Audiência da Comissão de Direitos Humanos da ALESP sobre a gestão do reitor da USP Rodas

Uma tarde na Assembleia Legislativa de São Paulo

Por Adrián Pablo Fanjul, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

Estive na tarde de quita-feira, dia 24 de março, na Assembleia Legislativa, na audiência pública convocada pela Comissão de Direitos Humanos sobre a gestão Rodas.

O Auditório Franco Montoro estava mais do que lotado, não cabia mais ninguém na sala nem nas galerias, e muitos assistiram desde o corredor do lado. Calculo umas 600 pessoas, pelo menos 200 deles funcionários da USP, o resto, estudantes. Uma parte deles, bastante identificada com cartazes, era do curso de Obstetrícia da USP Leste, que não sei se sabem que está ameaçado de fechamento (vejam matéria no Estadão de ontem).

Rodas não foi, mas enviou uma representação que não chegou a se manifestar (aparte me referirei a essa situação).

Abriu a mesa o prof. Francisco de Oliveira, intervieram deputados do PDT, PT e PSOL, e falaram representantes do SINTUSP, ADUSP e DCE, também uma das funcionárias demitidas e alguns outros assistentes (não fiquei até o final).

Muito sinteticamente, destaco que um grupo de deputados acaba de entrar com representação no Ministério Público sobre compras de terrenos feitas pela Universidade, que um dos deputados caracterizou como “desvio de finalidade”.

Também um deputado do PT informou que o requerimento que tramita na Comissão de Educação OBRIGARÁ Rodas a comparecer para prestar esclarecimentos sobre as demissões de funcionários e os processos contra alunos (no caso da sessão que comento, ele podia optar por não comparecer, devido ao tipo de convocatória).

Foi formada, também uma comissão de sete deputados que acompanhará as tentativas de fechamento de cursos.

Além disso, outro dos deputados do PT informou que será investigada a atividade de firmas de segurança que realizam uma espionagem, que ele qualificou como “criminosa”, sobre as atividades políticas e sindicais de funcionários, professores e alunos da USP.

Um deputado do PSOL informou, ainda, que há dúvidas sobre a transparência na informação contida no último panfleto “USP destaques”, da reitoria, em torno da suposta interpelação do Ministério Público à USP sobre acordos na greve de funcionários de 2010, e que o promotor correspondente foi oficiado pelos deputados para conhecer-se o teor dessa interpelação e quem a solicitou. A Comissão de Direitos Humanos também pediu esclarecimentos à reitoria sobre a utilização da foto do MP nesse material de propaganda política.

Quanto à presença de um representante da reitoria, no começo, foi anunciado, como tal, o Prof. Wanderley Messias, que compôs a mesa. A informação de que Rodas não compareceria foi mal recebida, como era esperável, e alguns dos deputados destacaram que esperam, no futuro, conversar diretamente com o reitor. O representante ficou na mesa, mas subitamente, no meio a uma das falas, levantou-se e se retirou do Auditório, antes de dizer qualquer coisa. Nada chegou a responder sobre as muitas perguntas formuladas pelos deputados e outros que tinham intervindo. É claro que a saída foi vaiada, porque indignou os presentes, mas foi rápida e sem o menor tumulto.

Perguntei depois ao presidente da mesa se o representante da reitoria tinha dado alguma explicação sobre por que saía dessa maneira. Não vou entrar em detalhes, mas o deputado não ficou em absoluto convencido pelos motivos que ouviu do representante, que depois seriam reproduzidos pela reitoria à Folha de São Paulo (ver abaixo). O fato é que a reitoria, além de não comparecer na pessoa do reitor, assumiu essa atitude pública de afronta, já não apenas a setores da comunidade USP, agora na sede e na presença do Legislativo.

Se esse abandono da possibilidade de diálogo foi uma péssima atitude, o momento escolhido não podia ter sido mais infeliz. Em vez de sair durante as falas anteriores de alguns deputados, ou do presidente da ADUSP ou do diretor do DCE, durante as quais a desqualificação de Rodas tinha sido muito contundente, o representante da reitoria foi logo sair enquanto falava uma funcionária demitida que nem se referia, de modo geral, à gestão. O gesto simbólico (buscado ou não), de abandonar a sala enquanto falava uma das vítimas do mais irracional ato de violência da reitoria, sem dúvida, merece (e obteve) interpretações.

Por que saiu da Assembleia Legislativa o representante de Rodas?

 

Wanderley Messias

Precisamente por ter estado presente naquela tarde, não posso deixar de questionar a informação dada pela reitoria à Folha de São Paulo de que “o professor Wanderley Messias foi ofendido por parte dos presentes e por isso saiu sem se pronunciar sobre os questionamentos”. O representante da reitoria saiu intempestivamente durante a fala de uma funcionária, e nenhum dos oradores durante a sessão tinha sequer se referido a ele. Se, como parece ser pelo que informa paralelamente o Estadão, alguém do público tinha lhe dito alguma coisa, deve ter sido tão insignificante que não se ouviu, não deu para que as centenas de pessoas presentes, que atendiam naquele momento a fala da oradora, ouvissem. Considerando o tamanho da violência que a reitoria está lançando (demissões coletivas, processos para expulsar alunos, fechamento de cursos e tudo que sabemos) é perfeitamente esperável que alguns demonstrem antipatia inclusive individualmente. Esse, acaso, é motivo para ir embora sem responder nada diante dos gravíssimos questionamentos levantados pelos deputados e dirigentes, que, esses sim, todos nós ouvimos?

Se um auditório da Assembleia Legislativa, rodeados de deputados e PMs que os resguardam não é um âmbito onde esses senhores possam discutir, qual é o âmbito? Os colegiados com maioria partidária? Suas próprias salas, onde podem intimidar?

Foi de tal altura a atitude dos funcionários e alunos presentes, que o representante da reitoria saiu, em segundos, por entre os funcionários que o reitor demitiu e os alunos do curso que tenta fechar (foi sair logo por onde estava a EACH), com mais facilidade que a dos garçons que levavam café para a mesa. Isso sim, teve que ouvir vaia. O que será que ele esperaria, um buquê de rosas?

Agora aparece vitimando-se. Não e a primeira vez que o partido da reitoria se transforma de agressor em “agredido”. É a técnica da bolinha de papel, criada com o sabido sucesso, pelo mentor de todos eles. Esta foi a bolinha de papel do enviado de Rodas, e com certeza aparecerá no próximo “USP destaques”, panfleto com o qual a reitoria tenta, periodicamente, agitar seus fieis na Universidade que deveria administrar para o interesse público.

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2 comentários
  1. Fernandes disse:

    Sugiro ao articulista que leia o artigo indicado em post anterior deste mesmo blog, matéria de Cinthia Rodrigues para o iG :
    http://bit.ly/gVl4Qs
    É o relato de outra testemunha daquela mesma tarde na Assembleia.

    • Caro Fernandes, li o artigo e efetivamente, como a maioria dos presentes, não escutei essas agressões verbais ao representante da reitoria, mas não creio que elas justifiquem o abandono da sala. Ele foi convidado pelo deputado convocante a falar, e isso é o que conta, naõ o que tenha dito alguém do público, que não representava ninguém. Também não penso que “ouvir durante duas horas” seja nenhum sacrifício, é o que corresponde quando vamos integrar uma mesa de debate, qualquer um com experiência na Universidade sabe disso.
      Por último, não acredito nesse discurso de “concordar com as reivindicações”. Se Wanderley Costa realmente concorda, por que não sai do cargo que tem nessa gestão vergonhosa, que destroi as vidas dos funcionários que demite e dos alunos que expulsa?
      Adrián Fanjul.

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