Da Terceira Via ao beco sem saída

Anthony Giddens e a London School of Economics se enrolam no apoio à família Kaddafi

da revista Carta Capital

London School os Economics (LSE) continua a investigar o suposto plágio da tese de doutorado, aprovada em 2008, de Saif al-Islam, filho do coronel Muammar Kaddafi. Um processo que deveria ser célere graças às novas tecnologias. Mas a LSE está – como o coronel da dunas – em busca de uma estratégia de saída. Ou de morte digna, visto que Saif, outrora tido pelos seus mentores londrinos como um “reformista”, fala em lutar “até a última bala”.

Enquanto isso, cada bombardeio daqueles que ousam se rebelar contra o regime dos Kaddafi parece ecoar na reputada universidade. Estudantes da LSE manifestam-se pela devolução à Fundação Kaddafi de generosa doação de 1,5 milhão de libras. Na sua carta de demissão, o reitor Howard Davies, ex-vice-governador do Banco da Inglaterra, concede o “embaraço” provocado pelos elos da LSE com a fundação. Mas insiste nas “boas relações” do projeto para apoiar a sociedade civil no Norte da África.

Outro integrante do conselho na LSE neste programa de “democratização” do Norte africano responde por David Held. Ex-mentor acadêmico de Saif, Held acreditava no projeto porque seu aluno parecia ser adepto dos “valores liberais”. Essa percepção foi estilhaçada pelo recente discurso de Saif para a mídia internacional. O filho do rei das dunas se disse pronto a lutar até a última “bala”. Heid ficou “chocado”.

Longe dos arquivos de bibliotecas, e em sintonia com os humores em remotas ruas de vilarejos líbios, Mark Allen, outro a sentar no conselho da LSE no projeto com a fundação Kaddafi, certamente não ficou surpreso com o discurso de Saif. Ex-expião do MI6 no Oriente Médio, Allen teria sido figura chave pelas boas relações do ex-premier Tony Blair com o coronel. Em 2004, Allen encerrou a carreira de espião e foi trabalhar, como aval de Blair, na British Petroleum. A gigante do petróleo, é claro, tem interesses na Líbia.

Allen teria sido fundamental na libertação de Abdelbaset Ali al-Megrahi, o ex-agente secreto líbio condenado à prisão perpétua pelo atentado terrorista do avião da Pan Am a sobrevoar Lockerbie, em 1988. Em 2009, o governo escocês liberou Al-Megrahi por “razões humanitárias”: ele estava com câncer terminal de próstata. Mas o diário britânico The Times revelou recentemente que Al-Megrahi parece gozar de boa saúde. Vive numa suntuosa villa em Trípoli. Na garagem guarda uma Lamborghini vermelha de um Hummer.

Allen também atua no Monitor Group., grupo de consultoria global. O MG, com sede em Boston, “limpa” a imagem de governos como o de Kaddafi. Em dois anos de trabalho para o coronel, cobrou 2 milhões de libras. Embora, em 2003, a ONU tenha posto fim às sanções contra a Líbia, quando Kaddafi assumiu responsabilidade pelo ataque terrorista contra o voo da Pan Am, e renunciou ao terrorismo, o líder precisou de um reforço dos serviços do MG.

Como conselheiro do MG e da LSE, Allen convocou Anthony Giddens, ex-reitor da universidade londrina, para encontrar o coronel na usa tenda em Trípoli. O parecer do sociólogo Giddens sobre Kaddafi e a Líbia seria uma maneira de “limpar” a imagem do rei das dunas e seu país.

O sociólogo, hoje Lorde Giddens, de 73 anos, escreveu 34 livros traduzidos em 30 línguas, e é o pai da Terceira Via, ideologia que serviu apenas para justificar a manobra do Partido Trabalhista de Blair rumo ao centro. Fez muito sucesso nos anos 1990, assim como as costeletas do argentino Carlos Menem. Por fim, a Terceira Via acabou em um beco sem saída.

Após duas viagens à Líbia, Giddens produziu artigos para os diários La Repubblica, El País e The Guardian. “ A Líbia, apesar de ter apenas um partido, não é particularmente repressiva”, escreveu em 2007. Segundo o sociólogo, Kaddafi seria popular. Todos, a começar por crianças nas escolas, terão acesso a computadores e à internet. E previu: “Dentro de duas ou três décadas, a Líbia poderá ser a Noruega do Norte da África: próspera, igualitária e com um olhar para o futuro…” Giddens, neste artigo, parece ter trocado a Terceira Via por uma pinguela.

[Pulicado originalmente na revista Carta Capital, edição de 16 de março de 2011]
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