Professor diz que filosofia se tornou dispensável

Da Livraria da FolhaUOL

Em “Lições de Filosofia Primeira”, José Arthur Giannotti defende que “num mundo em que as coisas e as pessoas se tornam descartáveis, a filosofia e o filósofo também se tornam dispensáveis.”

No livro, o professor emérito da USP (Universidade de São Paulo) trata dos principais temas da investigação filosófica e se concentra nos momentos que levaram à crise do século 20, quando intelectuais como Heidegger e Wittgenstein questionaram os fundamentos do discurso filosófico tradicional.

Giannotti também é autor de “Certa Herança Marxista”, “Apresentação do Mundo”, “O Jogo do Belo e do Feio” e “Marx: Além do Marxismo”.

Leia, abaixo, um trecho do exemplar.

PARTE I
A CONQUISTA DO TERRENO

I. Uma nova forma de pensar

O filósofo sempre foi considerado um personagem bizarro, estranho, capaz de cair num poço quando se embrenha em suas reflexões – é o que contam a respeito de Tales (cerca de 625-458/6 a.C.). O primeiro filósofo, segundo a tradição grega, combina enorme senso prático para os negócios com uma capacidade de abstração que o retira do mundo. Por isso é visto como indivíduo dotado de um saber especial, admirado porque manipula ideias abstratas, importantes e divinas. No fundo não está prefigurando as oposições que desenharão o perfil do homem do Ocidente? O divino Platão e o portentoso Aristóteles fizeram desse estranhamento o autêntico espanto diante das coisas, o empuxo para a reflexão filosófica.

Nos dias de hoje essa imagem está em plena decadência; o filósofo se apresenta como um profissional competindo com tantos outros, ensina nas escolas ou em centros do saber, paga imposto de renda e se intitula e é titulado “filósofo”. Ninguém se importa com as promessas já inscritas no nome de sua profissão: a prometida amizade pelo saber somente se cumpre se a investigação for levada até seu limite, cair no abismo onde se perdem suas raízes. A palavra grega filosofia significa “amigo da sabedoria”, por conseguinte recusa da adesão a um saber já feito e compromisso com a busca do correto. Em contrapartida, o filósofo contemporâneo participa do mercado de trabalho, procura avaliar seu preço nos congressos, nos colóquios, mede sua importância segundo os convites que recebe, sua capacidade de convidar colegas e de ser convidado, vale quanto pesam o arco de suas viagens e o número de revistas a que tem acesso. Torna-se cada vez mais seguro de si conforme aumenta a venda de seus livros, embora prudentemente aparente desprezar os campeões de venda. Às vezes muito contente participa do jogo da mídia. Graças a esse comércio transforma seu saber em capital, e as novidades que encontra na leitura de textos, em moeda de troca.

Sabemos que a filosofia ocidental nasceu na Grécia, no século VII a.C., ao mesmo tempo que se formava a cidade-estado, a pólis. Não é por isso que os filósofos, com exceção dos sofistas, se integravam completamente nela. Costumavam ser leigos, mas Anaximandro, discípulo de Tales, era uma espécie de mago, e toda uma escola filosófica, os discípulos de Pitágoras, se organizava como verdadeira seita. Somente quando a pólis entrou em decadência eles criaram escolas propriamente ditas – lugares de ócio (skholê em grego), onde não se praticava o neg-ócio -, dedicadas à formação dos jovens, visando lhes abrir o caminho para uma vida feliz, contemplativa, inteiramente dedicada ao saber, assim como prepará-los para enfrentar os meandros da nova política. Depois que a pólis perdeu poder, durante as conquistas de Alexandre Magno, e, mais tarde, integrada ao Império Romano, os filósofos se tornaram cosmopolitas. Com o advento do cristianismo foram se transformando em padres da Igreja, nem sempre obedientes aos ditames do Vaticano. A partir do século XII se ligaram às universidades. Foram grandes mestres da disputa, do debate de ideias, do conflito ou da conciliação entre a fé e o saber. Ganharam maior independência durante o Renascimento. Conforme se instalava o Estado-nação, uns colaboraram com essas mudanças, particularmente Francis Bacon (1561-1626) e Thomas Hobbes (1588-1679), que se puseram à disposição da monarquia inglesa em formação. René Descartes (1596-1650) foi mais prudente: abandonou a França para se instalar nos Países Baixos, onde a liberdade de opinião era muito maior, mas, por uns tempos, serviu sob as ordens de Maurício de Nassau, príncipe de Orange. Como bom cientista, interessava-lhe conhecer mais o mundo do que os livros. Percorreu a Europa e acabou morrendo em Estocolmo, dando aulas à rainha Cristina. Reclamava do horário que a rainha lhe dispensava – cinco horas da manhã – e não resistiu ao frio sueco, falecendo de pneumonia. John Locke terminou servindo o conde de Shaftesbury. David Hume tentou lecionar na universidade, mas foi recusado por ateísmo, depois passou a servir a nobreza; George Berkeley era bispo da Igreja reformada. Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) foi um típico funcionário do Estado, tendo sido diplomata e historiógrafo na corte de Hanôver; muitos de seus ensaios foram escritos enquanto viajava de uma cidade para outra. Já Christian Wolff (1679-1754) se dedicou a ensinar em várias universidades alemãs, enquanto Immanuel Kant (1724-1804) foi um professor que nunca saiu de Königsberg. Jean-Jacques Rousseau (1712-78) queria conhecer os homens e, para poder se situar do lado deles, precisava viajar; Kant, ao contrário, queria conhecer o homem, de sorte que acreditava não precisar sair de sua cidade. Foi um típico acadêmico. Como estamos percebendo, os filósofos de um modo geral tratam de se relacionar com um poder público ou religioso.

Nem sempre, todavia, de maneira pacífica. Lembremos alguns mais salientes: Bento de Espinosa (1632-77), judeu de origem portuguesa, depois de ter sido barbaramente excomungado pela sinagoga de Amsterdam, onde estudava para ser rabino, se isola em Leiden, em seguida em Haia. Relaxava de seus estudos polindo lentes, naquela época ofício que requeria finos conhecimentos e extrema habilidade. Cioso da liberdade de seu pensamento, recusou- se a ensinar na universidade de Heidelberg, para onde fora convidado com a condição de não se exceder e de não “perturbar a religião estabelecida”. Arthur Schopenhauer (1788-1860) era tão rabugento que, por duas vezes, fracassa na tentativa de ser professor universitário e se isola em companhia de seu cão.

Do século XIX em diante, os filósofos passam a ser basicamente professores, mas nem sempre foram conformistas. De uma maneira ou de outra foram tocados pelos movimentos revolucionários da época. Johann Gottlieb Fichte (1762-1814) foi expulso da universidade de Iena sob a acusação de ateísmo. Bertrand Russell (1872-1970) foi preso por ser contra a Primeira Guerra Mundial. Em contrapartida, Martin Heidegger (1889-1976) em 1933 se filiou ao partido nazista e se fez sacerdote da germanidade. A um jornal de estudantes alemães chegou a declarar: “Não tome princípios e ideias como regra de seu ser. Só o Führer é ele mesmo a realidade e a lei da Alemanha de hoje e de amanhã”. A comissão de desnazificação o afastou da universidade por alguns meses, mas logo ele voltou a seu cargo. A pergunta, porém, permanece: como um dos maiores pensadores do século XX pôde se associar ao nazismo? Por sua vez Wittgenstein (1889-1951) namorou a ideia de trabalhar na União Soviética, onde uma nova sociedade lhe parecia estar nascendo. Em resumo, o estudo da filosofia não abole os interesses práticos nem imuniza contra maluquices.

O filósofo professor nem sempre guarda a temperança grega, está aberto aos vícios do sindicalismo burocrático e, às vezes, mais se interessa em conquistar vantagens do que em conquistar discípulos. Ao tratar as ideias filosóficas como se fossem meras opiniões, isoladas da trama de seus problemas e de seus pressupostos ligados ao mundo, pode ser seduzido pela rigidez de ideias sem molejo, convertendo-se assim num militante doutrinário. Outras vezes, cai nas frivolidades da vida mundana – é o filósofo “café-soçaite”. Não vejo na prática da filosofia contemporânea nenhum estímulo para que o estudioso se comprometa com uma prática moral e política mais consciente de si mesma, venha a ser mais tolerante no que respeita às opiniões alheias, aprenda a ser mais consciente de suas obrigações cívicas. A filosofia como profissão burocrática cria lealdades grupais, que nem sempre se conciliam com as lealdades institucionais, aquelas que dizem diretamente respeito à finalidade social da instituição. A filosofia burocrática amortece os cuidados do “saber de si”

Num mundo em que as coisas e as pessoas se tornam descartáveis, a filosofia e o filósofo também se tornam dispensáveis, sempre havendo uma doutrina ou um profissional capaz de coroar e enaltecer uma trama de interesses privados. A constante exposição à mídia pode levá-lo a dizer o que o grande público espera dele e, assim, também pode gozar de seus quinze minutos de celebridade. Diante do perigo de ser engolfado pela teia de condutas que inverte o sentido original de suas práticas, o filósofo, principalmente o iniciante, se ainda pretende ser amante de um saber autêntico, precisa não perder de vista que assumiu o compromisso de afastar-se das ideias feitas – ressecadas pela falta da seiva da reflexão – e de desconfiar das novidades espalhafatosas. Se aceita consagrar-se ao estudo das ideias, que ao menos reflita sobre o sentido de seu comportamento.

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