O olho nada crítico da Folha de S.Paulo sobre a USP

Em sua coluna de 27/03/2011, a ombusdman da Folha de S.Paulo, Susana Singer, decompõe com clareza os equívocos desse jornal e da Universidade de São Paulo (USP) no cálculo da taxa de desistência entre os aprovados no vestibular da Fuvest deste ano. Seu questionamento sobre o gesto da USP de se permitir divulgar dados incorretos, e do jornal de escamotear os erros de sua cobertura do assunto choca-se, no entanto, com as observações finais da colunista. Susana Singer atribui a animosidade entre o periódico e a USP (considerada genericamente como um todo indiviso), à publicação, em 1988, de uma lista nominal de docentes supostamente “improdutivos”.

Sem contextualizar o episódio, sua coluna não deixa de ressoar, com essa atribuição, a velha cantilena de que a imprensa, no cumprimento de sua função de divulgar informações – mesmo que confidenciais ou precárias – torna-se vítima de uma reação corporativista. No caso, delineia-se o conjunto dos docentes da USP como um coletivo despreocupado com a qualidade do ensino e da pesquisa, princípio esse que a Folha de S.Paulo, vejam quem!, encarnaria.

Em 1988, a publicação dessa lista tomou por base uma planilha incorreta, já que se sabia que a maioria dos professores ignorou o pedido da reitoria de cadastrar suas últimas publicações. Na ocasião, o então reitor, José Goldemberg, responsável pelo vazamento dos dados, visava, além de forçar os professores à obediência, desqualificar as lideranças intelectuais da USP, em especial as da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, que se opunham à sua política de reformulação do modelo de Universidade. Tratava-se, na prática, de um “assassinato de reputações”.

Desde inícios da década de 1980, a Folha de S.Paulo estabelecera uma aliança tácita com esses professores, no âmbito da campanha pelas Diretas Já! e da mobilização pela redemocratização do país. Como hoje se tornou claro, naquele momento o objetivo do jornal, numa operação de marketing, consistia em recuperar a sua credibilidade, estraçalhada por conta de seu apoio logístico e ideológico à ditadura militar e à repressão armada. Ao divulgar a controversa lista, mesmo ciente de sua imprecisão, ela rompeu com essa frágil convivência, optando por apoiar a política da reitoria de adequar a USP às exigências do mercado.

Além disso, ao publicá-la a Folha de S.Paulo postou-se como agente de uma campanha ideológica que concebia a educação, sobretudo, como negócio. Avaliando a produção universitária das diversas aéreas do conhecimento pelo mesmo critério quantitativo que preside a produção e a circulação das mercadorias, a Folha corroborava os esforços das agências de pesquisa para instituir na comunidade acadêmica nacional a cultura prevalecente no modelo norte-americano de ensino. Essas agências, na medida em que detêm o controle dos recursos que irrigam a pesquisa na Universidade, estimulam e valorizam a produção em série de artigos rápidos que não permitem o aprofundamento da investigação. O sentido primeiro de sua redação fica assim restrito ao reificado objetivo de inchar as estatísticas, fornecendo uma falsa ilusão de produtividade acelerada.

A partir da década de 1990, assiste-se a uma regressão da Folha de S.Paulo à sua posição política anterior e seu paulatino alinhamento ao pensamento “neocon” em ascensão nos Estados Unidos. Desde então, em suas reportagens, opiniões e editorias ela sempre acompanha os conflitos no interior da USP, filtrando-os, no entanto, pela perspectiva da reitoria. Sua cobertura caracteriza-se também por adotar certa reserva, quando não silêncio, diante das discordâncias de alunos, funcionários e professores com a gestão temerária da universidade como bem público. Raramente ela se refere ao processo de desmonte da USP, iniciado há cerca de 20 anos, que mais parece um programa deliberado com vistas a debilitar o ensino e a pesquisa nas Universidades estaduais paulistas.

Por fim, conforme divulgação do próprio jornal, a visita, no último dia 24/03, de toda cúpula burocrática da USP, recebida em almoço pela direção da Folha de S. Paulo, evidencia que a relação entre essas duas partes continua amistosa, ao contrário do que sugere a ombudsman.

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