A polícia do pensamento nos EUA

Paul Krugman* – Folha de São Paulo

Recentemente, o historiador William Cronon, professor na Universidade do Wisconsin, decidiu participar do tumultuado debate político em seu Estado. Criou o blog “Scholar as Citizen”, e dedicou seu primeiro post ao papel do nebuloso American Legislative Exchange Council na promoção de projetos de lei conservadores de linha dura em nível estadual. Em seguida, escreveu um artigo de opinião para o “New York Times” no qual sugeria que o governador republicano do Wisconsin havia abandonado a tradição de “boa vizinhança, decência e respeito mútuo” que por longo tempo prevaleceu no Estado.

Qual foi a resposta do Partido Republicano? Um pedido de cópias de todos os e-mails enviados de e para a conta de e-mail de Cronon em sua universidade que contivessem qualquer palavra de uma ampla lista de termos, entre os quais o nome do partido e os de diversos políticos que o integram.

Se a ação lhe parece irrelevante, você não a está interpretando como deveria. A direita mais dura -e hoje em dia ela domina o Partido Republicano- segue um modus operandi no que tange a acadêmicos que expressam opiniões que lhe são desagradáveis: pouco importa a substância da questão em debate, o importante é difamar. E a exigência de cópias dos e-mails evidentemente tem por motivo a esperança de que as mensagens ofereçam alguma coisa, não importa o que, que possa ser usada para sujeitar Cronon ao tratamento habitual.

O caso Cronon, portanto, serve como mais um indicador de até que ponto um de nossos dois grandes partidos se tornou vingativo e até mesmo antiamericano.

A exigência de acesso à correspondência de Cronon encontra paralelos evidentes na atual campanha de difamação contra os cientistas do clima e suas pesquisas, que nos últimos meses vêm dependendo pesadamente de citações supostamente adversas extraídas de mensagens de e-mail.

Em 2009, os céticos quanto à mudança climática obtiveram mais de mil mensagens de e-mail trocadas entre pesquisadores da Unidade de Pesquisa do Clima na Universidade de East Anglia, Reino Unido. Nada na correspondência sugeria qualquer forma de impropriedade científica; o que as mensagens revelavam, no máximo -e sei que isso será um choque para todos vocês- é o fato de que os cientistas do clima são seres humanos, que ocasionalmente fazem afirmações acerbas sobre pessoas de quem não gostam.

Mas isso não impediu que os habituais suspeitos proclamassem ter descoberto um “Climagate”, um escândalo científico que de alguma maneira serviria para invalidar o vasto acúmulo de provas de que o homem está provocando mudanças no clima do planeta. Esse falso escândalo oferece uma indicação quanto ao que os republicanos do Wisconsin presumivelmente desejam fazer com relação a Cronon.

Afinal, se você vasculhar grande número de mensagens em busca de frases que possam ser usadas de modo a criar uma impressão negativa sobre as pessoas que as escreveram, certamente encontrará algumas. Na verdade, o que surpreende é que os críticos tenham encontrado número tão baixo delas no arquivo do “Climagate”: boa parte da difamação gira em torno de uma única mensagem, na qual um pesquisador fala sobre usar um “truque” para “ocultar o declínio” em determinada série estatística. No contexto, fica claro que ele está falando sobre a produção de uma apresentação gráfica efetiva, e não sobre ocultar provas científicas. Mas a direita deseja um escândalo, e não aceitará um não como resposta.

Existe alguma dúvida de que os republicanos esperam conseguir “sucesso” semelhante contra Cronon?

Nesse caso, porém, é provável que saiam frustrados. Cronon afirma em seu blog que sempre cuidou para não utilizar o e-mail da universidade em seus assuntos pessoais, exibindo quanto a isso escrúpulos que não são nem comuns e nem esperados no mundo acadêmico. (A bem da transparência: em algumas ocasiões usei meu e-mail na universidade para lembrar minha mulher de dar comida aos gatos, para confirmar jantares com amigos, e assim por diante.)

Além disso, Cronon -presidente eleito da Associação Histórica Americana- tem reputação garantida como luminar em seu campo. O magnífico “Nature’s Metropolis: Chicago and the Great West” é o melhor trabalho de história econômica e de negócios que já li -e esse é o tipo de tema sobre o qual leio muito.

Portanto, não precisamos nos preocupar com relação a Cronon -mas deveríamos nos preocupar, e muito, quanto ao efeito mais amplo de ataques como o que ele está enfrentando.

Legalmente, os republicanos podem ter direito ao que solicitam -a lei de documentos públicos do Wisconsin oferece acesso público às mensagens de e-mail dos funcionários do governo, embora ela claramente tenha sido criada para se aplicar às autoridades do Estado, e não a professores universitários. No entanto, existe um claro efeito adverso quanto os acadêmicos sabem que podem enfrentar uma caça às bruxas caso digam algo de que o Partido Republicano não goste.

Uma pessoa como Cronon pode ser capaz de resistir à pressão. Mas pesquisadores menos eminentes ou menos estabelecidos não só relutarão mais em se envolver em causas de cidadania, participando do debate público em curso, como poderão ser dissuadidos até mesmo de pesquisar sobre assuntos capazes de lhes causar problemas.

O que está em jogo nesse caso, em outras palavras, é determinar se teremos um discurso nacional aberto no qual os pesquisadores se sintam livres para afirmar aquilo que suas pesquisas revelam, de modo a contribuir para a compreensão do público. Os republicanos, em Wisconsin e no restante do país, querem calar esse discurso. Cabe ao restante de nós garantir que não o façam

* Paul Krugman, 57 anos, é prêmio Nobel de Economia (2008), colunista do “The New York Times” e professor na Universidade Princeton (EUA). Um dos mais renomados economistas da atualidade, é autor ou editor de 20 livros e tem mais de 200 artigos publicados em jornais especializados.

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