Passe livre para o trânsito político

I — “Formação de condutores – Poderia se esboçar uma constelação em torno do automóvel. A mimese entre o produtor e o produzido não se efetiva de maneira expressivista, mas permanece como ruído entre os olhos dos faróis – onde a identidade se escamoteia é onde ela se perverte. Os dentes cerrados com o rosnado. Os gases poluentes da digestão óleo-orgânica. Os ouvidos, vidros fechados, o som ligado na consciência solitária moldada pelo estacionamento. Todos os sentidos em operação, todos os membros da engrenagem do corpo. O gosto da velocidade – olha a hora! O ônibus lotado ao lado que nem se vê pelos vidros filmados pela violência amedrontadora.  A potência a cavalos nos põe aos nervos. O trânsito entope as veias. O tédio diário nos compele a aceleração cardíaca. Instruídos, formados e educados por e para tal tortuosa pista, somos livres para o ir e vir. Pedágio. Farol vermelho. Multa e baixo salário. Fiat Idea – Um novo conceito em automóvel. Nele se conjuga o verso e a marcha ré do atual estado do mundo.”

II — A luta pelo transporte público, gratuito, de qualidade, para garantir o direito de ir e vir da população chegou ao 10°  Grande Ato na capital de São Paulo. Dois fatos marcantes desta manifestação sintetizam problemas e questões a respeito do atual estado das coisas.

III — Logo no início da manifestação, por volta das 18h30, as 200 pessoas que estavam no ato, praticamente tomaram a paulista para segurar o trânsito e mostrar nossa indignação com o preço da tarifa e qualidade do transporte de São Paulo. Mas o fato é que ao entrarmos na Paulista o trânsito era tamanho que a própria manifestação ficou parada nele. A manifestação parada no trânsito dos automóveis. Esta imagem, das pessoas rodeadas por policiais, que por sua vez estavam rodeadas pelo trânsito diz muito: o problema do transporte em São Paulo é um problema do automóvel e suas manifestações diárias que obstruem vias (choque neles!), atropelam, violentam, acidentam, poluem. É como se todo dia, uma manifestação da GM, Ford, Volks, Fiat, parasse o trânsito das principais avenidas da cidade. Não é a toa que essas empresas faliram em todo o mundo, enquanto no Brasil se batia o recorde de venda de automóveis. E todos acham que isso é apenas um problema da engenharia e da organização do tráfego. O automóvel deve ser regulado, acabando com seu uso individualista e privado: seu uso não pode mais ser indiscriminado como nos dias de hoje. E para o transporte publico: tarifa zero.

IV — Para fugir do trânsito, felizmente, a manifestação resolveu descer a Brigadeiro Luís Antônio, que no seu percurso tem três faculdades particulares. Ao passar diante delas a manifestação convocava para a luta. E de maneira espontânea muitas pessoas aderiram ao movimento, sendo recebidas sob aplausos e gritos de luta. Algumas dessas pessoas que entraram na barca da luta contra o aumento jamais tinham participado de manifestação alguma. Isso leva a refletir sobre o porquê essas pessoas, só diante de um rio que arrasta, resolvem provar da água que tenta furar a pedra. Por que a população não se revolta? Por que o conformismo? Por que estes só foram a manifestação quando esta foi até estes? Eles irão na próxima? O fato é que essa experiência marcará estes sujeitos profundamente e o processo de politização que está em curso com as manifestações do Passe Livre terá consequências em todas as próximas mobilizações populares de nossa cidade. É sabido que o ser humano se adapta até a campos de trabalho forçado; a formação de condutores e conduzidos é bem eficaz. Mas quando um ato rompe as vias obstruídas, o trânsito torna-se livre para o aparecimento da política e do reconhecimento da capacidade de transformação do mundo.

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