Nota do Centro Acadêmico Iara Iavelberg (Faculdade de Psicologia) sobre o assassinato do estudante da FEA

Gostaríamos inicialmente de nos solidarizar a todos e todas que sofrem a dor dessa perda, bem como a todos que convivem no espaço da FEA, que foi violentamente invadido e modificado. A morte de um jovem é sempre uma tragédia. Uma vida interrompida nos causa muita dor e tristeza.

Nesse sentimento de solidariedade nos dispomos a pensar junto sobre qual o caminho a ser trilhado agora, depois de tamanho susto. É preciso que nos debrucemos com a profundidade necessária sobre esse assunto, bem como, que nos organizemos para evitar mais acontecimentos como esse.

A violência é algo, infelizmente, recorrente; em grande medida, gerada pela desigualdade estrutural do mundo em que vivemos. Não existe saída para muitos jovens dentro da nossa sociedade, que acabam por encontrar espaço apenas no mundo do crime. A USP não é uma bolha, apesar de tentar se cercar entre muros, e por isso reflete os problemas da nossa sociedade e acaba sendo palco de duros casos de violência. Estupros e assaltos não são incomuns. Assassinatos ocorrem com freqüência ao lado da USP. Gostaríamos de nos solidarizar também a todos estes casos que ocorrem para além dos muros da nossa Universidade.

Mas, voltando-nos para esse caso específico da nossa semana, é preciso abrir os olhos para tudo o que se desvelou com essa morte. O sistema de segurança da USP é extremamente problemático. O número de trabalhadores contratados é muito pequeno, grande parte da guarda universitária é terceirizada, o regime de trabalho destes é muito precarizado e a política de segurança para a nossa universidade não é elaborada de forma coletiva, não inclui aqueles que realmente sofrem com problemas de violência. Além disso, a USP vem se fechando cada vez mais, criando lacunas entre a comunidade USP e a população em geral, que não mais se apropria deste espaço e se volta contra essa instituição.

Levando tudo isso em conta, já é possível pensar em muitas medidas imediatas e importantes. O primeiro passo para uma USP segura é abrir a USP. Essa Universidade possui uma imensa área verde, é um centro cultural e político e um espaço público. Já foi palco de muitos show’s, teatros e saraus. A praça do relógio já recebeu show’s de grandes nomes, até de Gilberto Gil. Esse ano, a reitoria proibiu a única festa que vinha acontecendo nessa praça (a festa da calourada). É preciso ir contra isso: ocupar nossos espaços! Tornar a USP uma praça para todos e todas! Isso constrói um sentimento de apropriação do espaço, que aumenta a identificação com esse lugar e a circulação de pessoas também cresce, e isso é uma primeira grande e simples medida para nos proteger: encher nossos espaços.

Ainda muito simples e eficaz, podemos citar duas medidas fundamentais: aumentar a iluminação do campus e cuidar da vegetação da USP, evitando zonas negligenciadas e de difícil observação.

Além disso, há ainda outra questão central: os trabalhadores de segurança. Grande parte da Guarda Universitária é terceirizada e a terceirização reduz as condições de trabalho, os guardas em geral não são treinados e não têm um meio de comunicação entre si que os faz trabalhar em equipe, os fragilizando ainda mais. Também, não têm o direito à sindicalização reconhecido, justamente por serem terceirizados, o que aumenta a exploração destes. É preciso contratar mais funcionários, através de concursos públicos, que garantam condições de trabalho e invistam no treinamento destes. Também é preciso envolvê-los na elaboração de uma política de segurança para a USP. Essa elaboração deve ser através de fóruns democráticos, de modo a preparar toda a comunidade para se proteger e incluir mais a população, para modificar de fato o nosso modo de vida.

As chamadas “tecnologias de segurança” como catraca, câmeras e etc são respostas formais e insuficientes, que apenas aprofundam a segregação e a construção de uma USP elitizada. Vale lembrar que existem câmeras de segurança na FEA. Estas não filmaram os assassinos, não auxiliaram na proteção da vítima e não constrangeram os assaltantes. Alguns prédios da FEA também possuem catracas. Isso não gerou uma FEA segura. Toda medida de segurança deve ser pensada coletivamente e não pode ser apenas um instrumento alienado. Pensar em segurança é pensar em política, em outro modo de conviver e estudar.

A polícia também estava no campus e não cumpriu um papel de proteção. Mas, não se trata apenas de uma questão de ineficiência, é preciso lembrar que essa instituição cumpre um papel repressor e não protetor. Não parece muito estranho uma instituição com tamanho poder, como a polícia, que pode prender, invadir e matar com o apoio da lei seja tão distante da população, nem passe por espaços democráticos de discussão? Enquanto a polícia tiver esse distanciamento da população legitimado, haverá respaldo para o seu autoritarismo e corrupção. Portanto, não se trata de trazê-los para a nossa Universidade, a presença da PM somente reforça essa concepção de segurança segregadora e autoritária. Essa não é a solução.

Por fim, a reitoria não admitiu a sua responsabilidade nesse triste acontecimento. É preciso exigir de Rodas que se inclua nesse debate, não “lave as suas mãos” mais uma vez, como vem fazendo muitas vezes esse ano. Se nos unirmos, e elaborarmos a “segurança que queremos” podemos ficar fortes e avançarmos na construção de uma outra USP: pública de fato, ocupada, vivenciada, aberta e segura! Sem nos esquecer que não se trata de um problema apenas da USP. Nosso papel é pensar em formas de agir em toda a sociedade, pois isolar essa questão na USP, vai na contramão da solução dos nossos problemas de segurança.

Enquanto soluções simplistas e individualistas forem priorizadas, a tendência é só piorar. Por isso, insistimos na importância de que todos participem ativamente nas discussões e decisões que determinam os nossos rumos.

Centro Acadêmico Iara Iavelberg

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