Política sans phrase

Guantánamo: prisioneiros sem acusação ou julgamento submetidos à tortura pelos EUA

por Lincoln Secco

Uma das descobertas de Karl Marx é que a política se desenrola no  palco da igualdade jurídica. Mas a esfera celestial do Direito vela o mundo terreno das desigualdades materiais.

Palco é a palavra certa para a política, esta representação alienada da vida como ela é. Daí porque Marx utiliza uma linguagem teatral em sua obra recém lançada pela Boitempo Editorial (O 18 de brumário de Luís Bonaparte). Ele se refere ao pano de fundo da cena, à caricatura, à tragédia, à farsa, à comédia parlamentar e até ao bufão. A cena oficial burguesa se opõe à intriga real dos bastidores. Ela é a frase.

Assim, o Velho Mundo dos espíritos europeu acostumou-se à fraseologia parlamentar e à sua ficção de direitos humanos. Bem, não era mera ficção para os que os desfrutavam de fato. Acontece que o antípoda daqueles direitos, ao  contrário do que Marx imaginava, não estava mais na classe operária europeia, mas na periferia mundial.

Nesta, a política esteve aquém da frase. A burguesia do “Novo Mundo” simplesmente não disfarçou. Ela assassinava, torturava e rasgava periodicamente sua própria Constituição.

Os cândidos daqui e do lado de lá afirmavam que o futuro da periferia era se igualar ao centro, como se este fosse o destino daquela. Especialmente se ela adotasse eleições livres e seguisse as receitas do livre comércio…

Recentemente, o Governo dos EUA assassinou Osama Bin Laden e alguns incautos que conviviam com ele. Violou a soberania do Paquistão, fuzilou o alvo e, como todos os criminosos bem-sucedidos, sumiu com o corpo. Técnica diferente foi usada dias antes pela OTAN na tentativa de matar Muammar Khadafi: conseguiu tirar a vida de seus netos. A política sem mais (sans phrase), reduzida à atividade mafiosa, promove de vez em quando suas queimas de arquivo. E não se importa com inocentes.

Para os candidos, talvez o mais curioso seja o abandono da frase também no centro. O deputado republicano Peter King afirmou que foi a técnica do afogamento (Waterboarding) que “nos levou a Bin Laden”. E o diretor da CIA, Leo Panetta, afirmou candidamente que torturou no passado recente, embora não saiba se há uma conexão entre a tortura e as informações obtidas agora.

Aprendemos assim que as ditaduras da América Latina ou do Oriente Médio apoiadas pelos EUA não são o passado de barbárie a ser superado, mas o futuro das próprias “democracias” do hemisfério norte.

Sem a resistência do sul, a sofisticada barbárie de europeus e estadunidenses persistirá. Para salvá-los deles mesmos, aqui o conteúdo terá que, finalmente, ir além da frase.

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