíceis de matemática e inglês.

Mas depois ficou claro que as perguntas haviam sido tiradas diretamente de uma prova de admissão da prestigiada Universidade de Kyoto. E elas estavam sendo postadas – e respondidas por outros usuários – enquanto a prova ainda acontecia.

Na terça-feira, a polícia começou uma caçada por um usuário, ou talvez mais, que acredita-se tenha usado um único apelido online, “aicezuki” para colar nos exames da Universidade de Kyoto e três outras grandes universidades japonesas. As escolas dizem suspeitar que os estudantes usaram telefones celulares para postar as perguntas no site e receber as respostas enquanto as provas estavam em andamento.

Embora não esteja claro se mais de uma pessoa está envolvida, o episódio se tornou um escândalo nacional, levantando questões sobre o monitoramento dos exaustivos exames, que são o principal caminho para o sucesso no Japão, numa era de smart phones e acesso instantâneo à internet.

Isso também irritou o país que tem orgulho de ser igualitário e dificuldades para lidar suas crescentes desigualdades econômicas e sociais. Muitos aqui se perguntam se a admissão às principais universidades – que equivale a um ingresso para um alto emprego corporativo ou governamental – continua sendo baseada em mérito, como costumava ser, ou se alguns jovens estão sendo ajudados injustamente, nesse caso pelo uso indevido de novas tecnologias.

“Essa é uma atitude maldosa que prejudica a justiça, que deveria ser a base do sistema de entrada na universidade”, disse o maior jornal diário japonês, o Yomiuri Shimbun, num editorial na segunda-feira.

Afetado pela indignação popular, o Ministério da Educação disse que poderá banir os telefones celulares e outros aparelhos de comunicação nos locais dos exames. A Coreia do Sul, que tem provas de admissão semelhantes, implementou essa proibição depois de um escândalo em 2004 que também envolveu telefones celulares. Durante o atual escândalo, a  emissora nacional do Japão, a NHK, mostrou repetidas vezes cenas de estudantes coreanos sendo examinados por detectores de metal antes de fazer as provas.

O ministro da Educação do Japão, Yoshiaki Takaki, disse que devem ser tomadas medidas imediatas para assegurar a justiça nos exames, que são realizados todos os anos no final do inverno e início da primavera.

“Isso é imperdoável”, disse Takaki aos repórteres.

Uma das quatro escolas do Japão, a Universidade Waseda em Tóquio, disse que vai comparar as respostas postadas no site com os exames completados por 9.935 candidatos, para ver se combinam. Ela também pode perguntar a 462 professores e estudantes formados que monitoraram os exames para saber se perceberam qualquer atividade suspeita.

As provas, que costumam durar um ou dois dias, costumam ser realizadas em salas grandes onde centenas de candidatos escrevem em silêncio.

“A igualdade e justiça de nossos exames são a base de nossa instituição”, disse Zenta Uchida, um porta-voz da Waseda.

As quatro universidades, que também incluem a Universidade de Doshisha em Kyoto e a Universidade Rikkyo em Tóquio, pediram ajuda à polícia e prometeram tomar medidas para evitar a cola eletrônica. Toshiyuki Awaji, vice-presidente da Universidade de Kyoto, disse numa declaração que qualquer pessoa que tenha colado será impedida de entrar na
universidade.

A suspeita de cola aconteceu durante os exames de admissão deste ano. As universidades disseram acreditar que pelo menos um candidato tenha usado o telefone celular para digitar as questões da prova e postá-las no site ou para tirar fotos, que teriam sido publicadas com a ajuda de um cúmplice fora da universidade.

As questões foram postadas num site administrado pelo Yahoo Japão chamado Chiebukuro, ou “Pérolas de Sabedoria”, no qual os usuários podem fazer perguntas uns aos outros. O Yahoo Japão, que é uma companhia separada do provedor de internet norte-americano, disse que vai cooperar com as autoridades.

No caso da Universidade de Kyoto, um usuário postou seis perguntas de matemática na sexta-feira e duas de inglês no sábado, todas do exame de admissão da universidade, que dura dois dias, disse a instituição. Ela afirmou que uma das mensagens só pode ter sido escrita por alguém que estivesse fisicamente presente no exame, uma vez que envolvia uma questão corrigida que foi escrita numa lousa.

Usuários do site do Yahoo postaram respostas para algumas das perguntas dentro de poucos minutos, a tempo de serem usadas na prova. As universidades disseram que não ficou claro se os usuários que responderam às perguntas sabiam que elas eram da prova de admissão. As mensagens do site não indicavam qual era sua origem.

Embora colar não seja crime, a polícia diz que vai investigar se os envolvidos violaram as leis que proíbem obstruir as operações de instituições como escolas.

Makiko Inoue e Yasuko Kamiizumi contribuíram com a reportagem

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