Obstetrícia da USP pode sair da Fuvest

Cerca de 200 pessoas protestaram ontem contra a exclusão do curso entre opções do vestibular do ano que vem. Alunos e professores contestam a medida, defendida por conselho de enfermagem e por comissão da escola

Laura CapriglioneFolha de São Paulo

Cerca de 200 estudantes, professores e ex-alunos da Escola de Artes, Ciências e Humanidades, a chamada USP Leste, protestaram ontem contra a retirada do curso de obstetrícia do cardápio de cursos da Fuvest de 2012.

A retirada é defendida pelo Conselho Federal de Enfermagem e apoiada por comissão interna da escola, pelo menos até que se encontrem formas de viabilizar o curso. Criado em 2005, o curso de obstetrícia já formou duas turmas, no total de 90 obstetrizes -mesmo os profissionais do gênero masculino designam-se assim, para se distinguirem dos médicos e enfermeiros obstetras.

Ao contrário do que previam os organizadores do curso, porém, o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) logo manifestou seu inconformismo com o fato de os egressos da EACH pleitearem o registro como enfermeiros.

Segundo o Cofen, o curso da USP Leste não cumpria as diretrizes curriculares nacionais. Ontem, veio a público a decisão final do Cofen relativa aos egressos da obstetrícia da EACH. O conselho não os reconhece como enfermeiros e recomenda que a USP Leste cancele imediatamente o vestibular para o curso.

“Não admitimos sucateamento da profissão de enfermeiro”, diz Fabrício de Macedo, procurador do Cofen.

Edson Leite, vice-diretor da EACH, disse à Folha há 15 dias, quando ainda não se conhecia o parecer final do órgão de classe sobre o curso, que a universidade “não poderia fechar os olhos para o destino dos alunos que estão fazendo o curso”.

Dulce Maria Rosa Gualda, professora-titular da faculdade de enfermagem da USP e uma das formuladoras do curso de obstetrícia da EACH, considera “lamentável a USP ceder dessa forma vergonhosa à pressão corporativista do Cofen”.

Ela cita pesquisas, como a divulgada pela Folha no último dia 24, nas quais 25% das mães dizem ter sofrido algum tipo de agressão no parto.

“Quando a questão do parto humanizado é tão urgente, como é possível que a universidade aceite extinguir um curso fundado exatamente para reverter esse cenário?”

Segundo a professora, já está provado que os cursos de enfermagem não dão conta de formar profissionais em número suficiente para a obstetrícia. “O certo seria ampliar a experiência da EACH, e não encerrá-la.”

Para Edson Leite, “não dá mais para dizer que não interessa o parecer do conselho de classe”. Segundo ele, as negociações para o Cofen reconhecer o curso da EACH deverão prosseguir. “Se for o caso, voltamos a oferecê-lo no vestibular de 2013.”

Com procura baixa, vagas são “remanejadas”

DE SÃO PAULO

Ao ser criada, em 2005, a EACH (Escola de Artes, Ciências e Humanidades) foi apresentada pelo então reitor, Adolpho José Melfi, como “ponto inicial para a inclusão social” na USP.

Seis anos depois, o próprio Melfi capitaneou o grupo de trabalho designado pelo diretor da EACH para estudar o “remanejamento de vagas”.

Na prática, o grupo propõe um enxugamento, de modo a elevar a relação candidato-vaga no vestibular, “já que a procura por alguns dos cursos da EACH é bastante reduzida”, segundo texto oficial.

O texto defende reduzir vagas para elevar “a qualidade dos ingressantes”.

O curso de licenciatura de ciências da natureza, no vestibular de 2010, teve apenas 1,71 candidato disputando cada vaga.

Em 2011, a média -baixíssima para os padrões da USP- passou para 2,31, ainda ínfima.
O curso nem sequer conseguiu preencher as 120 vagas oferecidas.

No ano de 2010, o curso funcionou com apenas 20 alunos no período da manhã e 40 no noturno.
Em vez das 1.020 vagas em disputa a cada vestibular, a EACH passaria, segundo o grupo de trabalho, a oferecer só 700.

A proposta mais radical seria exatamente a que envolve o curso de obstetrícia, que seria absorvido pela Escola de Enfermagem da universidade.

Segundo a reitoria da USP, o estudo sobre a EACH não tem caráter deliberativo. Para começar a valer, a proposta deverá passar antes pelos colegiados da universidade. (LC)

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3 comentários
  1. Cintia disse:

    Não queremos ser reconhecid@s como enfermeir@s, e sim como OBSTETRIZES, pq o COFEN não consegue entender isso?

  2. Mélany disse:

    É inacreditavel ver que o COFEN venha dizer “…os egressos da EACH pleitearem o registro como enfermeiros”, nós NUNCA aceitamos o registro como enfermeiros, nós NUNCA aceitamos sermos registrados como Enfermeiros Obstetricos, nós desde o início lutamos pelo registro como OBSTETRÍZES!!!!!! Vocês que nos forçaram a este tipo de resgitro! E agora fecham os olhos e ouvidos e tem a cara de pau de dizer que fomos nós que escolhemos isso?!
    É definitivamente uma VERGONHA!!

  3. Juliana Mesquita disse:

    É inacreditavel ver que o COFEN venha dizer “…os egressos da EACH pleitearem o registro como enfermeiros”, nós NUNCA aceitamos o registro como enfermeiros, nós NUNCA aceitamos sermos registrados como Enfermeiros Obstetricos, nós desde o início lutamos pelo registro como OBSTETRÍZES!!!!!! [+1]

    Sou discente do 5° semestre de obstetrícia e o que posso dizer sobre pelo que foi pronunciado pelo senhor Edson Leite é que não passa de uma calúnia. Nós NUNCA pleiteamos o registro de ENFERMEIRO, tanto é que estamos lutando para que o curso de obstetrícia não seja remanejado para o de enfermagem.
    É muito facil excluir vagas e remanejar um curso que atende as questões sociais e da saúde da mulher ao invés de investir na divulgação de sua importância. Além disso, propor a criação de novos cursos que só atendem o interesse da iniciativa privada. Enquanto 1 a cada 4 mulheres sofrem de violência institucional, por ‘politicagem’ vão investir em cursos como designe?
    Que vergonha senhor Boueri… a comunidade ‘EACHiana’, como nos trata, estará unida contra esse retrocesso.

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