Programa da Unicamp para alunos de públicas finge ser inclusivo

Aém de beneficiar só estudantes de Campinas, iniciativa exige que alunos frequentem 2 anos de aulas que não são necessárias

Mateus Prado – iG / Educação

A Unicamp recepcionou, há poucos dias, os alunos classificados no Programa de Formação Interdisciplinar Superior (ProFIS). Segundo a Universidade, o programa garantirá a inclusão de alunos carentes na universidade. A intenção pode até parecer boa. Chegou a enganar Suplicy, que, apesar de ter passado boa parte da vida defendendo a renda mínima como política universal, elogiou o programa no Senado, como se fosse natural que a Unicamp só atendesse estudantes da cidade de Campinas.

Pelo programa, a Unicamp vai selecionar, todo ano, provavelmente usando a nota do Enem, 120 alunos oriundos de escolas públicas de ensino médio da cidade de Campinas. O município tem 96 escolas públicas dessa etapa escolar, e cada uma delas terá, ao menos, uma vaga garantida. Quem for aprovado passará dois anos na instituição em uma espécie de curso “pré-universidade” e depois terá uma vaga garantida em algum curso da Unicamp. Só que o curso dependerá das notas que esses alunos terão nas matérias estudadas nesse período.

A “mirabolante” experiência que a universidade propõe, além de fingir ser inclusiva, tenta parecer com o modelo de universidade norte-americana. Não é. Nos EUA, os alunos decidem qual profissão seguir em uma idade um pouco mais avançada que a dos nossos, e iniciam o ensino superior em cursos generalistas. Isso é até bom. No caso da Unicamp, está claro que o discurso está descolado da prática, porque as matérias a serem ministradas para esses alunos não foram pensadas a partir de necessidades pedagógicas ou programáticas. Foram escolhidas simplesmente pela disponibilidade de professores e/ou cursos que já existem na universidade.

Não tenho dúvida que o programa, apesar de ter em si uma série de equívocos, poderá acrescentar algo na vida de quem for selecionado. Apesar disso, incomoda muito a idéia de que só os estudantes de Campinas possam participar de algo que é feito com dinheiro público.

Por que um aluno que nasceu na cidade de Borá, também no estado de São Paulo, que tem menos de mil habitantes, não pode participar? Se ficarmos só no estado de São Paulo, são 644 cidades deixadas de lado em beneficio de Campinas.

Tivessem as públicas paulistas verdadeiramente interessadas em incluir, poderíamos levar ao limite a “mirabolante” proposta. USP, Unicamp e Unesp oferecem, anualmente, um pouco mais de 21 mil vagas. No estado de São Paulo, existem quase 4 mil escolas públicas de ensino médio. Imaginem, por exemplo, que cerca de 5 mil vagas fossem reservadas só para os primeiros colocados nestas escolas (claro, sem prejuízo para os alunos de ensino médio público que passassem no vestibular convencional). Exagero a proposta para que não aceitemos a justificativa da Unicamp de que essa é uma experiência piloto, e que depois será universalizada. Aliás, a Unicamp, sozinha, com suas 3.544 vagas, não conseguiria nem atender um aluno de cada escola pública de São Paulo.

O curso de dois anos oferecido aos alunos é pura besteira e só serve para reforçar a idéia de que só quem acerta as questões de seus vestibulares possui mérito para seguir em seu ensino superior. Quem não acerta, mesmo que esteja entre os melhores alunos de suas escolas, é obrigado a passar pelo limbo criado pela universidade. Todas pesquisas indicam que alunos que vieram de escolas públicas conseguem rendimento proporcional melhor, no ensino superior público, que os oriundos de particulares.

Mesmo que as públicas paulistas não quisessem tirar estas cinco mil vagas, que poderiam ser distribuídas para alunos oriundos do ensino médio público, daqueles que elas querem que sejam os aprovados e para quem elas fazem os vestibulares, teríamos como resolver o problema.

Para quem não sabe, as universidades públicas de São Paulo recebem, religiosamente, 9,57% do que o estado arrecada de ICMS. Só no período entre 2007 e 2010, o ICMS paulista teve crescimento real de 23%, e este ano deve ter de mais de 5%. Nesses cinco anos, o orçamento de cada universidade pública paulista aumentou mais de 30%. Tivessem as vagas seguido o mesmo ritmo, no ano que vem teríamos ao menos 6 mil novas vagas nas universidades paulistas. Aí sim, quem sabe, elas pensassem em inclusão, e não em programas paliativos que criam a impressão de que, quem se dedicar muito, apesar de estar no ensino médio público, certamente conquistará uma vaga nos bancos dessas universidades.

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