Tipologia dos intelectuais uspianos

por Alex Cosec (colaborador deste blog)

Este artigo é uma simples divagação. Foi pensado pela primeira vez numa caminhada pela praça do relógio da USP e repensado para o coletivo uspiano “Em defesa da Educação”.

As universidades públicas são o lócus privilegiado do debate de idéias, da produção de ciência pura e aplicada até mesmo do ócio (tempo espiritualmente livre em contraposição ao negócio). Mas elas não ficaram imunes à emergência do capital oligopolista internacionalizado e desviaram-se de suas funções precípuas.

No caso da USP, a interface com o capital privado e com grupos políticos externos gerou uma gama de intelectuais só parcialmente comprometidos com suas finalidades: o ensino de qualidade e a pesquisa de ponta. A massificação sem recursos adicionais contribuiu também para que tivéssemos duas categorias de ensino de graduação e de pós-graduação.

Uma tipologia dos alunos é uma tarefa difícil. A sua passagem pela condição de graduando é rápida e os que permanecem na Universidade tornam-se pesquisadores, funcionários ou professores e mudam de condição. Muitas vezes, também, a militância estudantil é diretamente proporcional à condição financeira, embora nem sempre (e a natureza de classe dos tipos aqui apresentados não está em discussão, a não ser marginalmente.

Corpo Discente

O aluno militante atua num partido ou agrupamento político. Ele pode ser alguém deslocado de uma faculdade a outra para construir um núcleo de sua agremiação. Seu tempo todo é dedicado à diferenciação pessoal com concorrentes discentes e enfrentamento com professores mais ou menos conservadores aos seus olhos. Estuda pouco, cumpre alguns créditos e se tem sorte insere-se, já mais velho, na estrutura de seu partido, pois sua ação inviabiliza a carreira nos lugares por onde passa. Mas às vezes é um militante de causas e não de partidos.

O aluno carreirista puro é aquele que estuda todas as suas ações como simulações de conhecimento, estudo, presença nas rodas certas de docentes, mesuras oportunas sempre com o escopo de obter por presença massiva sua vaga no início da pós- graduação. Normalmente, tem o talento definido por Marx como “a superficialidade profunda”. Mas é muitas vezes um “emergente” de origem humilde e que legitimamente vê a USP como forma de ascensão social.

O aluno carreirista político. Ele combina os dois tipos anteriores e também os nega. Embora pertença a um partido político, ele é apenas trampolim para se alçar à condição de representante discente e exercer seu radicalismo bem temperado na frente de seus futuros possíveis orientadores. Se o objetivo do tipo puro é “parecer”, o objetivo deste é apenas “aparecer”. E enquanto o tipo “militante” tem a USP como meio e o partido como fim, este faz o inverso. Ele tem o partido como meio e a carreira universitária como fim (pessoal). Mas exibe normalmente qualidades de liderança que serão úteis para um futuro administrador universitário.

O estudante profissional. O termo indica uma condição permanente, dada. Ele não tem um compromisso com o curso que faz. Seu interesse é apenas cumprir crédito sem se importar com a forma: decorar conteúdo para provas, plagiar trabalhos de colegas, simular presenças etc. Mas em geral é um jovem que ainda não escolheu o curso certo e é vítima da tradição brasileira de se escolher muito cedo a univeridade.

O estudante profissionalizante. O termo indica não uma condição dada, mas um processo, uma transitoriedade. Ele é o que chega em cima da hora ao início da aula, sai antes do final e passa pela USP como se nunca nela tivesse pisado. Só pensa no diploma como valorização de sua força de trabalho. Visa o mercado e nunca cogita a carreira acadêmica, para ele inacessível, especialmente quando ele tem origem humilde. É acima de tudo um trabalhador.

O estudante estudioso vive numa torre de marfim parnasiana. Seu único interesse é a escorreita tradução de um termo de Ovídio. Ele se interna nas bibliotecas, assiste às aulas e, derivadamente, busca se aproximar da pós-graduação por mérito. É alheio às condições externas que garantem os seus estudos.

Corpo Docente

Os professores também se repartem em tipos.

O intelectual administrativo é aquele que se dedica na maior parte do tempo a galgar postos burocráticos na USP ou fora dela (a convite do Governo). É um especialista na formação de cliques.   Ele é sempre reconhecido pela condição de “gerente” da universidade. Todos sabem quem ele é e precisam em algum momento “tratar” com ele. Mas ninguém sabe o que ele produziu. É aquele que acumula mais poder interno. No entanto, muitas vezes fez algum trabalho acadêmico relevante para ingresso na carreira.

O intelectual pesquisador é aquele que se dedica solitariamente à sua obra acadêmica. Orienta poucos alunos, desdenha as aulas de graduação e se preocupa com a qualidade e ou quantidade de seus artigos científicos. Nunca participou da vida “pública” de sua universidade, salvo para “aparecer” em momentos em que pedem emprestado o seu “prestígio” a alguma causa política. Mas é normalmente deste tipo que surgem os intelectuais expressivos e que mantêm a notoriedade positiva da USP.

O líder intelectual é uma mistura dos dois anteriores. Ele se destaca inicialmente por um trabalho academicamente relevante e se torna líder de um coletivo de pesquisadores de diversos níveis, dedicando-se a articular os conhecimentos específicos deles e a buscar as fontes de financiamento externas. Também acumula poder acadêmico, distribui bolsas a alunos e seu entourage é amplo.

O intelectual político é aquele que usa a universidade para fins político partidários. Pode ser de esquerda ou de direita. Ele faz uso dos recursos públicos nele investidos desde o simples uso do Xerox para jornais e panfletos e convites para seus colegas de corrente política fazer conferências até o simples uso da grife “USP” para se afirmar na vida política do partido ou na disputa de cargos eletivos. Mas derivadamente acaba lutando pela melhoria das condições salariais dos trabalhadores da USP.

O intelectual empresário tem se tornado mais comum. Ele usa igualmente a grife “USP” para trabalhos de consultoria, comandar a pós-graduação em alguma universidade privada, a produção editorial de livros didáticos ou simplesmente gerenciar a própria empresa. Ao contrário do que se imagina, ele é tão comum nas engenharias ou na FEA quanto na FFLCH. Por outro lado ele é uma decorrência da queda do padrão de vida do professor da USP nos últimos 30 anos.

Conclusão

Os tipos acima descritos não são encontrados na realidade em sua forma pura. Não quero dizer que um reitor não possa ser um intelectual político no sentido acima descrito ou que um administrador não possa manter uma razoável produção científica. E nem que cada um desses tipos não seja necessário à instituição. De certa forma, todos contribuem minimamente para que ela exista e se reproduza.

A posição deles também não é uma simples escolha. Se for uma escolha, ela é condicionada fortemente pelo meio que permite a sua reprodução. Por isso, não se deve julgá-los moralmente, até porque todos os professores carregam uma ou mais das características acima elencadas.

Se alguém me perguntasse: em qual desses tipos “fulano de tal” se encaixa? Eu responderia: “em nenhum, afinal são tipos ideais e não reais”. Este autor mesmo pode ser acusado de ter características de vários tipos e talvez mais uma: a falta do que fazer…

O que importa é que de todos os tipos acima descritos, nenhum deles têm a USP como um fim em si mesmo. Esta é, aliás, a única afirmação que uniu um grupo de alunos e professores no coletivo “Em Defesa da Educação”.

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5 comentários
  1. Devanir C. Oliveira disse:

    Como ex-aluno e ex-funcionário da USP, digo que o texto é extremamente feliz ao elencar as categorias gerais que temos na Universidade.
    Parabéns ao autor.
    Devanir C. Oliveira

  2. Sean Purdy disse:

    Alex, uma provocação mas não muito sofisticada e no final das contas injusta às muitas pessoas que se dedicam a construir uma universidade e um mundo melhor.

    Será que podemos categorizar alunos e professores tão facilmente? De fato, todas as suas categorias (weberianas?) são negativas. Onde você colocaria o intelectual político militante no corpo docente? Eu não “uso” a universidade para “fins políticos partidários”. Sou intelectual que faz pesquisa e ensina E militante político da esquerda. Alías, enquanto eu apoio todas as lutas dentro da universidade, eu milito principalmente fora de campus em outras lutas.

    E quem decidiu que a “finalidade” de uma universidade como USP é somente pesquisa e ensino? De fato, a universidade pública é formalmente compromissada com a sociedade. Como qualquer outra ocupação podemos ter compromissso com objetivos mais amplos tal como o avanço da luta contra exploração e oppressão.

  3. E em que tipos o autor do texto se insere? Achei essa tipologia bastante útil para falar “dos outros” e pouco “de mim mesmo”. Faltam tipos, como aqueles ligados à elite cultural (e familiar), e uma multidão de outros pouco típicos. No geral, todos (os tipos elencados), mas sobretudo os do corpo discente, são apresentados como vilões de um romance jusnaturalista. Talvez o “líder intelectual” (do corpo docente…) seja o mais próximo de um mocinho. Esse é o problema dos tipos ideais e da teoria da ação racional. Como, em meio a tantos interesseiros, chegaremos ao “bem comum” universitário? Talvez o problema não esteja nas pessoas, mas sim na teoria.

  4. Mula disse:

    Às vezes é problemático rotular, mas no caso é extremamente oportuno. O autor do texto está tão impregnado de Weber que necessariamente também teve que se colocar como um “tipo”. Um dos maiores problemas desse tipo de categorização é seu efeito de parábola circular. Alguns weberianos até reconheceram o problema da categoria “tipo ideal”. Outros, como no presente texto, ainda utilizam-na sem qualquer perspectiva crítica. Isso sim é um enorme problema para (e na) USP. Como se livrar da maldição de Weber? Improvável. A última tentativa redundou num uso extensivo e, mormente problemático da categoria “campo” de Bourdieu. A coisa degringolou, e com o “tipo ideal” enclausurado em “campos” infinitos transformados em ilimitados objetos de pesquisa, a fragmentação discursiva pensou ter descoberto a galinha dos ovos do ouro. Ao uso irrestrito do “tipo” associou-se o do “campo”, e todas as pesquisas carregam a mesma fórmula mágica da mesmice acadêmica.
    Ora, quer coisa mais alheia ao desconhecimento das “condições externas que garantem os seus estudos” que a própria idéia de promover discussões alienadas de caráter histórico e político se auto-rotulando “Em Defesa da Educação”. Meu amigo, a educação pública nesse estado é apenas mais um capítulo da expropriação descarada da única fonte geradora de valor nessa sociedade: o trabalho individual-coletivo na esfera produtiva. Ou você é daqueles que acha que o ICMS é pago por todos os cidadãos? O ICMS só pode ser gerado pela produção e circulação de mercadorias, sendo apenas uma fração da mais-valia incorporada pelo Estado como estrutura burocrático-repressiva para manter a “ordem e o progresso”. É mais um sobre-valor que recai sobre os assalariados, já que não há nem um sistema tributário minimamente coerente nesse país.
    Agora, o maior escândalo é a conclusão: “O que importa é que de todos os tipos acima descritos, nenhum deles têm a USP como um fim em si mesmo. Esta é, aliás, a única afirmação que uniu um grupo de alunos e professores no coletivo.” A USP como um fim em si mesmo é dose de heroína para injetar nas artérias de um elefante. Obviamente, você não sabe nada sobre geração de valor, por isso pode fazer essa afirmação. Por lógica, se o imposto que mantém a universidade pública é gerado pela exploração da classe trabalhadora, o mínimo que se poderia fazer é lutar pelo ingresso de quem mantém a porra toda funcionando. No mais, esse tipo de conclusão reforça a idéia da contaminação teórica da categoria “campo”: a USP é um fim em si mesmo, como o cachorro que corre atrás do próprio rabo, como um objeto que se defini por aquilo que sobrenaturalmente “é”!
    Definitivamente, não é a Educação que mudará os rumos desse país. Você mesmo descreveu os tipos que fazem parte e comandam a universidade, e por mais que você lute, se o fim da universidade está em si mesma, você e seu coletivo também fazem parte da parábola circular. Educação não muda nada, haja vista as condições problemáticas de grande parte da população de nações com altíssimos índices de educação. Se sua pretensão é que o Brasil se torne um EUA, pesquise um pouco sobre a situação da “cidadania” lá, nos estados do sul, por exemplo.
    Educação adestra, domestica ,acentua diferenças salariais disfarçadas em meritocracia. Ou você acha que o problema da educação no país (e na USP) é fortuitamente um erro de estratégia, de planejamento? O que muda é formação e consciência política, e isso está fora dos planos de uma universidade em qualquer sistema liberal de economia.
    Afinal, “time is money my brother”, e você já devia saber disto. Quer ajudar nas mudanças, arrume um emprego e tente ajudar a resgatar a consciência da classe trabalhadora. Educação é pra poucos, REVOLUÇÃO é pra todos!

  5. Ciro disse:

    Ótimo artigo! mas se me permite, sugiro que seja incluido mais um tipo, ou melhor um “não-tipo”, por que ser transitório até se justirfica o esquecimento pelo autor. Trata-se do aluno que não será nenhum tipo, pelo contrário, por não se adaptar aos tipo de professores e alunos abandona o curso. Em alguns cursos é maioria, na média é a maior parcela dos integrantes. Normalmente e vítima de debilidades de sua própria formação escolar anterior, retaguarda moral e material familiar. Pode parecer determinista mas nem dou muita atenção aos méritos pessoais. O volume de alunos desistentes para mim é o indicador da falência do modelo Universitário, de seleção por predação.

    A estes não foi dado suficiente pão nem os beijos que a República prometera a pobres e ôrfão. E é porque não os verei entre os meu charmosos companheiros estudantes e generosos mestres que eu abandonei a fé na luta pelo ensino público. Sim, apoio o PROUNI e cotas como politicas institucionais compensatórias…da luta universitária que fracassou.

    “Dançam todos, ou não dança ninguém” (Tupamaros)

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