Implosão reitoral da Obstetrícia é ato do mais puro humanistismo

CERTO tempo atrás, em uma soleníssima sessão do C.O. (Conselho Oniversitário da USP), com todo ele reunido, feliz a valer, aprovou-se uma medida polêmica que se reflete hoje. Lá estava nosso magnífico reitor – com seus magníficos cabelos acaju e soleníssimo colar que combina com a moda “new dark age” adaptada aos tempos modernos –. Todo mundo sabe que ele é da Opus Dei, assim como outras figuras do PSDB, como Alckmin que foi recentemente entregue pelo secretário da habitação, também tucano, Andrea Matarazzo ao embaixador dos EUA, que é protestante (e por isso rival religioso da Opus Dei na ala cristã conservadora da política).

Citemos o que disse o reitor em Ribeirão Preto, quando estava exultante e em dia de glória, além de dotado de um autêntico espírito imperial: “É importante que mesmo os cursos tradicionais verifiquem se é o caso de mudar, melhorar e até mesmo descontinuar certos cursos ou substituí-los”.

Pois bem, meditemos sobre essa frase dita tempos atrás pelo magnífico em magnífico cabelo acaju. Ao cabo e ao fim, sem muito pensar, percebemos que é o que aconteceu com o curso de Obstetrícia da USP e acontecerá com outros. Mas há um paradoxo, uma vez que serão justamente os cursos novos e modernos os atingidos. Meditemos mais um pouco para entender isso e, no fim das contas, vê-se que é o efeito que ocorre nesse cruzamento entre conservadorismo do passado e do presente. O que é um grande nó.

Diz, ainda, João Grandino Rodas: “Não é possível que alguns cursos continuem hoje como eram na época de dom Pedro I” (http://www1.folha.uol.com.br/saber/802119-usp-vai-reavaliar-curriculos-e-pode-eliminar-cursos.shtml). No entanto é outro o argumento que o imbui de profundo espírito imperial e, portanto, antidemocrático, pois seu mérito vem do altíssimo, e , por isso mesmo, está acima de todas as coisas mundanas: “No passado, e, mal comparando, foi o que aconteceu com o ensino público secundário do Estado. Há algumas décadas, era primoroso, mas no momento em que se abriu para todos, o que parecia positivo se transformou em algo extremamente negativo.”(http://www.usp.br/imprensa/?p=4072)

Nossa! Devo dizer que ouvi falar desse tempo. Era quando nossos avós estudavam latim e francês no ensino médio. Pena que quase ninguém mais estudava com eles. Deve ter dado uma baita saudade no magnífico ao recordar os tempos em que não precisava dividir sua escolinha com ninguém da “gentinha”. Deve ser por isso que se comprometeu a piorar, ainda mais, as políticas de inclusão da USP, quando percebeu que não era uma medida estritamente cosmética.

No entanto, esqueceu o reitor de lembrar que a Universidade Autônoma do México – Unam, que aliás, nesses rankings de educação que sempre citam nos jornais passou a USP muito bem passado, e possui 300 mil alunos, o que é um tantinho a mais que a USP, Unicamp e Unesp juntas. O Hélio Schwarzman é outro que também precisava ser lembrado disso, pois também parece estar com saudade do colégio dos tempos em que aprendeu o beabá, quando os pobres e negros ficavam em seu lugar e cada um ficava na sua.

Além disso, o principal é que ele, o Rodas, colocou como critério para a extinção ou corte de verbas desse ou daquele curso a relação candidato/vaga, que ele e outros interpretam como parâmetro para medir o interesse da sociedade num determinado curso ou mesmo área do saber.

Muito interessante, pois foi essa medida que causou a não contratação progressiva de professores, fato que acabou levando à greve de 2002.

Nessa época, o então vice-reitor alegou, nesse mesmo espírito, que esse era o critério e que o problema da FFLCH era que possuía muitas professoras e que estas aposentam mais cedo que os homens, além de tirarem licença maternidade. E o fulano disse isso ao lado dA então pró-reitorA de graduação.

O que determina a relação candidato/vaga? Taí um ótimo tema de estudo.

Além das profissões que têm origem no império, há as profissões que podem ser as mais procuradas, dependendo da época. Ora Publicidade era o carro chefe, ora Medicina, ora… Espere! Se isso reflete o interesse social, como o curso mais concorrido muda? Será a novela das oito? A pressão dos jornais e materiais de apoio ao estudante que deseja ascensão social indicando: “Esta será a carreira do futuro…!” Mas tudo isso dura o que dura até que o mercado sature a área então abençoada.

Vejamos uma profissão cujo mercado esteja completamente saturado e, por isso, nos faça imaginar que deva ser extinta ou suas vagas cortadas e que seja do tempo do Dom Pedro I.

No caso, me vem à mente o curso de Direito, basicamente porque há mais cursos de Direito no Brasil que no resto do mundo inteiro somado. Isto faz cogitar fechar o curso de direito?
http://www.portalexamedeordem.com.br/blog/2010/10/brasil-tem-mais-faculdades-de-direito-do-que-o-resto-do-mundo/.

Uma novela, um personagem que ficou público na imprensa ou filme divulgados amplamente tem o poder de influenciar o interesse das massas numa profissão? Isso torna o curso mais importante refletindo uma importância ou relevância social? Mas esta reflexão nos foi furtada naquela magnífica sessão do C.O. (SIC).

Foi isto o que criou uma regra que faz com que a verba das unidades esteja vinculada a esse interesse e quem não esteja, perde a chance de existir, pois as unidades podem cortar vagas de cursos para subir a relação candidato/vaga por um artifício administrativo, apenas para atingir essa meta burocrática surrealista e conservadora (o que mostra que nem todo surrealismo é libertador) garantindo a existência da unidade.

Ou a solução mais drástica cortando um curso e reduzindo assim a relação candidato/vaga da unidade, digamos, que tal, Obstetrícia?

Afinal, quem sabe que ainda morre tanta gente de parto mal feito neste país? E quando sabemos que um parto humanizado reduz o número de mortes? Sem contar que nesse caso a reitoria, muito sabujamente, alia-se ao lobby dos médicos que propõe o ato médico a menor brecha que apareça, ou aceita acriticamente o que diz o Conselho Federal de Enfermagem. (http://www.gazetadopovo.com.br/saude/conteudo.phtml?id=959855)

Mas para que se preocupar, pois, estendendo este raciocínio à sociedade, há mesmo gente sobrando que não deveria existir. Não possui esse mérito. Basta cortar da sociedade se os outros não se interessarem por eles. Um homem humano, demasiado humano este nosso magnífico reitor (sem esquecer o magnífico acaju dos cabelos), que dá mostras de ser um discípulo do mais autêntico humanitismo de Quincas Borba.

PS.: É conhecida a história que conta um professor da FFLCH sobre Kant. Estivesse ele (Kant) vivo, seguindo a lógica mercantilista que as universidades praticam, jamais escreveria sequer a Primeira Crítica. Não menos conhecida é a de outro professor, desta vez do IME, que, ainda atendendo a lógica atual, Einstein não receberia um centavo para sua pesquisa, e a Teoria da Relatividade jamais seria descoberta, afinal de contas, é ciência pura. Mas vai dizer isso para quem já deu provas de que não gosta de livros , aula presencial e vê a universidade a serviço do capital e não da sociedade…

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