O reitor Rodas e a crise da segurança: a doutrina uspiana do choque

Segue uma narrativa de um estudante da USP no site Passa Palavra sobre a série de eventos em torno da segurança da USP, muito comentada ultimamente após a morte do estudante da FEA, morto no estacionamento da faculdade.

Diabo te enganou João Inácio/ Olha pro céu/ puro terra
O canto dos escravos – Canto IV

Abertura

Um estudante de filosofia e morador do CRUSP [Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo] alega ter problemas no coração e pede apoio à guarda universitária, que normalmente oferecia ajuda aos estudantes com problemas, mas, nesse caso, se nega. Samuel pega o ônibus circular e vai até o Hospital Universitário.

Não conseguiu ser atendido, então retorna do mesmo modo para tentar repousar em casa. Quando este sai do ponto, cambaleia na frente da guarda e cai no chão. Uma aluna disse que ele estava com pulso fraco nessa hora e pede ajuda à guarda. A guarda alega que não mexerá num corpo, ao que a amiga responde que ele não é um corpo e que está vivo. Vinte pessoas o viram com vida, mas ninguém o atende. Nenhum destes pode, pois ninguém tinha carro, só a guarda, e então chamam a ambulância. A ambulância não vem. Ele não tinha carro. O Hospital Universitário se localiza a 3 quilômetros de onde veio a falecer. Ele morre. Seu corpo fica exposto ao sol por 6 horas.

A reitoria o encaminha finalmente ao serviço de óbitos naturais. A família retorna e é instruída equivocadamente sobre o procedimento. A família altera o registro e pede investigação quanto ao procedimento. Ele pode ter morrido por causa de uma medida administrativa ou a falta de uma autorização para poder socorrer pessoas? Omissão de socorro administrativo também é um tipo de assassinato? Teria ocorrido alguma mudança no funcionamento da guarda universitária na questão do atendimento de ocorrências ligadas a alunos?

Uma semana depois estivemos entre mais ou menos 15 a 16 pessoas, no máximo, entre amigos, sindicalistas e esquerdistas, alguns moradores da ocupação da COSEAS [Coordenadoria de Assistência Social da USP]. Quase ninguém se indignou com a omissão de socorro que poderia ter matado outro estudante pobre. Ninguém se sentiu pertencente à mesma comunidade ou grupo do estudante morto por omissão.

Primeiro ato:  Bastidores da insegurança

A Universidade de São Paulo, USP, passa por uma mudança brusca na segurança interna e a Polícia Militar, PM, passa a atuar ostensivamente realizando diversas blitz, tendo um carro fixo dentro da universidade e mais outros quatro carros e duas motocicletas que seriam utilizadas em operações eventuais. Para o comandante da PM, Souza, não havia qualquer proibição da entrada da PM no campus, ainda que a proteção ao patrimônio da universidade seja feita pela Guarda Universitária. Deixando claro que houve igualmente reuniões com o reitor sobre furtos de carros no campus. O próprio reitor tratava de tais ações com o nome de “Blitzes preventivas”.

Em matéria do jornal do campus na edição da primeira quinzena de maio, a questão da segurança é tratada sem comentar a presença ostensiva na USP a partir de então, mas como se houvesse uma decisão que passasse pela comunidade acadêmica sobre a presença da PM no campus, e não como uma decisão tomada estritamente pelo reitor. O tom do debate aparece mais como um embate entre “esquerda” e “direita”, lembrando dos episódios recentes de invasão da PM como força de repressão ostensiva contra funcionários e alunos em greve, como em junho de 2009, quando a PM perseguiu os estudantes e funcionários até o prédio da História e Geografia, chegando a lançar gás lacrimogêneo em professores que tentaram negociar. Nestas posições dividiam-se procurando associar aqueles que desejavam segurança com o apoio à invasão da polícia contra os estudantes e funcionários em greve.

Parte dos estudantes parecia querer uma presença total da PM no campus, quase uma utopia total de segurança. No entanto, parece que grande parte destes estudantes desconhece o que é a presença total de policiais militares num determinado local com cancelas e armas de grosso calibre em punho, como a operação saturação que a reportagem do Estado de São Paulo, um mês antes da invasão da USP, mostrou ocorrer em Paraisópolis na matéria chamada de «82 dias de medo em Paraisópolis».

Xico Sá, no Jornal do Campus, no entanto, notou algo grave que teria passado desapercebido pelos estudantes que estavam mais atentos ao conflito entre a gestão atual da AMORCRUSP [Associação dos Moradores do CRUSP] e os estudantes da ocupação do Coseas, que desejam que o prédio de moradias todo seja destinado a moradia estudantil num momento de falta de vagas. Xico Sá, sendo de fora, não compreenderia as pautas normais da USP, conflitos entre estudantes e retoria, mas notou uma mudança da maré no interesse pela segurança. E o que ele notou era importante: “O texto poderia ter explorado e explicado melhor a informação, fornecida pela própria Guarda Universitária, de que houve redução do contingente de homens no período noturno. Não seria um dos motivos da onda de violência? Quantos guardas seriam necessários? O que foi relegado ao pé da matéria vale uma nova pauta.

De fato, por que a guarda teria sido reduzida justamente no período da noite? Isso não pioraria a situação da segurança dos estudantes?

Como vemos, até aqui a Reitoria sabia do aumento de crimes ligados a roubos de carros e mesmo o jornal do campus apurou três sequestros relâmpago, um furto de automóvel e um assalto em um circular, a respeito do qual Xico Sá comenta que “seria pouca coisa em um bairro qualquer da cidade, onde a violência já é quase uma epidemia. No campus universitário da melhor universidade do país é grave, sim”.

A universidade, inclusive, já possuía mapeamento das áreas de risco, mas as ocorrências aumentaram, as áreas mal iluminadas não aumentaram a iluminação nem tiveram maior atenção por parte da guarda. A logística do mais simples já estava na frente da reitoria e os apontamentos por parte da comissão de segurança da USP já haviam sido feitos há mais de um ano, quando em abril já se noticiava o aumento de ocorrência de roubos sem qualquer assinatura da Reitoria.

Interlúdio: A banalização da dor

O estudante Felipe Ramos de Paiva, aluno do curso de Atuária, na Faculdade que sequer se digna a colocar a inicial do seu curso no nome, morreu de morte violenta. Não agonizou por horas, mas teria morrido em decorrência da reação a um assalto. Ele era aluno de Ciências Atuariais e, segundo depoimento do pai, ele teria reagido a assalto duas vezes.

O ocorrido deu-se no estacionamento atrás da FEA [Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade], próximo à área onde foram demolidos barracões que, até o ano passado, tinham aulas e um centro acadêmico, o da Veterinária, onde costumavam circular pessoas. Tudo estava escuro e não havia nem um ponto de observação da guarda, mesmo tendo ficado mais escuro e deserto, o que é mais inseguro ao contrário do que as pessoas acham.

Ao contrário de Samuel, no dia seguinte houve imensa comoção. Aliás, no mesmo dia as pessoas perguntavam no ponto de ônibus: “Poderia ter sido um de nós”; talvez porque nesse caso a violência fosse mais facilmente identificável.

Ocorre imensa comoção nos dias posteriores: todas no sentido de pedir mais polícia. Não a gigantesca Academia de Polícia que se ostenta na entrada do principal portão da Cidade Universitária. É algo mais específico: PM no campus, insuflando um ar de revolta contra quem disputava na Universidade a ideia de que a Universidade deveria ter modos próprios de resolver as questões, ou certa aversão da Universidade à polícia. Retorna o tom em que foi tratada a questão no Jornal do Campus, com a direita a favor de polícia e a esquerda contra. E a “direita” desta vez sai na frente.

Segundo Ato: A Farsa da segurança ou quero mais PM aqui

O reitor Rodas aproveitou e investiu na campanha a favor da PM no campus, adotando no geral uma estratégia de alarmismo e decandentismo, sempre atribuídos, mesmo quando por causa de decisões de sua gestão, a pretensos oponentes de esquerda. Esforça-se para que todas as decisões devam ser respondidas com atitudes sem reflexão e em estado de urgência, alegando, num momento de tensão, que se não fosse decidido algo conforme pensa “– Todos morrerão!”.

Estranhamente, justamente ele, que foi eleito como terceiro colocado numa consulta à comunidade e foi escolhido apenas pelo governador do estado. Ele, que demitiu 271 funcionários sem aviso prévio (e enganados pela Reitoria), que faz reformas de 64 milhões sem qualquer aprovação ou consulta, que comprou imóveis externos no valor de 7,4 milhões, queria cortar 300 vagas de cursos da USP Leste, repentinamente se mostrava preocupado com o embasamento de sua decisão na comunidade e nos colegiados da USP. E isto sobre uma decisão que já havia tomado duas vezes (chamar a Polícia Militar à revelia de qualquer opinião contrária). Era, no mínimo, para quem acompanha sua gestão, algo estranho.

Estranha era a declaração de que a PM não estava no campus por conta de quem tem uma visão equivocada dela, sendo que o próprio comandante da PM alega que ela já está presente no campus.

Outra atitude em que se destacou, mas que foi comum em sua gestão, era aproveitar-se de indicadores negativos, muitas vezes resultados da decisão da própria Reitoria, ou variáveis sem relação, que, de modo oportuno, eram utilizados para embasar medidas administrativas, como havia feito anteriormente com a evasão escolar, visando influenciar decisões no Conselho Universitário. Mesmo quando em questões aparentemente sem relação.

No mesmo sentido, o reitor chegou a alegar que a evasão na USP remetia à questão da segurança, quando disse que “Nenhum pai quer colocar o seu filho em uma universidade pensando que poderá perdê-lo no quinto ano de estudo” e eximiu-se de qualquer atitude interna em relação à segurança que não aplicou, como no caso da guarda quando disse que “o segurança estava presente e foi até o local, porém, após o tiro. Precisamos intervir antes disso”.

Apesar disso, o comandante militar afirma que houve falha de comunicação entre vigilantes. De fato, após o tiro, nem a guarda nem a PM poderiam intervir, mas o reitor, após ajudar a instaurar o pânico, jogou com o imaginário que projeta certo tipo de onipresença da Polícia Militar. A PM já estava no campus, segundo o próprio comandante da PM, mas não é onipresente, ninguém é. Mas o que desejava este grito pela PM no campus? Que haja algo além dos sistemas de monitoramento e segurança de policiamento militar? Seria um policiamento total, que seja totalmente à prova de acidentes?

Certamente isto não é a PM. Mas o reitor, como possui bom domínio da retórica, estudante das arcadas do Largo São Francisco que foi, pôde omitir que a ação necessária prévia seria dele, e termos estruturais que só seriam possíveis caso este fosse seu objetivo, pois, com uma gestão ultra-centralizada e com um orçamento capaz de fazer gastos exorbitantes sem consultas em obras não essenciais, é evidente que poderia levantar ao menos um dedo pela segurança na área.

No entanto, o próprio reitor era o principal expoente da campanha pela PM no campus substituindo os mecanismos mais simples de controle, como iluminação e segurança. No entanto, a segurança é coordenada por alguém que lhe é próximo, o ex-investigador de polícia Ronaldo Penna, que acelerou seu processo de precarização e terceirização e é o responsável direto pela mudança e omissão das atividades da guarda, todas sob aval do reitor.

Terceiro Ato: Behemoth

Alunos tentam conter o impulso inicial fomentando o debate, um representante dos estudantes tenta lembrar que o óbvio inicial não foi contemplado, como iluminação e guarda universitária, devidamente coordenada e equipada para tal, inclusive tentando fazer com que os próprios guardas falassem. O Conselho de Qualidade de Vida e Segurança, que decide sobre estas questões, o impede.

Em particular, seu presidente, José Roberto Cardoso. Este auxilou os trabalhos que decidiram anular a própria função deste conselho com um protocolo obscuro que permite o uso da Polícia Militar com toda liberdade dentro do campus e centraliza a decisão sobre seu controle não numa entidade como o conselho, que, mesmo pró-forma, é obrigada a repassar informações aos presentes (entre as quais um representante dos estudantes). Tal protocolo permitiria liberdade total ao reitor, independentemente de qualquer colegiado quanto à decisão sobre usos possíveis da polícia sem qualquer obrigação de prestação de contas ou informar suas razões.

Durante a ditadura, policiais eram infiltrados entre os alunos para realizar sua vigilância; as próprias faculdades, em alguns casos, cediam nomes falsos de alunos para os policiais infiltrados à procura de atividades subversivas. Eles tiveram papel importante nas invasões de universidades como a UnB. O famoso Cabo Anselmo já se utilizou deste expediente, por exemplo.

Talvez inspirados nesta ideia adaptada a novos tempos, a universidade junto com a polícia se utilizarão de policiais militares que já são estudantes, que serão coordenados e auxiliarão o policiamento da universidade, e isto num contexto de controle centralizado da polícia pela Reitoria. Mas tal pensamento nos é afastado, pois seria apenas uma fantasia da esquerda, baseado na mesma mão que tem operado nossa triste sentença.

Epílogo

No exato dia em que esta medida foi tomada, foi entregue a reintegração de posse à ocupação do COSEAS, mesmo que os estudantes que lá morem hoje não sejam os mesmos que tenham participado da ocupação há quase um ano, mas apenas estudantes que sentem necessidade de vagas no CRUSP para poderem estudar.

Fora da USP, semanas depois desta decisão, houve uma pesada repressão a manifestantes na Avenida Paulista, no dia 21 de maio. Muitas manifestações já ocorreram dentro da USP; no entanto, toda manifestação onde a Polícia Militar circula livremente tem sido imediatamente reprimida com aquilo que chamam de “força excessiva”. Houve a resposta da sociedade com um ato chamado Marcha da Liberdade, que luta para refrear o poder indiscriminado de uma polícia militarizada contra manifestantes desarmados. Uma segunda marcha, com o mesmo teor, foi realizada no dia 18 de junho. Participaram destas Marchas inclusive apoiadores da campanha para presidente do candidato que, quando era governador, empossou o reitor.

E foi na contramão do resto da sociedade que a Universidade se envolveu num movimento exigindo o aprofundamento de mecanismos repressivos, em nome do desejo de segurança e da exclusão da população que não é aluna do campus da própria universidade e dos muitos aparelhos de cultura e lazer que ela possui (na contramão também do caso das manifestações pelo metrô em Higienópolis). Como isso ocorreu?

É ingênuo acreditar que teria sido apenas a partir de um acontecimento acidental, quando houve confronto e um assalto se transformou em assassinato, como descrito por um dos assaltantes, que alegou não ter intenção de matar o jovem Felipe. Uma ocorrência violenta, mas que resultou trágica por um evento fortuito, e teria sido agravada pela falta de iluminação, coordenação entre a segurança da Universidade e as câmeras de vigilância, que vigiam por motivos desconhecidos que não para a segurança das pessoas.

Parte deste evento é ligado às condições estruturais não garantidas pela Reitoria, que tinha outros critérios; parte também por um evento fortuito e algo sobre o qual não se poderia ter controle, mesmo com o policiamento mais eficaz possível, exceto numa sociedade totalmente controlada, o que chamamos ditadura.

Todas as posições divulgadas pela Reitoria sobre o evento difundiam o desejo de policiamento militar ostensivo com um tom que parecia querer atingir a esquerda da Universidade, que não quer a repressão e seus desvios, optando pelo diálogo, como se a Reitoria justamente desqualificasse preventivamente qualquer posição adversária. O resultado foi totalmente favorável ao reitor no sentido de ganhar mecanismos incontroláveis externamente do uso de força policial sem qualquer tipo de prestação de contas. Ou mesmo de um aumento da segurança dos alunos, pois, paradoxalmente, em nome da segurança tudo se torna mais inseguro.

Isso porque, na verdade, tais mecanismos de poder exercidos em nome da segurança parecem tentar anular o que constitui a Universidade naquilo que resta de autêntico, como articulação política, espaços de convivência, diálogo, tolerância e reflexão, graças a técnicas que visam atingir todo o meio onde estes se encontram. O que se daria controlando meios de circulação, financiamento, distribuição espacial e comunicação, mesmo nos meios mais engessados e burocratizados, como os departamentos e o Conselho Universitário, que perde espaço para a centralização de todas as decisões na mão do reitor.

E justamente é nesse momento em que a comunidade universitária parece ceder na reação contra tais ocorrências, que ela se imobiliza como se estivesse em estado de choque. Era isto o que Naomi Klein descreveu no livro A Doutrina do Choque, que se tornou filme. É a habilidade dos governos e gestores inescrupulosos em se utilizarem de eventos casuais chocantes, tanto propositais como induzidos ou previstos, mas que aparecem como fortuitos para as pessoas, para aprofundarem-se mudanças e centralizações administrativas que se aproveitam de momentos de grande comoção.

Tivemos nosso momento disso na Universidade, mas, como a própria Naomi Klein recomenda, tentamos ilustrar com detalhes, pois é somente a memória que pode nos livrar desta perigosa forma de hipnose política antes que se implementem mudanças sem volta que atinjam a todos nós.

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1 comentário
  1. Marcus disse:

    Muito bom! Acho que os termos da discussão estão mais colocados desde o comecinho, e a discussão fica simplificada ao extremo. Os jornais não costumam produzir discussões, mas sim consenso.

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